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O ‘senso comum’ e o preconceito enraizado com os transtornos mentais graves

Falas ofensivas e pejorativas podem afastar ainda mais os pacientes

O preconceito com o tratamento também pode afastar os pacientes de tratamento adequado

O preconceito muitas vezes se confunde com senso comum, que não ajuda em nada na recuperação de quem sofre de transtorno mental. 

Olhar com medo ou desconfiança para uma pessoa que passa por essa situação pode resultar em isolamento, tristeza ou até depressão, criando um estigma que deve ser combatido, como explica o psiquiatra, Paulo José Teixeira. 

“A primeira coisa é a sociedade entender que o risco de violência de um paciente com transtorno mental grave, devidamente tratado, é o mesmo de qualquer indivíduo na população. A grande maioria dos pacientes com transtorno mental grave não cometerá violência, mas aqueles que, porventura, cometeriam, não fazem se estiverem devidamente tratados”, explica.

O medo de atitudes agressivas por parte dos pacientes acomete grande parte da população, mas, muitas vezes, é direcionado para uma pequena parcela dos doentes, como explica Paulo.

“Não querem que pacientes com transtornos mentais sejam atendidos em pronto-socorros. Pacientes com transtornos mentais muitas vezes são mal vistos nos postos de saúde. Grandes hospitais gerais não querem ter unidades psiquiátricas e diante de qualquer dificuldade com o paciente que está causando um certo incômodo, seja no condomínio, seja no trabalho, já pensam logo em afastá-lo e colocá-lo à distância ao invés de buscar um tratamento adequado”, critica.

Ainda de acordo com o psiquiatra, tais atitudes podem ocasionar em um afastamento ainda maior do paciente, fazendo com que ele opte por não procurar atendimentos e se feche dentro de casa diante da primeira dificuldade ou ofensa. Isso pode diminuir de forma substancial a possibilidade de reinserção social.

Drama na família

Aqueles que convivem com quem sofre desse problema também acaba sofrendo com o preconceito. Como por exemplo essa senhora, cuja filha de 20 anos tem transtorno bipolar grave.

“Minha filha já sofreu preconceito de atitudes que ela teve até mesmo no próprio estágio, qualquer pessoa veria que tinha algum problema ali e as pessoas foram se afastando dela. Se ela passava, passavam para o outro lado, viravam a cara e qualquer pessoa sente quando ela está sendo evitada”, conta.

Psicofobia

Para o psiquiatra Rodrigo Barreto Huguet, o preconceito ou a psicofobia, pode refletir na mente do paciente de uma forma que ele mesmo tenha dificuldade para se cuidar. 

“O preconceito atrapalha inclusive a aderência do tratamento. Muitos pacientes acreditam que tratar com psiquiatra, tomar medicação, vai desqualificar ele, afirmar que ele é doido, que é inferior, que não tem força de vontade, quando seria o contrário. Na verdade ele precisa fazer o tratamento psiquiátrico e tomar a medicação para ficar bem e pra ter uma vida adequada, satisfatória. O fato é que a flexibilidade é uma força, ser flexível é reconhecer que você precisa de ajuda e procurar ajuda adequada”, ressalta.

A psicofobia é muito alimentada pela falta de conhecimento das pessoas acerca do assunto e do entendimento de que um paciente de transtorno mental não é necessariamente ‘doido’, mas que, na verdade, ele apenas precisa de atenção especial.

“Se o ‘José Francisco’ tem esquizofrenia, isso não o define, ele é o José, que tem uma série de qualidades e tem esquizofrenia que ele trata. O fato de ter um transtorno psiquiátrico não define ela e nem desqualifica ela”, defende.

Vencer essa etapa do preconceito é difícil, mas não impossível. Como exemplo, vale citar o caso de um funcionário público da grande BH. Hoje com 44 anos, aos 28, foi diagnosticado com transtorno bipolar grave. Ficou internado, chegou a tentar suicídio e hoje, mediante tratamento adequado, leva uma vida normal, casado, tem uma filha. Mas, ser chamado de doido no passado, o incomodava bastante. 

"Quando eu ouvia a palavra ‘doido’ eu ficava incomodado. Fica pensando: ‘ah, é comigo’. Hoje sem nada, lá atrás incomodava”, lembra.

Amanhã nossa série vai abordar o problema das pessoas com transtornos mentais em situação de rua. Outro episódio que também tem o preconceito como pano de fundo. Mais um bicho de sete cabeças.

Para acompanhar o último episódio sobre a luta antimanicomial, clique neste link.

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