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Mercado místico vai além das ruas, gera empreendimentos e ganha as redes sociais

Plataformas digitais amplificaram o crescimento de um mercado ancestral, que hoje ganha novos contornos e acumula novos negócios

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Mercado místico impulsiona comércio e geração de renda • Lucas Negrisoli / Itatiaia

Antes escondidos em lambe-lambes estirados nos postes da cidade, místicos aderiram às redes sociais para empreender ou conseguir uma renda extra no fim do mês. Entre administradores, pais e mães de santo, psicólogos e profissionais de todos os campos do conhecimento, as figuras que antes fascinavam o imaginário de quem crê agora estão presentes com força no Instagram, no X, antigo Twitter, no Facebook e no TikTok – plataformas que, além de impulsionarem os pequenos negócios, fomentam um mercado que está em plena ascensão.

Nos Estados Unidos, de acordo com a consultoria IBISWorld em relatório divulgado em 2023, são cerca de US$ 2,2 bilhões por ano movimentados pelo mercado de misticismo. No Brasil ainda não existem dados consolidados sobre o setor, mas figuras como o astrólogo Igor Reale, um dos maiores expoentes do mercado que reúne quase 600 mil seguidores nas redes, indicam um terreno fértil para quem quer empreender

Os serviços pouco mudaram – tiragens personalizadas de tarô, jogos de búzios e feitura de mapas astrais estão entre os mais buscados pelos clientes, assim como a velha promessa de trazer de volta um amor perdido. Nas redes, como nas ruas, os anúncios emplacam o mistério do misticismo e prometem revelações aos clientes, que vociferam anseios ancestrais: o mistério do dia seguinte, a influência das estrelas na vida de cada um e respostas a perguntas que tiram o sono de quem as faz.

Pequenos negócios, como os mantidos pelos místicos, são parte fundamental da economia mineira. De acordo com o painel Inteligência Sebrae, eles contribuem com 32,7% do Produto Interno Bruto (PIB) do estado, e representam quase 90% de todas as empresas registradas em Minas Gerais. A área de serviços, em específico, contempla 60,9% dos pequenos negócios, com mais de 1,6 milhão de registros, conforme a instituição.

Outro estudo do Sebrae, divulgado no ano passado, aponta que empreendimentos de médio e pequeno porte representam 99% do total de empresas formais no Brasil, sendo responsáveis por 52% dos postos de trabalho formais gerados no país, com 19,7 milhões de vagas abertas. Em Minas, micro e pequenas empresas geraram 59% dos empregos até julho de 2025, cerca de 1 milhão de empregos. 

Noivos, o músico Fábio Matos, de 32 anos, e Clara França Valadares compartilham o misticismo como fonte de renda • Lucas Negrisoli / Itatiaia
Noivos, o músico Fábio Matos, de 32 anos, e Clara França Valadares compartilham o misticismo como fonte de renda • Lucas Negrisoli / Itatiaia

Do interesse mútuo, à união e ao negócio – a administradora de empresas Clara França Valadares, de 29 anos, e o músico Fábio Matos, de 32 anos, são noivos e compartilham o misticismo como forma de renda, cada um de seu jeito. Para Clara, a astrologia é, além de uma paixão antiga, uma fonte de renda extra. Para Fábio, a cartomancia é seu principal ganha-pão.

“Minha relação com a cartomancia começou através da minha avó paterna, que era cigana e jogava cartas. Desde criança, sempre tive fascínio por esse universo e, na vida adulta, me aprofundei no Baralho Cigano até transformar a cartomancia e a magia do fogo na minha principal fonte de renda”, conta Fábio. 

O atendimento dele é voltado para orientação espiritual e leitura energética, com foco em questões amorosas, financeiras, profissionais e familiares. “As consultas são feitas de forma individual, com leitura das cartas e análise dos caminhos da pessoa naquele momento, buscando identificar bloqueios, oportunidades e direcionamentos espirituais”, pontua. 

