Contagem quer crescer sem perder a qualidade de vida
Ricardo Faria, prefeito de Contagem, afirma que a política de desenvolvimento econômico precisa considerar também os pequenos negócios e a economia informal

Contagem vive um novo momento de desenvolvimento econômico, com investimentos públicos e privados, expansão dos negócios e crescimento do setor logístico. Esse foi um dos temas da conversa entre Leonardo Bortoletto e Ricardo Faria, prefeito de Contagem, no Itatiaia Negócios Cast.
Ao longo da entrevista, Ricardo Faria explica as medidas adotadas para melhorar o ambiente de negócios, reduzir a burocracia e ampliar a segurança jurídica para as empresas.
O prefeito também fala sobre os desafios de planejar o crescimento da cidade, ampliar a infraestrutura e conciliar desenvolvimento econômico com qualidade de vida.
Leia a entrevista completa:
Leonardo Bortoletto: Ricardo, Contagem recebeu durante muito tempo o título de coração da indústria mineira. Por que a cidade construiu essa relação tão forte com a indústria?
Ricardo Faria: Contagem durante muito tempo recebeu o título de coração da indústria mineira. O primeiro distrito industrial do país aconteceu em Contagem. Portanto, Contagem carrega toda essa história desenvolvimentista, essa marca da indústria mineira. Hoje a indústria continua muito importante e tem muito protagonismo na matriz econômica do município, mas temos também o setor de serviços ganhando força. Portanto, Contagem tem hoje uma matriz econômica muito diversa, tendo a indústria como forte apelo, mas também o setor de serviços ganhando muito protagonismo.
Leonardo Bortoletto: E quais são hoje as prioridades da prefeitura diante dessa transformação da matriz econômica?
Ricardo Faria: A prefeitura entende o papel fundamental da indústria, do comércio e do setor de serviços. Eles são a mola-mestre do desenvolvimento econômico da nossa cidade. São eles que geram emprego e renda. Portanto, a gente aposta sempre em um diálogo permanente com o setor produtivo. É através dessa busca, desse diálogo, que temos trabalhado para aprimorar, desenvolver e criar um ambiente de negócios que possa promover a nossa cidade.
Leonardo Bortoletto: O que precisa ser feito para criar esse ambiente mais favorável aos negócios?
Ricardo Faria: A gente tem trabalhado muito na legislação. Temos procurado retirar a burocracia que atrapalha o setor produtivo de se desenvolver na cidade, criando fluxos mais rápidos e um ambiente mais amistoso de diálogo com os empresários. Também trouxemos o processo de informatização de todas as secretarias, para que haja transparência, menos interferência humana nos processos e uma relação mais transparente com o setor produtivo.
Leonardo Bortoletto: Você citou a questão da segurança jurídica. Houve casos em que isso chegou a impedir investimentos?
Ricardo Faria: Sim. Tínhamos empresas com alvarás de funcionamento provisórios, e isso gerava insegurança jurídica e impedia investimentos importantes. Uma empresa, por exemplo, trabalhava havia mais de dez anos nessa condição. Isso gerava uma insegurança jurídica muito grande e impedia grandes investimentos na cidade. Através dessas legislações, estamos retirando essa dureza, esse ambiente hostil que o município tratava os empresários.
Leonardo Bortoletto: E o que aconteceu depois da regularização?
Ricardo Faria: Essa empresa recebeu o alvará de funcionamento e está dizendo que vai fazer um investimento de R$ 110 milhões em Contagem, por conta de ter um ambiente seguro para poder fazer os seus investimentos. A gente pode elencar aqui a CNH, a Magnesita, a Tambasa. São empresas importantes, grandes empregadores, que geram muito emprego e muita renda.
Leonardo Bortoletto: Além da legislação e da segurança jurídica, existe também o investimento público. Qual é o papel dele para o setor produtivo?
