Enfermagem nas ruas: o cuidado que começa com um pedido de licença
Debaixo de viadutos e em pontos de concentração da população em situação de rua em Belo Horizonte, enfermeiros levam acolhimento para quem muitas vezes não chega às Unidades de Saúde

Antes de iniciar qualquer atendimento nas ruas de Belo Horizonte, a enfermeira Maria Sílvia de Jesus Nunes Meira, de 44 anos, pede licença. O gesto, que não consta em manuais técnicos, é o primeiro protocolo da rotina dela e de outros nove profissionais de enfermagem que integram as dez equipes do Consultório na Rua (eCR) na capital mineira. Para ela, a aproximação com o paciente em situação de rua exige sensibilidade, mas, acima de tudo, respeito. "Nós não chegamos entrando, né? Não é porque a pessoa está na rua que ela não tem o espaço delimitado", disse.
Foi no trabalho, iniciado em 2023, que Maria Sílvia diz ter aprendido a praticar a empatia. O sentimento, no entanto, não é apenas abstrato: na rotina das equipes, ele se transforma em uma ferramenta essencial para o exercício da profissão. "Uma frase que eu li a primeira vez que vim, quando comecei a estudar sobre a política de atenção básica a pessoas em situação de rua, é que 'a rua não é um mundo fora do nosso mundo'; então, não existe uma diferença", relembra a enfermeira. A frase faz referência ao documentário de mesmo nome, lançado em 2013 pelo Ministério da Saúde, produção que acompanha, ao longo de 22 minutos, a experiência de cinco equipes do Consultório na Rua em São Paulo e no Rio de Janeiro.
A realidade retratada no documentário também faz parte do cotidiano de Belo Horizonte. Na capital mineira, o último levantamento feito pela prefeitura em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 2022, identificou 5.344 pessoas vivendo nas ruas. Esse número, no entanto, pode ser ainda maior, já que dados do Cadastro Único (CadÚnico) para programas sociais apontam que cerca de 16 mil pessoas estão inscritas e se autodeclaram em situação de rua na cidade, de acordo com balanço da prefeitura.
Para atender à demanda, o município conta atualmente com dez equipes itinerantes do Consultório na Rua, cada uma composta por oito profissionais — entre enfermeiros, médicos, psicólogos e assistentes sociais. Em 2025, foram quase 19 mil atendimentos feitos por esses grupos, de segunda a sexta-feira, nas nove regionais da cidade. "As equipes fazem todos os procedimentos que são feitos em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), então são realizados serviços de cobertura de feridas, testes rápidos, administração de medicamentos e exames clínicos", explica a gerente da Rede de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte (SMSA), Kelly Nilo.
O cuidado com essa população, no entanto, não termina quando as unidades fecham. Fora do horário comercial, outros profissionais atuam na linha de frente do atendimento e do cuidado de pessoas em situação de rua. Alana Amorim, de 28 anos, é enfermeira voluntária no projeto Enfermeiros na Rua, um braço do Médicos do Mundo — iniciativa filantrópica que presta serviços humanitários para pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Pelo menos um domingo por mês, o grupo de voluntários se reúne embaixo do Viaduto Santa Tereza, no Centro de Belo Horizonte, oferecendo atendimento clínico para quem precisa. Para além de diagnósticos e tratamentos, Alana conta que, muitas vezes, os pacientes vão até lá em busca de conforto. "A pessoa chega relatando uma dor de cabeça, mas, na verdade, ela só quer conversar. Não quer remédio, só quer ser ouvida", disse.
Em uma das tardes de domingo, já no final do atendimento, a enfermeira guardava os materiais quando foi procurada por uma senhora angustiada. O medo da paciente não era a dor física, mas, sim, o temor de não poder mais abraçar a neta recém-nascida. "Ela chegou até mim e explicou que teve uma exposição. Estava com medo de estar contaminada com alguma coisa porque queria ficar perto dessa neta. Fui até o caminhão e peguei um teste. Quando deu negativo, disse para ela não se preocupar, mas ela chorou e me abraçou", relembra.