“Além da cartomancia, também trabalho com a magia do fogo para fortalecimento energético e movimentação dos caminhos, sempre de forma séria, ética e responsável. O objetivo do atendimento não é prometer milagres, mas trazer clareza, aconselhamento e apoio espiritual para quem procura ajuda”, acrescenta. 

Para Fábio, as redes sociais possibilitam que o trabalho possa chegar a mais pessoas e também é uma forma de encontrar referências para aperfeiçoar os atendimentos. “Infelizmente, como em qualquer trabalho, também tem muitas pessoas que não se preparam para oferecer um serviço ético e responsável, então é preciso ter bastante atenção e não acreditar em respostas milagrosas”, conclui. 

O músico Fábio Matos, de 32 anos, usa a cartomancia como seu principal meio de sustento • Lucas Negrisoli / Itatiaia
O músico Fábio Matos, de 32 anos, usa a cartomancia como seu principal meio de sustento • Lucas Negrisoli / Itatiaia

Clara conta que estuda astrologia há sete anos e, no início, não via possibilidade de trabalhar com o misticismo. Contudo, com o tempo, surgiram demandas para realizar atendimentos e, hoje, ela atua no mercado para complementar a renda. “É uma forma de continuar exercendo o conhecimento e ainda ter uma renda extra. Hoje, eu tenho um trabalho CLT e faço atendimentos à noite, ao longo da semana, e em alguns fins de semana. Eu ofereço a leitura de Mapa Natal, com interpretações da natureza da vida toda, e a Revolução Solar, que são previsões para o período de um ano, entre um aniversário e outro”, explica. 

“Dessa forma, eu conquistei clientes bastantes fiéis e que sempre me indicam para outras pessoas. As redes sociais são aliadas na divulgação dos trabalhos: a maioria dos clientes vê o Instagram como um cartão de visitas, por exemplo. Entretanto, acredito que nenhum alcance substitui um trabalho de qualidade e que é possível ter fidelização mesmo sem milhares de seguidores. As redes sociais são um meio de chegar até as pessoas e a presença online é fundamental, mas a parte principal do trabalho ainda é acolher as dúvidas e ter sensibilidade para tratar dos questionamentos que as pessoas trazem quando procuram um oráculo”, completa.

Apaixonada por astrologia, Clara França Valadares, de 29 anos, transformou o interesse pelo tema em uma fonte de renda extra • Lucas Negrisoli / Itatiaia
Apaixonada por astrologia, Clara França Valadares, de 29 anos, transformou o interesse pelo tema em uma fonte de renda extra • Lucas Negrisoli / Itatiaia

Desafios e crescimento de mercado pós-pandemia

Márcia Valéria Machado, gerente de Indústria, Comércio e Serviços do Sebrae Minas, explica que o mercado de misticismo existe há mais de um século, mas que houve um crescimento importante no nicho após a pandemia de Covid-19. “Antes disso, me lembro da minha avó buscando respostas a partir da espiritualidade e do autoconhecimento. A busca de sentido das coisas é uma terapia espiritual, conecta pessoas e isso permanece por séculos. Só que com as redes sociais, o mercado ganha escala”, explica.

O mercado é principalmente voltado para a vertical de serviços, segundo Márcia, mas também engloba o comércio e a indústria, principalmente com produtos como velas, mandalas e outros itens ligados ao misticismo. A diferença principal é que, se antes esses produtos ficavam restritos às lojas e comércios físicos, hoje eles ganham tração nas redes sociais e são comercializados abertamente em plataformas como o Instagram e TikTok. 

“Isso tem se escalado em função das tecnologias. Uma coisa interessante é que esse mercado tem baixa barreira de entrada. É um mercado que conecta muito com a imagem daquele empreendedor, se ele reflete segurança, requer estudos, aprofundamento sobre práticas diversas, como tratar o cliente de forma personalizada. Mercado de livros, cursos. Tem escalado muito. Mas um cuidado que tem que ter é não criar falsas promessas”, pondera. 