Ricardo Faria: A prefeitura tem uma carteira de R$ 1,5 bilhão em investimentos. São obras estruturantes, obras de infraestrutura. Às vezes quem está nos assistindo pode perguntar qual é a relevância desse investimento para o setor produtivo da cidade. E eu digo que o investimento público é fundamental para que aconteça o investimento privado.
Leonardo Bortoletto: Um dos exemplos são as obras de contenção de enchentes?
Ricardo Faria: Exatamente. Fizemos, em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte e o governo do estado, um investimento de R$ 106 milhões para a construção das bacias de detenção. Essas bacias fizeram com que a Magnesita permanecesse em Contagem. A gente corria o risco de perder uma empresa importante. Quando aconteciam as enchentes e os alagamentos, a água comprometia o funcionamento da fábrica.
Leonardo Bortoletto: Então existe uma relação direta entre investimento público e investimento privado?
Ricardo Faria: Sem dúvida. O investimento público é fundamental para que aconteça o investimento privado. Temos outros investimentos em mobilidade urbana, como as obras do Asfalto Novo, e os investimentos no Sistema Integrado de Mobilidade. Precisamos ter integração para que a mão de obra chegue às indústrias, ao comércio e aos serviços, para que a população possa ter mão de obra acessível para a indústria.
Leonardo Bortoletto: Você falou em R$ 1,5 bilhão de investimento público. E quanto representa o investimento privado?
Ricardo Faria: R$ 10 bilhões. Ou seja, o incentivo que é gerado pela iniciativa pública quando ela se movimenta. O pequeno movimento público gera esse movimento enorme privado. E não são apenas investimentos em obras públicas. Às vezes é um investimento que você faz em uma legislação, quando moderniza o código de posturas, o código de obras e as regularizações das construções.
Leonardo Bortoletto: E como esse ambiente também pode beneficiar o pequeno empreendedor?
Ricardo Faria: Quando falamos de economia, não podemos falar apenas da grande indústria e do setor de serviços. Precisamos falar também da economia informal, porque lutamos muito para trazer esse pequeno empreendedor para a formalidade. Estamos regulamentando, por exemplo, os food trucks na cidade. Temos uma política forte de entretenimento, de ocupar as praças públicas com nossos eventos, e existe uma presença importante dos ambulantes, das barracas da economia solidária. São movimentos que a prefeitura tem feito para melhorar a vida das pessoas na perspectiva do desenvolvimento econômico.
Leonardo Bortoletto: E existe também uma política específica para pequenos produtores?
Ricardo Faria: Sim. Estamos trabalhando com o Selo de Inspeção Municipal. Aquele pequeno produtor que faz uma charcutaria, um queijo ou um salgado e quer ter uma inspeção municipal do produto poderá comercializar dentro de Contagem com segurança. Isso pode ser um alavancador para ele sair do bairro e aumentar a sua produção.
Leonardo Bortoletto: Quando falamos em novos investimentos, uma das questões é a mão de obra. As empresas encontram profissionais preparados em Contagem?
Ricardo Faria: Não tenho dúvida. Vão encontrar uma mão de obra muito qualificada. Temos a Funec, que prepara jovens com alto grau de empregabilidade e uma formação muito preparada para atuar. Temos também uma massa de trabalhadores com muita experiência para ingressar no mercado de trabalho. A Secretaria de Trabalho e Geração de Renda ajuda muito o empresário a captar essa mão de obra.
Leonardo Bortoletto: Mesmo assim, existe um apagão de mão de obra no país. Como Contagem está enfrentando esse problema?
Ricardo Faria: Esse é um desafio enorme que o país enfrenta. Em Contagem, temos tido bons resultados. Inclusive, Contagem é uma das cidades que mais tem gerado empregos com carteira assinada, segundo o Caged, inclusive mais que a capital. Temos também o Cefet, que já tem uma história na cidade, e o Instituto Federal que chegou agora a Contagem. São instituições que ajudam a formar jovens para os postos de trabalho, inclusive na área de tecnologia.
Leonardo Bortoletto: Quais setores têm hoje maior potencial de crescimento em Contagem?
