A verdadeira geração ‘six seven’: idosos se reinventam e empreendem com a tecnologia
Idosos representam 15,6% da população brasileira, e não querem ficar parados no tempo, eles desafiam estereótipos em busca da realização dos próprios sonhos

Administradora e determinada, como assim se define, Cássia Barbosa, mais conhecida como Cacá, viu o sonho do próprio negócio se concretizar após décadas gerenciando empresas de outras pessoas. Dona do buffet “Mimos da Cacá”, ela trabalha com gastronomia criativa, servindo pratos saborosos e montando mesas personalizadas. Aos 61 anos, Cássia faz parte de uma parcela da população que cresceu 53% no Brasil: os donos de pequenos negócios com 60 anos ou mais.
Ao todo, são mais de 4 milhões de pessoas nessa faixa etária que possuem uma empresa, segundo levantamento feito pelo Sebrae, com base em informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua).
O levantamento mostrou ainda que os donos de pequenos negócios com 60 anos ou mais estão mais escolarizados. Ou seja, em constante busca de conhecimento e de se adequar às novas tecnologias para a gestão de negócios sustentáveis e que, muitas vezes, são a concretização do sonho de uma vida toda.
A pesquisa revelou também que, apesar de manterem poucas horas dedicadas ao negócio, os empreendedores seniores possuem um dos melhores rendimentos entre as faixas etárias e os empreendimentos com maior tempo de atividade.
Por muitos anos, Cacá trabalhou na área administrativa de grandes empresas, mas ao chegar aos 40 anos de idade, percebeu que queria cuidar do próprio negócio. Inspirada pela família composta por exímios cozinheiros, ela sempre alimentou o sonho de trabalhar com gastronomia, então colocou como meta que aos 50 anos sairia do mundo corporativo e abriria a própria empresa.
“E eu sempre fui muito de propósito, eu vinha acalentando esse sonho. Então fiz um planejamento quando eu tinha aproximadamente 40 anos, que aos 50 eu poderia estar onde eu estivesse, da forma que eu estivesse, eu iria sair do mundo corporativo - sendo empreendedora do negócio dos outros - para ser empreendedora do meu negócio”, relembrou.
Aprendizado contínuo
Com o plano no papel, Cássia procurou aprender antes de realmente “colocar a mão na massa”. Em 2014, se graduou em Gastronomia, e abriu o buffet apenas em 2017. Desde o início, a empreendedora atuou de maneira virtual. Ou seja, Cacá sabia que se quisesse que o negócio prosperasse, teria que investir em tecnologia.
"Eu já tinha que ter toda essa questão, desse movimento, porque hoje em dia tudo é na tecnologia mesmo. A tecnologia vem para nos auxiliar, para nos ajudar [...] é evidente que não tenho a expertise, e nem tem que ter, não tem como a gente ser tudo, mas a gente conhecer é fundamental! Eu sempre tive isso na minha vida, sempre fui muito curiosa e continuo até hoje”, afirmou a cozinheira.
Cacá conta que ao longo da trajetória como empreendedora, fez cursos para aprender a usar as redes sociais de maneira estratégica. Aprendeu sobre design na plataforma do Canva e hoje em dia está aprendendo a usar a Inteligência Artificial (IA) para auxiliar no dia a dia da empresa.
“Eu comecei fazendo meus cursos de mídia, esses cursinhos rápidos. Sempre procurei o conhecimento. Nunca foi simplesmente uma ideia [...] eu acho que isso faz com que a gente, inclusive, erre menos”, afirma.
Alguns desses cursos feitos por ela foram realizados no Instituto de Pesquisas e Projetos Empreendedores, o IPPE, uma organização não governamental e sem fins lucrativos. A iniciativa atua Belo Horizonte desde de 2014 com o objetivo de democratizar o conhecimento tecnológico e o empreendedorismo com foco no público 60+.
Em entrevista à Itatiaia, a idealizadora do projeto, Heliane Gomes de Azevedo, de 65 anos, contou que a iniciativa surgiu por meio de um desejo de transformar vidas.
"A longevidade chegou. Nós estamos vivendo mais. Não adianta adicionarmos anos à extensão das nossas vidas se nós não adicionarmos vida à extensão dos nossos anos. O IPPE surgiu exatamente para dar espaço, quebrar o etarismo e transformar vidas [...] dar respeitabilidade para esse encontro tão bonito", explicou.
Segundo Heliane, nos últimos anos, mais de 70 mil pessoas já foram impactadas pelos cursos do Instituto de Pesquisas e Projetos Empreendedores. Temas como Inteligência Artificial, como vender pelo Tiktok, Whatsapp e Instagram, marketing digital, além de rodas de conversas, palestras e iniciativas de socialização são ofertadas pela iniciativa nas formas online e presencial.