O empreendedor - assim como o cliente - precisa ter cuidado com o antigo charlatanismo, e preservar sua imagem com muito estudo e ética durante a execução dos trabalhos, afirma Márcia. “O nicho místico é um negócio, pessoas vivem disso há mais de um século, mas é preciso o cuidado da enganação. Muito cuidado para não vender falsas promessas, visto que as respostas estão nas pessoas. O empreendedor precisa se preparar muito e trabalhar de forma transparente, ética e moral. O autoconhecimento abre portas para esse empreendedorismo nichado. É muito mais experiência, experimentar o novo para se conectar com o todo, desde a sua casa, sua roupa, o seu comportamento, o seu cabelo, sua forma de se relacionar. É uma conexão mais plena. As pessoas mais desprendidas, com a cabeça mais aberta, têm feito essas escolhas”, completa.

A psicóloga e taróloga Flávia Moreira, de 29 anos, chegou a ter um espaço dedicado para o misticismo em Belo Horizonte, onde lecionava Yoga, fazia atendimentos de Tarô e mapas astrais. Contudo, após a pandemia de Covid-19, houve uma crise no estabelecimento e ela precisou encerrar as atividades. Em paralelo, ela e o marido abriram uma loja de portas e janelas e, hoje, Flávia retomou os atendimentos com sua cartela de clientes para comemorar o fato de estar há 20 anos trabalhando com as cartas. Ela atua principalmente nas redes sociais. 

“Fiquei um tempo sem atender, e comecei a dar aulas de Yoga no Clube Jaraguá. Quando saí de lá retomei a faculdade e, às vezes, clientes me procuravam para fazer atendimentos. Tenho clientes de décadas. Neste ano, estávamos apertados e, também para comemorar os 20 anos de tarô, retomei os atendimentos para fazer uma renda extra. Minha consulta de uma hora está a R$ 250 e fiz uma promoção de R$ 150. Valor que cobrei há dez anos. Resgatei clientes da época da carochinha. Fiz 20 atendimentos desde que fiz a promoção. Hoje, concilio meu negócio, a psicologia e os atendimentos com tarô”, conta.

Impulsionado pelas redes sociais e pela busca por autoconhecimento, o setor cresce no Brasil e movimenta pequenos negócios que unem espiritualidade, acolhimento e empreendedorismo • Lucas Negrisoli / Itatiaia
Impulsionado pelas redes sociais e pela busca por autoconhecimento, o setor cresce no Brasil e movimenta pequenos negócios que unem espiritualidade, acolhimento e empreendedorismo • Lucas Negrisoli / Itatiaia

Ensinar, acolher e empreender

“Taurina e teimosa”, a professora Flávia Cioffi, de 64 anos, começou, depois que se aposentou, a ministrar cursos sobre várias vertentes do misticismo após mais de 20 anos de magistério. Ela, que teve seu primeiro contato com o tarô aos 14 anos após ganhar um livro de presente de seu pai, hoje compartilha o conhecimento – e empreende – com o saber que acumulou durante a vida. As aulas funcionam em módulos, que vão desde tarô até florais de Bach, homeopatia e reiki.

“Eu consegui sair de alguns lugares difíceis sozinha, mas com muito esforço. E o que que eu percebi? Quando essas terapias apareceram na minha vida, desde pequena lá com 14 anos, eu percebi que porque eu passei uma dificuldade de conseguir, as outras pessoas também podem. Então eu falei: ‘Por que que eu não vou passar isso para os outros?’ Não facilitar a vida de todo mundo, porque eu sou do seguinte pensamento: se você tiver bem, se eu estiver bem, mais 20 pessoas estiverem bem, a gente reverbera para o universo uma força positiva. É um pouco utópica, sou um pouco utópica, mas acho que a gente vai reverter as forças boa”, conta. 