Ricardo Faria: Pela configuração da cidade, cortada pela BR-381, pela BR-040 e pela Via Expressa, eu acho que o setor que mais cresce é o setor logístico. Temos grandes centros de distribuição na cidade. Isso favorece muito. A localização de Contagem para escoar a produção para os grandes centros econômicos faz da cidade muito competitiva do ponto de vista logístico.
Leonardo Bortoletto: A cidade já tem uma presença muito forte nesse setor, não?
Ricardo Faria: Sim. Os grandes centros de distribuição estão em Contagem. Temos galpões de 100 mil metros quadrados e investimentos em áreas ainda maiores. Temos também o Ceasa, que é um grande indutor da economia do município. Isso coloca Contagem em um protagonismo na área logística. O maior distrito logístico do país é Campinas e o segundo é em Contagem, no Jardim Riacho.
Leonardo Bortoletto: Esse crescimento também traz desafios para a cidade?
Ricardo Faria: Traz. Precisamos avançar cada vez mais nas obras de infraestrutura, porque isso gera um conflito com a cidade. As pessoas querem morar em Contagem, querem ter oferta de emprego, mas também querem qualidade de vida. Portanto, precisamos compatibilizar desenvolvimento econômico e qualidade de vida.
Leonardo Bortoletto: Como você imagina Contagem daqui a dez anos?
Ricardo Faria: Eu acho que vai ser uma cidade próspera, moderna e acolhedora, uma cidade que tenha mais justiça social. Uma cidade onde a gente consiga vencer cada vez mais esse abismo que existe no país, essas contradições sociais. Quero que daqui a dez anos possamos nos orgulhar cada vez mais do município de Contagem. Uma cidade próspera, rica, que possa acolher todos que chegam para trabalhar e viver.
Leonardo Bortoletto: E qual legado você gostaria de deixar como prefeito?
Ricardo Faria: Espero contribuir para uma cidade mais sustentável, que possa gerar mais emprego e mais renda, e que as pessoas possam cada vez mais se orgulhar da nossa cidade. A gente vai atrair mais empresas para Contagem, mais negócios, criando cada vez mais um ambiente confortável para que o empresário tenha segurança jurídica e regras claras para investir na nossa cidade. A ideia é ter mais qualidade de vida. Eu sou nascido e criado em Contagem. Eu não pretendo mudar de Contagem. Nasci no bairro Amazonas e a ideia que a gente trabalha todos os dias é construir uma cidade melhor.
No quadro Raio X, Ricardo Faria respondeu perguntas rápidas sobre indústria, serviços, crescimento econômico, qualidade de vida, planejamento e execução.
Leonardo Bortoletto: Indústria ou serviço?
Ricardo Faria: Uma não tem contradição. Um depende do outro. Na medida em que o setor da indústria cresce, precisamos ter ao lado um setor de serviços qualificado e competente. Acho que os dois.
Leonardo Bortoletto: Crescimento econômico ou qualidade de vida?
Ricardo Faria: Na medida em que temos crescimento econômico sustentável, planejado, melhoramos a vida das pessoas. Quando acertamos essas duas coisas, quem ganha é a cidade, a gente prospera.
Leonardo Bortoletto: Planejamento ou execução?
Ricardo Faria: Quem planeja tem futuro. Quem não planeja tem destino.
Na sequência, Ricardo Faria respondeu às Perguntas de Ouro, enviadas pela audiência da Itatiaia.
Leonardo Bortoletto: Por que tantas empresas escolhem Contagem para investir?
Ricardo Faria: Primeiro porque a cidade tem condições logísticas para escoar sua produção. Tem um grande mercado consumidor, mão de obra qualificada e temos trabalhado muito para melhorar esse ambiente de negócios, tendo uma relação mais clara com os empresários. Também temos trabalhado com as contrapartidas empresariais. Algumas dessas contrapartidas têm impacto local, como melhorias viárias em áreas onde identificamos que futuramente poderá existir um gargalo de trânsito.