“Empreender não é apenas para ganhar dinheiro, dinheiro é importante, mas é também para dar satisfação para que eles se sintam úteis, para que eles sintam que ainda podem. Então, esse estado, ele é muito importante, porque a nossa saúde, ela depende também disso. É o bem-estar físico, mas também o bem-estar mental”, afirmou Heliane.
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Necessidade? Sonho!
Aluna do IPPE, Jurema Morais, de 69 anos, começou a empreender na área de cosméticos artesanais durante a pandemia. Antes ela trabalhava como cabeleireira, mas parou com o ofício em 2019. Durante os anos em que cuidou do cabelo de diversas pessoas, a empreendedora aprendeu e desenvolveu misturas que hidratam, renovam e cuidam dos fios.
Para Jurema, a transição para o empreendedorismo voltado para os cosméticos foi natural, veio de um anseio de muito tempo. “Eu já tinha o curso na área de cosméticos, porque eu fabricava para dar atendimento no próprio salão, não vendia. Era só para o meu uso pessoal. Então eu já tinha essa habilidade. Hoje tem uma marca: Folhas de Sião. Já é uma marca registrada”, explicou.
Além disso, de acordo com o levantamento de 2025 do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) - uma empresa que produz estudos contínuos sobre empreendedorismo no mundo - aproximadamente 63% dos empreendedores sênior empreendem pela oportunidade e não por necessidade.
Em entrevista à Itatiaia, o gerente de Portfólio e Comercialização no Sebrae Minas, Ricardo Pereira, disse que o perfil do empreendedor sênior, hoje em dia, é de uma pessoa que já viveu uma vida inteira como trabalhador, e vê o ato de empreender como uma forma de realizar um sonho antigo.
"É quem já criou os filhos e agora está realizando um sonho, está empreendendo por oportunidade e menos por necessidade, ou seja, é sobre o que 'eu quero fazer, realizar, e aí ganho um dinheiro naquilo que eu queria, meu sonho' ", detalha.
Para ele, se capacitar como empreendedor é importante independente da idade, mas nota que o público maduro, tem mais experiência de vida, e também está mais aberto e mais focado no objetivo.
"Eles [empreendedores sênior] trazem com eles uma bagagem de conhecimento maior do que os jovens que estão começando a empreender com o primeiro negócio [...] Então as pessoas que têm essa idade, pela experiência que tem, pelos erros já cometidos no passado, calculam melhor o risco, são mais persistentes, não vão desistir de qualquer negócio", conta.
"Eles buscam informações em torno daquilo. Muita gente chega aqui no Sebrae e diz 'quero montar um negócio', mas qual negócio? 'Não sei, mas quero um negócio para dar certo', já as pessoas com mais idade têm mais foco", exemplifica.
Ainda segundo Ricardo, a área mais procurada pelos empreendedores é a financeira e marketing digital, especialmente devido ao crescimento das compras online.
"O volume de relacionamento e venda pela rede social também cresceu muito. Então, assim, dependendo do que você vende, você tem que entrar no jogo. Para entrar no jogo, você tem que se capacitar. É aí que a gente entra com capacitação de gestão, com marketing digital, com redes sociais, como atrair o cliente pelas redes, como esquentar as vendas", detalhou.
Os 60 demais!
Aos 70 anos, o casal Maria Helena Cabral e Tarcísio Cabral fizeram das redes sociais um negócio, que hoje soma mais de 700 mil seguidores no Instagram, após anos trabalhando como engenheiros. A dupla percebeu uma necessidade comum entre os idosos: o interesse em ganhar autonomia no uso das novas tecnologias. A partir disso, decidiram ensinar como mexer no celular, como não cair em golpes online e até mesmo gírias relacionadas com universo digital na conta “60 Demais".
Além de vídeos e lives no Instagram, o casal também possui um curso pago na plataforma Hotmart. De acordo com eles, o foco são os idosos. A dupla acredita que esse ensino “de igual para igual” torna o aprendizado mais fácil para as pessoas 60+.
“A nossa ideia é sempre proporcionar aquilo que foi bom para a gente, para os outros, os outros iguais a gente, 60 anos de idade ou mais, e até as pessoas mais jovens que nos acompanham”, afirmou Tarcísio.
No começo, Maria e Tarcísio não imaginaram todo esse alcance. No entanto, o negócio se expandiu e se tornou uma empresa.
“Nós não estamos apenas transmitindo o nosso conhecimento, nós constituímos uma empresa, porque, para garantir a assistência técnica por meio da madrinha de suporte aos alunos do nosso curso 60 Demais, nós temos que manter uma pessoa, ou uma equipe de pessoas, para atender aos nossos alunos, aos nossos seguidores. Então, é gratificante a gente poder ensinar e, ao mesmo tempo, encarar isso como uma atividade empresarial, onde a gente gera empregos”, explicou Tarcísio.
