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Após 2015, Samarco retoma operação de forma gradual e aposta na reconstrução de relações

Empresa reforçou a governança com mais comitês, auditorias e maior estrutura de decisão

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Rodrigo Vilela, presidente da Samarco, reforçou o compromisso da companhia com segurança operacional • Reprodução | Youtube Itatiaia

A trajetória da Samarco passa por um dos momentos mais desafiadores da história recente da mineração no Brasil. Após o rompimento da barragem de Fundão, em 2015, a empresa iniciou um processo de reconstrução que envolve não apenas a retomada da operação, mas também a redefinição de sua forma de atuar.

No Itatiaia Negócios Cast, o presidente da companhia, Rodrigo Vilela, detalha o plano de retomada, as mudanças na governança, os desafios enfrentados ao longo do processo e as decisões estratégicas que orientam o novo ciclo da empresa.

Ao longo da entrevista, ele também aborda liderança em contextos complexos, tomada de decisão sob pressão e os aprendizados acumulados durante a reconstrução da Samarco.

Leia a entrevista completa:

Leonardo Bortoletto: Olá, eu sou Leonardo Bortoletto. Você está no Itatiaia Negócios Cast, um ambiente criado pela Itatiaia para levar o mundo dos negócios diretamente para o nosso dia a dia. Aqui você encontra grandes nomes, grandes histórias e grandes decisões. Hoje está aqui comigo Rodrigo Vilela, presidente da Samarco Mineração. Seja muito bem-vindo, Rodrigo.

Rodrigo Vilela: Obrigado, Léo. É uma honra muito grande estar de volta à Itatiaia e poder falar um pouco da minha trajetória e da Samarco. Parabéns pelo trabalho com o podcast.

Leonardo Bortoletto: Rodrigo, para começar, queria que você explicasse o DNA da Samarco. Para quem não conhece profundamente o setor de mineração, como essa história começa?

Rodrigo Vilela: A Samarco é uma empresa brasileira criada em 1977, com um projeto inovador. Foi a primeira empresa no Quadrilátero Ferrífero a utilizar o processo de flotação para concentrar minérios considerados de baixo teor, que antes eram vistos como rejeitos. Também foi pioneira no uso de minerodutos como solução logística. A empresa nasceu com um DNA mineiro, com visão internacional, a partir da união de duas empresas. Ao longo dos anos, cresceu e se desenvolveu dentro do setor.

Leonardo Bortoletto: E 2015 é um marco nessa história.

Rodrigo Vilela: Sem dúvida. É um marco que jamais vamos esquecer. Internamente, trabalhamos para que eventos como o rompimento da barragem de Fundão nunca mais ocorram. A partir dali, inicia-se uma trajetória de reconstrução dentro da organização.

Leonardo Bortoletto: Do ponto de vista de gestão, o que muda quando o foco deixa de ser crescimento e passa a ser retomada?

Rodrigo Vilela: A decisão de retomar a operação, tomada em 2018, foi baseada na reconstrução das relações. Esse foi o desenho estratégico da empresa. A retomada foi planejada para acontecer de forma sustentável e no tempo necessário. Nós iniciamos com cerca de 26% da capacidade. Hoje estamos próximos de 60% e só vamos atingir o nível de 2015 em 2029. Isso foi feito de forma proposital, considerando o tempo necessário para licenças, novos projetos e para que a sociedade e os acionistas pudessem acompanhar esse processo.

Leonardo Bortoletto: Então o crescimento não é o principal indicador?

Rodrigo Vilela: Para nós, crescimento não é só volume. A empresa precisa crescer nas relações, na confiança. Essa foi a decisão estratégica após 2015.

Leonardo Bortoletto: Você tem uma trajetória em empresas globais. Como isso influencia sua atuação hoje?

Rodrigo Vilela: Eu sou engenheiro metalúrgico, formado pela Universidade Federal de Ouro Preto, e trabalhei em diversas empresas, inclusive no exterior. Essa experiência amplia a visão técnica e contribui para decisões mais complexas. Mas não é só técnica. Valores, empatia e capacidade de escuta são fundamentais, principalmente em um processo de reconstrução como o da Samarco.