Quem cuida também precisa de cuidado
"Não dá para simplesmente ignorar e pensar: 'Vou para casa porque amanhã é outro dia'. Acho que a gente passa a refletir mais sobre a vida". O desabafo de Alana revela um outro lado da profissão. Lidando diariamente com pessoas extremamente vulneráveis, que enfrentam histórias de perdas e batalhas pessoais, ela conta que, muitas vezes, a enfermagem exige que ela "segure o choro" durante ou após um atendimento. "Não tem como não se emocionar quando um paciente volta e te reconhece. Isso não acontece só comigo, mas também com outros voluntários. Somos seres humanos também, não tem como ser apenas profissional. Mas, claro, há momentos em que é preciso guardar o choro e chorar quando estiver voltando para casa, no cantinho", pontua.
A sobrecarga emocional enfrentada por profissionais da enfermagem também aparece nos dados. Entre 2012 e 2024, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) registrou 70.201 licenças de profissionais da enfermagem — incluindo enfermeiros, técnicos e auxiliares — por problemas de saúde mental. Para a psicóloga Juliana Pereira, especialista em saúde mental no ambiente de trabalho, esses números mostram que os problemas não são individuais.
Na avaliação dela, a enfermagem é uma das carreiras mais vulneráveis às "sobrecargas físicas e emocionais". “Quem atua nessa área não cuida apenas do corpo dos pacientes, mas convive diariamente com histórias de dor, perdas e sofrimento. Essa exposição contínua pode gerar o que chamamos de fadiga por compaixão”, explica.
A fadiga por compaixão também é conhecida como estresse traumático secundário. Essa condição, segundo a especialista, acomete principalmente pessoas que atuam com vítimas de desastres, traumas ou doenças. “É um desgaste emocional decorrente do ato de cuidar repetidamente de pessoas em sofrimento. O que observamos também é que muitos desses profissionais criam vínculos com os pacientes e com os familiares, o que aumenta essa carga emocional”, reforça.
Esse impacto emocional também aparece na rotina de Maria Sílvia. Durante o dia a dia de atuação das equipes itinerantes da prefeitura, ela descreve a sensação de terminar o expediente com a "cabeça pesada". "Quando vejo que consegui fazer o mínimo para levar àquele paciente algum conforto, cuidado ou até mesmo a resposta para uma pergunta, isso consegue me aliviar, sabe? Mas é claro que não é fácil. Tem dia em que saímos sobrecarregados com alguma situação que a gente presencia ou escuta", relata.
A enfermeira lembra de um caso específico: uma idosa que veio de outro estado e vive nas ruas há algum tempo com um quadro de demência. "Essa movimentação de pessoas vindas de outros lugares por questões financeiras também mexe muito com a gente. Às vezes, você vê famílias em situação de rua porque perderam tudo. É bem complicado", disse.
Para poder lidar com a dor do outro, a alternativa encontrada por Maria Sílvia foi a terapia. Antes mesmo de atuar com o público em situação de rua, ela já realizava acompanhamento psicológico por conta própria. "A gente sempre precisa. Não tem como não fazer, não. É importante para o nosso bem-estar, até mesmo para conseguirmos trabalhar", conta.
Segundo a gerente Kelly Nilo, a prefeitura oferece às equipes apoio sociofuncional, que inclui supervisões e espaços de discussão para ajudar no processamento de casos de vulnerabilidade extrema. “Normalmente, as pessoas que têm interesse em trabalhar nesse tipo de serviço já têm um certo interesse em trabalhar com populações mais vulnerabilizadas, né? Muitos já passaram por algum tipo de discriminação também. Então, a gente vê que essa questão do vínculo é algo muito forte, muito presente e muito valorizado por eles também”, conclui.
Esta é a primeira reportagem da série 'Cuidar na invisibilidade: o papel da enfermagem no atendimento à população de rua em BH' produzida pela Itatiaia.Clique aqui e aqui para ler as outras matérias.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais, com passagem pela Rádio UFMG Educativa. Na Itatiaia, já foi produtora de programas da grade e repórter da Central de Trânsito Itatiaia Emive.
Formada pela PUC Minas, Maria Fernanda Ramos é repórter das editorias Minas Gerais, Brasil e Mundo na Itatiaia. Antes, passou pelo portal R7, da Record.


















