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Especialistas opinam sobre a luta antimanicomial e transtornos mentais de pacientes: confira

Atrocidades cometidas em hospital de Barbacena ganharam notoriedade mundial após publicação de livro 

O capítulo desta quarta-feira (25) da série “O transtorno mental e o preconceito” garante que vai dividir opiniões. A luta antimanicomial, que teve a data decretada em 18 de maio de 1987, se baseou nas atrocidades cometidas contra pacientes por décadas no Hospital Colônia de Barbacena, no interior de Minas, onde 60 mil pessoas morreram por maus tratos desde o início do século passado até o fim dos anos de 1980. 

O caso ganhou notoriedade mundial tempos depois com o livro e documentário “Holocausto Brasileiro”, idealizado pela jornalista Daniela Arbex. Até hoje, ela não consegue apontar um único culpado por aquelas barbáries. 

“Uma das coisas que mais me impressionou é como a omissão coletiva gera barbárie. O hospital funcionou de maneira precária e vivendo todo tipo de violência institucional em função da omissão. Uma história de violência e de segregação não permanece por tanto tempo se não houver omissão coletiva. A cultura da época, que era de limpeza social, sustentou o modelo de segregação e, infelizmente, a visão excludente permanece até hoje. Somos uma sociedade genista, que varre tudo pra debaixo do tapete. Tudo que nos incomoda, a gente continua fingindo que não vê”, afirma. 

“O holocausto brasileiro é uma lente para nos fazer enxergar o que a gente não conseguiu enxergar e para nos ajudar a construir uma realidade de mais acolhimento e um futuro de mais inclusão”, complementa Daniela Arbex. 

A reforma psiquiátrica de 1987 é considerada um marco na luta antimanicomial. Fernando Siqueira, gerente de Saúde Mental da prefeitura de BH, conta a história desse movimento. 

“A reforma psiquiátrica começa a partir da visualização dos usuários que estavam encarcerados e ficando nos manicômios durante a vida toda, sendo excluídos da sociedade. A política de exclusão foi feita por diversos países, inclusive no Brasil. A partir da década de 1970 e 1980, com a reforma sanitária e a criação do SUS, houve uma modificação do tratamento das pessoas com transtorno mental. A luta antimanicomial traz a necessidade que o tratamento seja feito em liberdade e próximo da casa dessas pessoas, porque as pessoas de Belo Horizonte iam para Barbacena e ficavam a vida inteira e morriam, com assassinato de diversos portadores de sofrimento mental, tendo seus corpos usados em aulas de medicina”, detalha Fernando. 

Mais especialistas divergem da proposta da luta. Um deles é o psiquiatra Paulo José Teixeira, que acredita em um viés político como plano de fundo. 

“Fala-se muito no Brasil do negacionismo, da extrema direita, negando a pandemia, os tratamentos eficazes no caso da covid. Agora, a extrema esquerda em Belo Horizonte também tem um negacionismo científico em relação aos tratamentos dos doentes mentais. Negam a necessidade de internação psiquiátrica por períodos breves, de poucas semanas para pacientes extremamente graves, que seria a melhor estrutura e nega também algumas técnicas de tratamento que podem ser usadas em casos extremamente graves, como a eletroconvulsoterapia”, pontua. 

Pensamento parecido tem o também psiquiatra Rodrigo Barreto, que defende a internação em alguns casos. 

“A internação psiquiátrica não é boa nem ruim, é como uma ferramenta. Claro que uma internação psiquiátrica mal indicada para uma pessoa que não precisa é ruim, é traumática. Mas, quando é para uma pessoa que precisa, ela pode salvar a vida do paciente e dos outros. A psiquiatria, assim como o resto da medicina, tem que ser olhado por um viés científico e não viés ideológico. O paciente psiquiátrico tem que ser tratado de forma humana, com respeito, e isso quer dizer que ele tem que ter acesso a todas as ferramentas disponíveis. Desde os tratamentos biológicos até às psicoterapias, ao tratamento ambulatorial, ao tratamento no hospital e, quando necessário, também à internação”, declara. 

René Dentz, psicanalista e professor universitário, é a favor da luta antimanicomial. Para ele, a inserção na sociedade do paciente não depende necessariamente de uma internação e sim de mais intervenção do Estado. 

“É possível reinserir na sociedade, mas o Estado tem que dar suporte às famílias, porque precisa de acompanhamento psiquiátrico, de medicamentos, não pode estar solto. Esse suporte é complexo, porque as pessoas lidam com situações diárias de trabalho e, ao mesmo tempo, lidar com o paciente. Nesse sentido, sou contra a existência desse tipo de instituição”, enfatiza. 

A psicóloga Roseli Schmidt também é a favor da luta e explica o motivo. 

“Manicômio é um cárcere. Manter pessoas presas é enxergar uma sociedade mais pobre. Nós, enquanto sociedade, como seres humanos, temos que prezar pela liberdade. A gente nasce livre, e não é porque sou diferente, que tenho um problema, que o meu lugar é ficar separado, pelo contrário. Trancar não é cuidar. Nunca foi. Toda vez que você ouvir um barulho de uma tranca, isso assusta, e não faz parte de uma sociedade civilizada. A luta antimanicomial é cidadania, é dignidade e é uma evolução da nossa sociedade”, conclui. 

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