Biotecnologia amplia eficiência e sustentabilidade no tratamento de água e efluentes

Uso de microrganismos permite degradar poluentes, reduzir custos operacionais e transformar resíduos em recursos, explica engenheiro químico do Senai-MG

Estações de tratamento que utilizam tecnologias biológicas conseguem aliar eficiência, economia de energia e possibilidade de reuso da água

A biotecnologia tem se consolidado como uma das principais aliadas no tratamento de água e efluentes ao empregar processos naturais para a remoção de contaminantes.

Em vez de apenas separar ou transferir poluentes de uma fase para outra, como ocorre em métodos físicos e químicos tradicionais, as tecnologias biológicas promovem a degradação efetiva das substâncias nocivas, tornando o processo mais sustentável.

Segundo o engenheiro químico Philipe dos Santos Augusto, do Senai-MG, essa abordagem representa uma mudança de lógica no setor.

“A biotecnologia aplicada ao tratamento de águas e efluentes consiste no uso estratégico de organismos vivos para transformar contaminantes em compostos estáveis e inofensivos”, afirma à Itatiaia.

De acordo com ele, enquanto métodos convencionais muitas vezes geram resíduos químicos secundários, os processos biotecnológicos replicam e intensificam mecanismos naturais de depuração, favorecendo a mineralização da matéria orgânica.

O papel dos microrganismos na remoção de poluentes

No centro dessas tecnologias estão os microrganismos, especialmente as bactérias, que atuam de forma integrada na ciclagem de nutrientes e na remoção de contaminantes.

Philipe explica que esses organismos podem operar em ambientes aeróbios, anóxicos ou anaeróbios, dependendo do tipo de poluente e do objetivo do tratamento.

Em sistemas aeróbios, por exemplo, as bactérias utilizam oxigênio para degradar a carga orgânica, reduzindo a Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO).

Já em processos anóxicos, amplamente aplicados em Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs), ocorre a desnitrificação biológica.

“Nesse caso, as bactérias convertem o nitrato em nitrogênio gasoso, que é liberado de forma inofensiva para a atmosfera, evitando a eutrofização de rios e lagos”, detalha.

Nos tratamentos anaeróbios, comuns em efluentes industriais de alta carga orgânica, como os gerados por frigoríficos, a decomposição ocorre em etapas sucessivas e resulta na produção de biogás, que pode ser aproveitado como fonte de energia.

Há ainda aplicações em biorremediação, nas quais microrganismos especializados degradam compostos tóxicos, como óleos e substâncias xenobióticas.

Eficiência econômica e menor impacto ambiental

Além da eficiência técnica, a biotecnologia se destaca pelo equilíbrio entre custo e desempenho ambiental. Conforme Philipe, o uso da capacidade metabólica dos microrganismos reduz a necessidade de insumos químicos e o consumo de energia, tornando os sistemas mais econômicos e escaláveis.

“Os poluentes são efetivamente degradados, e não apenas concentrados em lodos perigosos”, ressalta o engenheiro. E

sse aspecto diminui a geração de resíduos secundários e facilita o atendimento às normas ambientais, ao mesmo tempo em que abre espaço para práticas de economia circular, como a recuperação de nutrientes e a geração de energia a partir de resíduos.

Onde a biotecnologia traz mais benefícios

Efluentes com alta carga de matéria orgânica biodegradável e nutrientes, como nitrogênio e fósforo, são os que mais se beneficiam das tecnologias biológicas.

O esgoto sanitário urbano, tratado por sistemas de lodos ativados e biofilmes, pode resultar em água apta ao reuso. Em áreas rurais, fossas sépticas baseadas em processos biológicos oferecem uma solução acessível e adaptada à ausência de redes coletivas.

No setor industrial, segmentos como alimentos, bebidas, laticínios e papel e celulose apresentam efluentes altamente compatíveis com tratamentos biológicos.

Já na agropecuária, dejetos de suinocultura e avicultura podem ser tratados em biodigestores e wetlands construídos, com produção de biogás e biofertilizantes.

Inovação e reuso da água

Avanços tecnológicos recentes têm elevado o nível de precisão desses sistemas. Biorreatores de Membrana (MBR) combinam processos biológicos com barreiras físicas, gerando efluentes de alta qualidade para reuso industrial.

Outras inovações incluem wetlands construídos e o uso de bacteriófagos no controle de biofilmes em sistemas de reuso de água.

Ferramentas de genômica também ganham espaço ao permitir o desenvolvimento de consórcios microbianos específicos para degradar contaminantes emergentes, como fármacos e microplásticos.

“Essas tecnologias ampliam o potencial do tratamento biológico e reforçam seu papel estratégico na gestão sustentável da água”, conclui o especialista.

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Erem Carla é jornalista com formação na Faculdade Dois de Julho, em Salvador. Ao longo da carreira, acumulou passagens por portais como Terra, Yahoo e Estadão. Tem experiência em coberturas de grandes eventos e passagens por diversas editorias, como entretenimento, saúde e política. Também trabalhou com assessoria de imprensa parlamentar e de órgãos de saúde e Justiça. *Na Itatiaia, colabora com a editoria de Indústria.

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