Bob Marley faria 80 anos hoje: jamaicano levou o reggae e a fé rastafári para o mundo

Jamaicano é referência para diferentes estilos musicais mesmo 44 anos após sua morte

Mural no museu Bob Marley, em Kingston, Jamaica, mostra o cantor com a família e jogando futebol

Há exatos 80 anos, em 6 de fevereiro de 1945, nascia em Nine Mile, na Jamaica, Robert Nesta Marley. Em apenas 36 anos de vida, Bob Marley tornou-se um embaixador do reggae, da fé rastafári e da luta contra a opressão a populações negras, notadamente no Caribe e na África.

Marley é único: nenhum outro músico da América Latina alcançou sucesso global perene e se tornou a personificação de um estilo como ele. Além de abrir o mundo para o reggae, influenciou estilos improváveis como o pós-punk e o reggaton. Quem diria que o rocksteady e o ska de Marley com Peter Tosh e Bunny Wailer teria tanta influência na música brasileira, que ecoa de Gilberto Gil e a Tropicália ao rock dos anos 80 e 90, do axé ao pop dos anos 2020.

“Bob Marley foi o principal nome a levar a Jamaica para o mundo, para o mainstream. Desde a questão mística, do rastafári, à questão política e as letras com temática social. É uma coisa que até hoje é realmente muito contemporâneo, né? O mundo mudou, mas em essência mudou pouco, por isso Bob Marley continua vivo em relação à realidade do planeta. Guerra, desunião dos povos. Acho que é muito em função da atualidade das letras em relação ao cenário mundial”, opina Pedro Varella, idealizador dos projetos DeSkaReggae e DeSkaSound, que levam ao público diversas vertentes do reggae.

Leonardo Vidigal é professor da UFMG e faz pós-doutorado na Inglaterra sobre a cultura dos sound systems. “O legado de Bob Marley é imenso, está na bandeiras das torcidas organizadas, nas camisetas, nos grafites com sua figura inconfundível espalhada pelo mundo, mas principalmente na sua música e na sua mensagem. A mensagem de união e luta pelos direitos dos menos favorecidos nas canções de Bob Marley é mais atual do que nunca”, lembra.

Mas como o reggae se consolidou em culturas tão diferentes? “As equipes de som foram a razão da existência do reggae nos primeiros anos, pois era para os sound systems que se produziam músicas originais nos anos 60. Pois a cada país que Bob Marley visitou em sua curta vida, surgiu uma cena forte de sound system, seja aqui, seja na Alemanha, Itália, Nova Zelândia ou Brasil”, explica Vidigal.

Em maio de 2025, completa-se 44 anos da morte de Marley, mas seus discos carregam um frescor que não sai de moda. É uma nostalgia estranha, reconhecível de um tempo e, ainda assim, carregado de novidade. A força entre os jovens pode ser medida pela internet: morto há quase meio século, Marley alcança hoje 23 milhões de ouvintes por dia somente no Spotify. Quem nunca cantarolou ‘Three Little Birds’ ou ‘One Love’?

“Rivelino, Jairzinho, Pelé... a Jamaica gosta de futebol por causa do Brasil”, explicou Bob Marley durante uma visita ao Rio de Janeiro, em 1980, para jogar bola com Chico Buarque, Toquinho e Paulo Cezar Caju. Só há fotos do encontro, e nenhuma música, já que a ditadura militar não liberou visto de trabalho para os rastafáris que fizeram escala em Manaus e Brasília.

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No futebol, também se deparou com o início do fim: o machucado no pé em uma partida o levou a descobrir um melanoma. Recusou a amputação e o tratamento convencional e apelou para métodos alternativos, mas o tumor se espalhou. Em 11 de maio de 1981, enquanto tentava retornar à Jamaica para passar os últimos dias, Bob Marley morreu durante uma escala em Miami (EUA).

A trilha sonora do filme “Bob Marley: One Love” ganhou na última semana o Grammy de melhor disco de reggae do ano, mostrando como o soft power jamaicano segue potente e alimentando sonhos. Poucos cantores, como Marley, transcendem um estilo e tornam-se uma ideia.


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Enzo Menezes é chefe de reportagem do portal da Itatiaia desde 2022. Mestrando em Comunicação Social na UFMG, fez pós-graduação na Escola do Legislativo da ALMG e jornalismo na Fumec. Foi produtor e coordenador de produção da Record e repórter do R7 e de O Tempo

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