Leonardo Bortoletto: O que pesa mais na liderança: técnica ou decisão?

Rodrigo Vilela: É um ciclo. A capacidade técnica ajuda a tomar decisões mais conscientes. Mas a habilidade de tomar decisões difíceis é essencial, principalmente em um contexto como esse.

Leonardo Bortoletto: E a governança?

Rodrigo Vilela: A governança mudou muito após 2015. Hoje temos mais comitês, mais controle, mais auditorias. Mas tão importante quanto isso é a governança do dia a dia. Se não virar rotina, vira só papel.

Leonardo Bortoletto: Você falou em disciplina operacional.

Rodrigo Vilela: Sim. A disciplina operacional é fundamental. Planejamento de curto, médio e longo prazo, com execução consistente. Isso faz parte da governança.

Leonardo Bortoletto: Houve erros nesse processo?

Rodrigo Vilela: Sim, vários. Tivemos, por exemplo, um processo de recuperação judicial que não estava previsto, mas foi importante para o equilíbrio financeiro. Também fizemos mudanças no modelo de reparação, assumindo diretamente responsabilidades que antes eram de outra estrutura.

Leonardo Bortoletto: E o futuro da Samarco?

Rodrigo Vilela: A empresa aprovou um investimento de cerca de R$ 13,8 bilhões, que consolida a retomada. Esse investimento gera emprego, renda e posiciona novamente a Samarco entre os grandes produtores globais.

Leonardo Bortoletto: Vamos ao Raio X. Crescer rápido ou com segurança?

Rodrigo Vilela: Crescer com segurança. Assim você vai mais longe.

Leonardo Bortoletto: Governança ou operação?

Rodrigo Vilela: Governança. Com ela, a operação vem como consequência.

Leonardo Bortoletto: Mineração é desafio ou oportunidade?

Rodrigo Vilela: É uma grande oportunidade, especialmente no contexto de sustentabilidade e transição energética.

Leonardo Bortoletto: Pergunta de ouro: é possível conciliar mineração, sustentabilidade e geração de emprego?

Rodrigo Vilela: Sim. A Samarco busca fazer isso com transparência, diálogo e responsabilidade ampliada com a sociedade.

Leonardo Bortoletto: E como reconstruir a confiança?

Rodrigo Vilela: Hoje operamos sem barragem de rejeitos, com processos diferentes, mais modernos. Também ampliamos a transparência e o diálogo com a sociedade. A empresa é muito diferente do que era no passado.

Leonardo Bortoletto: Eu tenho agora uma pergunta que vem de um convidado anterior. Quem esteve aqui deixou uma pergunta para você. É do José Henrique Salvador, presidente da Rede Mater Dei. Vamos ouvir.

José Henrique Salvador: Como vocês conseguem equilibrar a visão de longo prazo com a execução no curto prazo, especialmente em um ambiente econômico tão instável?

Rodrigo Vilela: Esse é um dos grandes desafios da gestão hoje. Trabalhamos com planejamento de curto, médio e longo prazo, mas sempre considerando as volatilidades do cenário global. São mudanças geopolíticas, questões econômicas e eventos que impactam diretamente o negócio. Na mineração, a visão é sempre de longo prazo, mas é necessário ajustar constantemente os planos diante dessas variações. Dividimos internamente o planejamento nesses três horizontes e consideramos tanto os riscos quanto as oportunidades em cada cenário. Equilibrar isso é um desafio permanente.

Leonardo Bortoletto: Agora sim, para encerrar, dois conselhos estratégicos.

Rodrigo Vilela: Primeiro, fazer planos que a empresa tenha capacidade de entregar. Segundo ter humildade para escutar, colaboradores, sociedade e autoridades.

Leonardo Bortoletto: Rodrigo, obrigado pela presença.

Rodrigo Vilela: Eu que agradeço. Foi um prazer.

 

 

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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.