O influenciador explicou que o nome da conta surgiu a partir de uma gíria muito popular na adolescência deles. “A gente falava que uma pessoa melhor do que ótima era uma pessoa demais. Uma música muito boa era uma música demais. Então, um 60 que sabe usar tecnologia, usa o celular como um assistente pessoal, com desenvoltura e segurança, é um ‘60 demais’”, afirmou Tarcísio.
A iniciativa de criar a conta partiu de Maria Helena. Os primeiros vídeos publicados pela ‘60 Demais’ no Instagram foram gravados apenas pela engenheira. Pouco tempo depois, Tarcísio aderiu à ideia, o que deu início ao formato conhecido hoje. De acordo com Maria Helena, a ideia de criar a conta surgiu na pandemia. "Olha, na pandemia [...] as pessoas não lembravam a senha do e-mail e ficavam ‘como é que eu recupero essa senha?’, daí pra frente a gente viu que poderia ensinar muita coisa online", disse Tarcísio.
Tarcísio lembrou que saber usar o celular já foi opcional, mas a habilidade passou a ser essencial para diversas atividades básicas do dia a dia. Com isso, o letramento digital se tornou muito importante para autonomia, principalmente, da pessoa idosa e democratizar esse conhecimento é uma meta do casal.
“Hoje não tem como escapar do mundo digital, porque cada vez mais o mundo vai tendendo para o digital, e quem não conseguir se enquadrar vai ter muita dificuldade e muita dependência da boa vontade de até terceiros, que é aí que mora o problema, porque terceiros, quando vão ensinar, se não for pessoa de confiança, a pessoa está expondo a vida, os dados, e também aí fica sujeita a golpes”, contou.
— Itatiaia (@itatiaia) August 29, 2026
Idosos serão a maior parte da população em 2046
Do início dos anos 2000 até 2023, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais quase duplicou no Brasil, passando de 8,7% para 15,6%, segundo o IBGE. Ao todo, o número subiu de 15,2 milhões para 33 milhões. A tendência, conforme o instituto, é que esse número aumente, o que vai colocar os idosos como a maior parte da população.
Em 2070, pelo menos 37,8% dos habitantes do país serão idosos. Esse valor corresponde a 75,3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais de idade. A idade média da população brasileira também aumentará, passando para 48,4 anos em 2070. Nos últimos 23 anos, a idade média passou de 28,3 anos em 2000 e subiu para 35,5 anos em 2023.
A geriatra Camila Rabelo Monteiro de Andrade apontou que a população está envelhecendo rápido e muitas dessas pessoas chegam aos 60, 70, 80 de forma muito ativa. “As pessoas idosas têm muito para contribuir, tem muito conhecimento, muita experiência”, afirmou.
De acordo com a profissional, tanto o idoso que busca voltar a trabalhar quanto o idoso que prefere descansar devem ter consciência da importância de cuidar da saúde, o que inclui atenção ao sono e a prática de atividade física.
“Uma pessoa idosa que quer trabalhar, que tem propósito, tem uma grande chance de querer estar bem para isso. A gente precisa cuidar da nossa saúde para conseguir trabalhar. Então, ela se manter de forma produtiva, principalmente num trabalho que faça sentido para ela, pode, inclusive, melhorar a saúde dela”, afirmou.
Ainda segundo a geriatra, o interesse pelo aprendizado estimula o cérebro. “A gente tem alguns estudos que mostram os fatores de risco para demência e é comprovado de forma mais importante e o estudo, principalmente na infância, ele protege o nosso cérebro, ele aumenta nossa reserva cognitiva”, explicou.
Camila Rabelo também ressaltou que, ao longo de toda a vida, aprender, estimular o cérebro, diminui a chance de declínio cognitivo. “Então, recomendo para todo mundo achar uma atividade que goste e dedicar um tempo, reservar um tempo na agenda para aprender isso e, de preferência, aprender alguma coisa que possa ser colocada em prática”, continuou.
Formada pela PUC Minas, Gabriela é apaixonada por redes sociais e novidades do meio. Ela faz parte do time de Redes da Itatiaia, mas também contribui nas editorias de Gastronomia e Entretenimento.
Jornalista formada pelo UniBH, é apaixonada pelo dinamismo do factual e pelo poder das histórias bem narradas. Com trajetória que inclui passagens pelo Sistema Faemg Senar, jornal Estado de Minas e g1 Minas, possui experiência em múltiplas plataformas e linguagens. Atualmente, integra a redação da Rádio Itatiaia, onde acompanha os principais acontecimentos de Minas Gerais, do Brasil e do mundo