Leonardo Bortoletto: E qual é o maior desafio de administrar uma cidade que cresce tão rápido?
Ricardo Faria: Acho que o papel do prefeito funciona também como um juiz. Às vezes precisamos arbitrar algumas situações e compatibilizar crescimento sustentável, progresso e bom senso. Estamos trabalhando para que esse crescimento seja sustentável e, ao mesmo tempo, não gere conflito com a qualidade de vida da população. A construção civil vai verticalizar a cidade, mas precisamos de obras de infraestrutura que garantam mobilidade para que esse crescimento não seja desordenado.
Leonardo Bortoletto: Também é preciso decidir onde e como a cidade vai crescer?
Ricardo Faria: Sim. Precisamos pensar quais regiões vamos adensar, quais regiões queremos que tenham crescimento e que tipo de indústria queremos na cidade. Precisamos planejar esse crescimento. Temos um tecido urbano muito dinâmico, que está conurbado com Belo Horizonte e Betim. Precisamos fazer esse desenho também em conjunto com as outras cidades.
No quadro Responde Aí, Chefe, Ricardo Faria respondeu à pergunta de Gladstone Viana, presidente da FETCEMG e do Conselho Regional do SEST SENAT, sobre o Rodoanel de Belo Horizonte.
Gladstone Viana: Prefeito Ricardo, como o senhor, agora assumindo a cadeira da Prefeitura de Contagem, vai poder nos ajudar a construir o Rodoanel de Belo Horizonte? Uma obra que faz muita falta para o transporte rodoviário de carga, para a comunidade e para a mobilidade da Região Metropolitana. O que o senhor vai poder fazer pelo Rodoanel?
Ricardo Faria: Primeiro, agradecer pela pergunta, acho que é muito oportuna. Eu acho que primeiro é dizer que esses entendimentos já acontecem, né? A gente entende que as cidades estão cada vez mais irmanadas, mais conurbadas. Portanto, os problemas são metropolitanos. Portanto, as soluções precisam ser metropolitanas. Inclusive a Marília, ela liderou muito essas ações metropolitanas, esses entendimentos metropolitanos. E a gente tem trabalhado muito, e tem feito inclusive parcerias de algumas obras em conjunto. A gente tem discutido, por exemplo, com o Eron, que é o prefeito de Betim, a questão, por exemplo, da Via Verde, que é uma via importante, que foi construída pelo ex-prefeito Vittorio Medioli e que tem uma ampla ligação com Nova Contagem, região de Vargem das Flores, que vai ter também uma estação do SIM. Então a gente precisa construir uma sinergia entre esses dois, esse modal viário, para que as coisas possam ter conexão, ter integração, ter articulação. Sobre o Rodoanel, é importante a gente frisar que o município de Contagem nunca foi contrário ao Rodoanel. A gente entende que é uma obra importante, é uma obra que tem uma relevância, que tem um impacto importante em todo o colar metropolitano. O que existia era uma concepção de um trajeto que a gente tinha algumas críticas, mas o município de Contagem está à disposição para poder sentar com qualquer um, com qualquer órgão, para poder fazer a discussão sobre qualquer proposta sobre o Rodoanel. Nós entendemos que é fundamental a gente discutir obras de melhoria viárias que favoreçam o ir e vir das pessoas, o escoamento da produção, das empresas, do setor produtivo da nossa cidade. E Contagem é um polo logístico importante, assim como Betim. Então a gente está sempre à disposição para poder ouvir as pessoas, para poder discutir tudo isso.
Para encerrar a entrevista, Ricardo Faria deixou uma mensagem sobre a vida pública e a construção de uma trajetória na política.
Leonardo Bortoletto: Que conselho você daria para quem deseja ingressar na vida pública?
Ricardo Faria: É preciso ter desprendimento, ter renúncia e perseverança. A vida pública exige muito compromisso e dedicação.
O episódio completo do Itatiaia Negócios Cast está disponível no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.
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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.



