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Enfermagem: antes das ruas, o cuidado começa na sala de aula

Projeto da UFMG aproxima estudantes da população em situação de rua e mostra como a formação acadêmica, os estágios e a educação permanente ajudam a preparar profissionais para um cuidado cada vez mais humanizado

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A Escola de Enfermagem da UFMG desenvolve um projeto de extensão voltado para a educação em saúde. • Luisa Marques/Itatiaia.

Antes de chegar às ruas de Belo Horizonte ou aos corredores dos hospitais, o cuidado prestado pela enfermagem começa dentro da universidade. Na Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a professora e enfermeira Giselle Lima de Freitas coordena, desde 2019, o projeto de extensão Saúde na Rua, criado para aproximar estudantes da realidade vivida por pessoas em situação de vulnerabilidade ainda durante a graduação.

A iniciativa surgiu a partir de uma demanda apresentada pelos próprios Centros de Saúde de Belo Horizonte, que identificaram a necessidade de ampliar a assistência à população em situação de rua. "A gente pensou então em um projeto que pudesse trabalhar com esse público de forma articulada com outros serviços", explica.

O projeto reúne estudantes bolsistas da graduação e da pós-graduação da Escola de Enfermagem e desenvolve atividades de assistência, acolhimento e educação em saúde voltadas à população em situação de rua da capital mineira. As ações são planejadas a partir das demandas apresentadas pelos próprios usuários dos Centros de Referência para a População em Situação de Rua (Centros POP). "Eles apontam para gente que precisam saber um pouco mais sobre determinada doença ou condição, sobre algum serviço público da saúde. A partir disso, desenvolvemos ações educativas de forma que haja constante participação de quem está no Centro POP naquele momento", conta.

Mais do que orientar sobre doenças ou acesso aos serviços públicos, o projeto busca formar profissionais preparados para lidar com diferentes realidades sociais. "A Política Nacional para a População em Situação de Rua é de 2009, ou seja, não tem nem 20 anos, e ainda existe o estigma, a dificuldade desse público em acessar alguns serviços, então é preciso trabalhar também com os nossos profissionais na sensibilização. Infelizmente, as desigualdades sociais fazem com que a gente observe o aumento do número de pessoas vivendo nas ruas", explicou.

Professora e enfermeira da UFMG Giselle Lima de Freitas. • Luisa Marques/Itatiaia.
Professora e enfermeira da UFMG Giselle Lima de Freitas. • Luisa Marques/Itatiaia.

A necessidade dessa formação acompanha o crescimento da própria profissão. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que o número de concluintes dos cursos de enfermagem passou de 212.269, em 2020, para 274.084, em 2024.

Para Giselle, o aumento do número de profissionais precisa ser acompanhado de uma formação que vá além das técnicas aprendidas em sala de aula. Na UFMG, além das disciplinas teóricas, os estudantes participam de estágios obrigatórios e de projetos de extensão, como o Saúde na Rua. Ainda assim, a professora afirma que a qualificação não termina com a graduação. "Um ponto que eu toco sempre é a necessidade da gente trabalhar a educação permanente com quem está na ponta. Muitas vezes os profissionais precisam de uma 'reciclagem' para desenvolver uma capacidade ou habilidade, uma sensibilidade para a atuação com estes públicos", disse.

• Arte / Itatiaia
• Arte / Itatiaia

A necessidade desse preparo também acompanha a mudança no perfil da população atendida pelos serviços de saúde. Levantamento divulgado pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da UFMG, mostra que, até dezembro de 2024, havia 358 mil pessoas vivendo nas ruas do Brasil, com maior concentração em São Paulo (148 mil), Rio de Janeiro (33 mil) e Minas Gerais (32 mil).

Segundo o Ministério da Saúde, essa população apresenta maior vulnerabilidade à tuberculose e tem 54 vezes mais chance de desenvolver a doença do que a população em geral. "A tuberculose aumenta esse estigma. O paciente já está em situação de rua e tem, por exemplo, uma doença que, às vezes, é desconhecida, que para muitos, embora isso não seja verdade, vai exigir um isolamento que não é real", explica a professora.

Para a enfermeira e conselheira do Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais (Coren-MG), Cássia Quintão, esse cenário reforça a necessidade de uma formação baseada também na humanização. "Esse atendimento exige um cuidado mais humanizado, livre de preconceitos. "O profissional precisa se basear no respeito e na dignidade de cada pessoa", descreve.

Segundo o secretário adjunto da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) do Ministério da Saúde, Ilano Barreto, os cursos de graduação têm incorporado vivências que contribuem para a formação ética e técnica dos futuros profissionais. Além disso, segundo ele, toda a rede do Sistema Único de Saúde (SUS) desenvolve iniciativas permanentes de qualificação. "O perfil profissional tem que estar muito atrelado também a fazer a escuta qualificada, justamente para que o servidor compreenda que as vulnerabilidades sociais e econômicas fazem parte daquele contexto", descreve.

Para Barreto, compreender essa realidade também ajuda os profissionais a enfrentar uma rotina de trabalho que pode ser extenuante. Segundo ele, o Ministério da Saúde tem investido em capacitações voltadas ao manejo de situações de estresse e ao incentivo de práticas integrativas dentro da rede pública.

Para Cássia Quintão, a formação humanizada é o que permite ao enfermeiro exercer um papel que vai além da assistência técnica. Ela define esses profissionais como a porta de entrada de muitos pacientes no sistema público de saúde. "Quando conseguimos a adesão deste paciente ao tratamento, criamos esse vínculo e conseguimos fazer com que ele cuide da sua saúde, o que nos dá um ganho enorme como pessoa e como profissional", destaca.

Atualmente, segundo o Ministério da Saúde, 3.200 trabalhadores integram as 337 equipes do Consultório na Rua, distribuídas por 209 municípios brasileiros. A maior parte desses profissionais é da enfermagem, com 509 enfermeiros e 720 técnicos de enfermagem.

A SASP prevê que, até o fim de 2027, o Brasil conte com pelo menos 400 equipes do Consultório na Rua. "Enfermagem e cuidado são sinônimos. Quando a gente fala de uma equipe do Consultório na Rua e sobre a população em situação de rua, o papel da enfermagem é produzir um cuidado humanizado, digno e efetivo. Esses profissionais têm um papel central para que a demanda desse público seja atendida", finaliza o secretário.

Esta é a terceira reportagem da série 'Cuidar na invisibilidade: o papel da enfermagem no atendimento à população de rua em BH' produzida pela Itatiaia.Clique aqui e aqui para ler as outras matérias.

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Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais, com passagem pela Rádio UFMG Educativa. Na Itatiaia, já foi produtora de programas da grade e repórter da Central de Trânsito Itatiaia Emive.

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Formada pela PUC Minas, Maria Fernanda Ramos é repórter das editorias Minas Gerais, Brasil e Mundo na Itatiaia. Antes, passou pelo portal R7, da Record.

 

 

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