Interesse da China na mineração brasileira reacende debate sobre soberania mineral
Empresas chinesas ampliam presença no setor, enquanto especialistas apontam desafios para o Brasil agregar valor aos minerais e fortalecer a própria cadeia produtiva

O interesse de empresas chinesas pela mineração brasileira coloca em evidência o debate sobre a soberania nacional na exploração de minerais críticos. Com investimentos já presentes no país, a participação da China no setor tende a crescer, segundo especialistas, em meio à disputa global pelo controle das cadeias de produção e transformação desses recursos.
De acordo com o diretor-executivo da Associação de Minerais Críticos (AMC), Frederico Bedran, a participação chinesa em projetos de mineração no Brasil ainda é relativamente pequena, mas deve aumentar nos próximos anos.
“As últimas fusões e aquisições relevantes no mercado nacional foram feitas por empresas chinesas. Ainda assim, a participação efetiva da China no mercado de mineração brasileiro é um pouco tímida, mas tende a crescer cada vez mais”, afirma.

Um dos fatores que impulsionam a presença chinesa no setor é a capacidade do país asiático de agregar valor aos minerais, transformando-os em produtos. Esse domínio sobre as etapas de processamento e industrialização amplia a influência da China nas cadeias produtivas globais.
Para o CEO da CBL Mineração, que atua no Vale do Jequitinhonha, Vinícius Alvarenga, faltam políticas de impacto capazes de estimular investimentos e reduzir a dependência da cadeia produtiva chinesa.
“Não há uma política relevante que quebre uma análise meramente econômica contra os chineses. Ninguém vai investir apenas por uma análise econômica. Não é só no Brasil que isso está acontecendo, é no mundo todo. Todo mundo fala que quer uma cadeia China Free, livre do risco da dominância chinesa, mas ninguém está colocando dinheiro nisso. Está só na conversa”, avalia.

O pesquisador da Fundação Dom Cabral (FDC), Caíque Souza, aponta que a competitividade brasileira também contribui para atrair empresas chinesas. Segundo ele, a disponibilidade de energia a custos competitivos e a qualidade dos depósitos minerais são fatores que favorecem a exploração no país.
“O interesse, em geral, é ter acesso a produtos baratos. O que gera um produto barato é a matriz energética do país e o Brasil, em comparação com outros países e instituições, tem uma matriz energética competitiva. Além disso, há a qualidade do depósito, ou seja, ter ouro, volume, entre outros fatores, que também vão determinar o custo de extração e produção desse minério. Então, é atrás disso que a China vem”, explica.
Na avaliação do pesquisador, o Marco Legal dos Minerais Críticos, sancionado em setembro deste ano, pode contribuir para proteger a soberania mineral brasileira. A legislação também abre espaço para estimular a instalação de indústrias de transformação no país, de modo que os minerais sejam processados e convertidos em produtos no próprio território nacional.
“A Lei 15.516, dos minerais críticos, vem nessa direção: deixar claro para o mundo que o Brasil está aberto a receber investimentos de quem quer que seja, mas desde que esse parceiro esteja disposto a aprofundar o relacionamento e adensar as cadeias a jusante da etapa mineral aqui dentro do Brasil”, afirma.

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Jornalista graduado pela PUC Minas; atua como apresentador, repórter e produtor na Rádio Itatiaia em Belo Horizonte desde 2019; repórter setorista da Câmara Municipal de Belo Horizonte.



