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Como a Uber espalhou seu conceito pelo mundo

Método incluía táticas eticamente questionáveis e potencialmente ilegais

Empresa supostamente fazia tráfico de influências para obter benefícios

Arquivos Uber. Esse foi o nome dado a uma coleção com 124 mil documentos internos de 2013 a 2017 que descrevem a estratégia de expansão global da plataforma de mobilidade. O material foi enviado ao The Guardian e compartilhado com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (International Consortium of Investigative Journalists – ICIJ) e outros veículos de comunicação.

De modo geral, a companhia se aproximava de primeiros-ministros, presidentes, bilionários, oligarcas e empresários de comunicação. Na França, por exemplo, obteve de Emmanuel Macron, então ministro da Economia do país, a promessa de alterar leis para beneficiar a empresa em junho de 2015. Meses depois, ele assinou legislação para regulamentar o cadastro de motoristas na empresa.

Já Neelie Kroes, que era comissária da União Europeia, negociava sua entrada no conselho consultivo da Uber enquanto ainda estava no posto. Depois, passou a fazer lobby para a empresa informalmente antes de se juntar à equipe. Esse comportamento teria contribuído para influenciar várias nações europeias a mudarem suas leis para aceitar o transporte por aplicativo.

Emmanuel Macron, presidente da França, é acusado de beneficiar a Uber

Da economia criativa à violência

Quando foi lançada, a Uber se apresentava como uma empresa de economia criativa: em sua plataforma, pessoas comuns poderiam dar caronas umas para outras. Quando o negócio começou a crescer, foi preciso profissionalizar o serviço — que, a essa altura, passou a incomodar diferentes categorias do setor de transportes, como os taxistas.

As técnicas de crescimento incluíam o desligamento total dos sistemas de computadores da empresa em um escritório de Amsterdã durante uma inspeção “para impedir que as autoridades investigassem as práticas da companhia”, ataques violentos a motoristas e um manual que informava para nunca deixar os reguladores em paz — uma forma de influenciar os técnicos a favorecerem a companhia. 

Bélgica, Holanda, Espanha e Itália são alguns dos países em que os motoristas parceiros eram incentivados a denunciar violência sofrida à polícia. E as represálias na Europa eram constantes, uma vez que os taxistas os viam como ameaça. Segundo a investigação, "em alguns casos, a Uber reagia rapidamente para capitalizar sobre os ataques aos motoristas" em busca de apoio regulatório e público. Os executivos da empresa sabiam que infringiam as leis: um deles chegou a comparar a Uber a piratas. 

Violência contra motoristas de Uber pode ter sido incentivada pela empresa

Nairi Hourdajian, head global de comunicações, disse a um colega em 2014: “Às vezes temos problemas porque, bem, somos completamente ilegais”. Em 2016, Travis Kalanick, cofundador da empresa e seu ex-CEO, teria dado ordens a funcionários na França para incentivarem motoristas parceiros franceses a participarem de manifestações de taxistas. A ideia era manter a controvérsia para pressionar o governo francês a adotar políticas em favor do aplicativo. “A violência garante o sucesso”, teria dito ele em 2016.

O que diz a Uber

Em comunicado oficial, assinado por Jill Hazelbaker, vice-presidente sênior de marketing e relações públicas da Uber, a companhia admite os erros e classifica o caso como um dos "mais infames acertos de contas da história dos EUA corporativo". Além disso, alega que a empresa passou de uma "era de confronto para uma de colaboração" desde que Kalanick foi substituído por Dara Khosrowshahi, o atual CEO, em 2017, após denúncias de assédio sexual. 

Segundo a corporação, isso levou a ações judiciais, investigações governamentais e dispensa de executivos. "Quando dizemos que a Uber é uma empresa diferente hoje, queremos dizer literalmente: 90% dos atuais funcionários entraram depois que Khosrowshahi se tornou CEO", informa o comunicado. As descobertas se comparam às do Arquivo Facebook (Facebook Papers), sobre estratégias questionáveis da Meta em relação a resultados de pesquisas, propagandas e outras atividades.

Já Kalanick nega as acusações. Devon Spurgeon, sua porta-voz, diz que ele "nunca sugeriu que a Uber se aproveitasse da violência às custas da segurança de seus motoristas". Segundo ela, Kalanick "nunca autorizou ação ou programa que obstruísse a justiça em nenhum país". 

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