O ‘boom’ nos cursos ministrados por Flávia ocorreu durante a pandemia de Covid-19, principalmente mediado pelas redes sociais e impulsionado pela busca de autoconhecimento que marcou a época. Hoje, os clientes chegam principalmente pela internet, mas a professora já acumulou uma cartela suficiente para ter a agenda cheia mesmo sem ampla divulgação nas plataformas. Os próximos planos são tentar retomar, presencialmente, o que hoje acontece online – grupos de discussão e aprendizagem, experiências com ayahuasca e cursos presenciais estão no cardápio de Flávia. 

Busca por espiritualidade, identidade e pertencimento

A ampliação da busca pelo misticismo pode ser explicada por vários fatores, especialmente entre os mais jovens, segundo psicólogos ouvidos pela reportagem. Um dos fatores mais influentes é o adoecimento mental que vem sendo registrado entre essa população, que coloca o jovem em busca de sentido e pertencimento. 

“A gente pode entender que a relação com o misticismo é uma maneira de lidar com a falta de sentido, é um alívio emocional e uma busca por identidade. Coisas que são muito intensas nessa idade. O jovem precisa se ancorar de alguma forma em um lugar, em um grupo, em alguma perspectiva e o vazio com que essas crianças, esses jovens têm chegado a essa fase, tem sido muito intensa”, explica o psicólogo Vitor Soares.

De acordo com ele, há uma tentativa de combater a desconexão com o mundo através de uma conexão com o misticismo, com mediação fortemente ligada com o mundo virtual. “A gente pode entender também que o misticismo tende a trazer para o jovem uma ideia de validação social, de pertencimento a um grupo. E isso para ele naquele momento pode ser algo extremamente atraente, visto que as crenças, a identidade, os pensamentos ainda estão em formação, ainda são muito novos. Existe um fator também muito grande que a gente pode pensar que é a desconexão com as religiões tradicionais”, completa.

Leituras de tarô e cartomancia estão entre os serviços mais procurados no crescente mercado do misticismo • Lucas Negrisoli / Itatiaia
Leituras de tarô e cartomancia estão entre os serviços mais procurados no crescente mercado do misticismo • Lucas Negrisoli / Itatiaia

A conselheira do Conselho Regional de Psicologia Ana Clara Braga explica que o misticismo pode ser uma busca por respostas que, nem sempre, a ciência consegue fornecer, mas ela pondera que as práticas não podem substituir tratamentos medicinais e terapêuticos tradicionais. 

“A primeira coisa que podemos levar em consideração é que o mercado vem crescendo por algumas razões, algumas mais técnicas e outras relacionadas a aspectos que sempre existiram na experiência humana. Existe uma questão que o mercado lucra muito bem onde existe uma falha dos profissionais de saúde. Uma linguagem excessivamente rebuscada, manter um padrão retrógrado e um distanciamento emocional e até físico dos seus pacientes e pessoas que são do mundo esotérico têm liberdade maior sem estar nesse lugar da formalidade”, pontua.

Ela diz que há uma busca, por quem está em sofrimento, por acolhimento e que, eventualmente, o misticismo ocupa esse espaço. “Quando estamos falando de casos como uma leitura de tarô, reiki, coisas que não causam danos e é mais ligado à uma crença, acredito que sempre existiu, historicamente, um desejo de autocompreensão. Temos muitas dúvidas não solucionáveis. O que é a vida, o sentido, o amor. Temos várias perguntas sem respostas. Isso vale para a vida pessoal. São coisas que não têm uma resposta pragmática e simples pautada na ciência”, explica. 

“Esses aspectos mais místicos vêm como um acalento. Uma pessoa que teve um término, talvez procurar um tarô seja uma forma de dar um ponto final para a situação e sentir que teve uma finalização. Enquanto terapeuta, tento ao máximo fazer uma leitura ponderada. Pode ser um complemento que a prática científica não consegue preencher. É uma busca emocional, que, às vezes, o paciente consegue elaborar com o misticismo”, conclui.

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Jornalista pela UFMG, Lucas Negrisoli é editor de política. Tem experiência em coberturas de política, economia, tecnologia e trends. Tem passagens como repórter pelo jornal O Tempo e como editor pelo portal BHAZ. Foi agraciado com o prêmio CDL/BH em 2024.