Entrada de 60 mil migrantes no enclave espanhol de Ceuta desata crise europeia
Comércios locais mantiveram as portas fechadas por orientação da confederação empresarial até que a segurança seja restabelecida

Uma onda migratória sem precedentes atingiu a cidade autônoma de Ceuta, um enclave espanhol de apenas 18,5 km² situado no norte da África. Quase 60 mil pessoas — em sua maioria homens jovens e adolescentes — cruzaram a fronteira a partir do Marrocos por terra e a nado em poucas horas. Segundo o governo local, ao menos 34 pessoas morreram na tentativa de travessia. O evento provocou uma forte crise na União Europeia e levou a Espanha a classificar a situação como um "ataque à integridade territorial".
As chegadas em massa começaram na madrugada de quinta-feira, de acordo com o Ministério do Interior espanhol. Até a sexta-feira, cerca de 37.500 pessoas já haviam sido devolvidas ao território marroquino.
O primeiro-ministro espanhol, o socialista Pedro Sánchez, esteve no enclave na manhã de sexta-feira. Ele reiterou a tese de "ataque à integridade territorial" e responsabilizou "máfias de traficantes" por uma "leitura oportunista" de uma decisão recente do Tribunal Supremo espanhol. Emitida em 8 de julho, a sentença determinou que as devoluciones en caliente (retorno imediato sem processo administrativo de expulsão) não podem ser aplicadas a quem chega por mar, mas apenas a quem salta as cercas fronteiriças.
Reação internacional e embates na Europa
Itália: A primeira-ministra de extrema direita, Giorgia Meloni, adotou um tom duro e declarou que seu país está preparado para agir com "medidas excepcionais (...) como a suspensão da Espanha do Espaço Schengen". A proposta de fechar o bloco à Espanha recebeu apoio da Finlândia e da Dinamarca, embora juristas consultados pela AFP apontem que a medida é impossível de ser aplicada sob o marco legal vigente.
França: O presidente Emmanuel Macron ofereceu auxílio às autoridades espanholas, e o ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, anunciou um reforço na segurança da fronteira entre França e Espanha.
Estados Unidos: Em Washington, o presidente republicano Donald Trump classificou as imagens do enclave como "terríveis". Em entrevista à Fox News, relacionando o caso às eleições de meio de mandato de novembro — nas quais os democratas aparecem em vantagem em algumas pesquisas —, declarou: "Estaremos assim dentro de três anos se o lado errado vencer".
Clima de medo e protestos na cidade de 84 mil habitantes
Em Ceuta, onde vivem cerca de 84.000 pessoas, o cenário é de paralisia e apreensão. Os comércios locais mantiveram as portas fechadas por orientação da confederação empresarial até que a segurança seja restabelecida.
"Fiquei com medo desde o começo. A sensação é como na pandemia, que é melhor ficar trancado em casa do que na rua", relatou Yolanda Moreno, de 56 anos, à AFP. "Se você sai para ajudar, atrapalha o pessoal da polícia ou da Guarda Civil, mas se fica em casa, vai sendo consumido pelos nervos."
Em meio às patrulhas, a reportagem da AFP registrou policiais ameaçando migrantes com cassetetes no centro da cidade, no Paseo del Revellín, ordenando que retornassem à fronteira. Simultaneamente, centenas de moradores protestaram em frente à Prefeitura sob o lema "Ceuta unida jamais será vencida!", com manifestantes entoando gritos como "Vamos para cima deles!" e proferindo insultos ao chefe do governo espanhol.
O presidente da cidade autônoma, Juan Jesús Vivas, criticou a atuação do governo central em Madri, classificando a resposta como "tardia e insuficiente" e desabafando que "suportar essa pressão é absolutamente impossível".
Relatos de tragédia e contexto geopolítico
Do lado marroquino, na cidade vizinha de Castillejos, o marroquino Abdelhakim descreveu à AFP a tentativa frustrada de travessia após caminhar 14 km pelas montanhas: "Disseram para passarmos pelo mar. Mas eu me vi completamente submerso e vi dois jovens (...) morrerem diante dos meus olhos. Então voltei atrás e me lembrei que tenho dois filhos".
O episódio atual traz à memória os eventos de maio de 2021, quando mais de 10 mil pessoas cruzaram a mesma fronteira em apenas dois dias, impulsionadas pelo afrouxamento dos controles de segurança por parte de Rabat durante um desentendimento diplomático com Madri.
Até o momento, o governo do Marrocos não emitiu nenhuma declaração oficial sobre os acontecimentos recentes. A nova crise eclodiu logo após a visita de Pedro Sánchez à Argélia, realizada em 20 de julho — a primeira de um chefe de Governo espanhol em quatro anos —, momento em que os dois países tentavam reaproximação após um período de graves tensões diplomáticas.
Com informações de AFP
A Rádio de Minas. Tudo sobre o futebol mineiro, política, economia e informações de todo o Estado. A Itatiaia dá notícia de tudo.


