Governança, participação social e ações do setor privado permitem conciliar mineração e sustentabilidade
Para alcançar esse equilíbrio de forma estruturada, Filipe Horta, colunista da Itatiaia, aponta medidas que envolvem o poder público, as empresas e a sociedade civil

A mineração tem ganhado destaque nas discussões sobre sustentabilidade, principalmente pela demanda por minerais críticos utilizados na transição energética. O setor movimenta bilhões de reais em investimentos e prevê medidas para tornar a atividade mais sustentável. Entre as iniciativas estão a regulamentação da mineração urbana e a criação do Certificado Mineral de Baixo Carbono (CMBC), voltado à valorização de práticas que reduzam as emissões de gases de efeito estufa. Também estão em discussão mecanismos para atrair recursos e ampliar o controle nacional sobre ativos minerais considerados estratégicos para a economia.
Mas é possível conciliar a atividade minerária com a sustentabilidade?
Para o colunista da Itatiaia e sócio-diretor da TAUPO Ambiental, Filipe Horta, esse equilíbrio depende de três frentes de atuação: governança pública, responsabilidade do setor privado e participação da sociedade civil. Segundo ele, as três esferas precisam atuar de forma conjunta para que o desenvolvimento da mineração considere os aspectos econômicos, sociais e ambientais.
Governança pública
Estabelecer regras e diretrizes claras: A primeira frente envolve a atuação do poder público. Cabe aos órgãos ambientais e aos gestores estabelecer diretrizes claras e uma estrutura regulatória adequada para o setor mineral.
Agilizar o licenciamento sem abrir mão da legislação ambiental: O licenciamento ambiental é apontado como um dos principais entraves ao desenvolvimento econômico do setor e precisa ter seus processos aprimorados. Isso, no entanto, não significa flexibilizar o cumprimento das leis ou negligenciar a proteção ambiental. A avaliação deve considerar os benefícios econômicos pretendidos e os impactos da atividade sobre os recursos naturais.
Orientar decisões por critérios técnicos: A avaliação dos projetos e o diálogo com a sociedade não devem se basear apenas em narrativas. Para Horta, as decisões precisam ser fundamentadas em critérios técnicos e no conhecimento jurídico que regulamenta o setor.
Resolver passivos ambientais e aprender com os problemas históricos: Outro ponto é a necessidade de enfrentar os passivos ambientais acumulados ao longo da história da mineração. Horta aponta que a capacidade de corrigir problemas e reparar danos provocados pela atividade permite ao poder público e à indústria acumular experiência e aprimorar os critérios de segurança para novos empreendimentos.
Setor privado e produtivo
Exigir responsabilidade das empresas e combater a especulação: As mineradoras precisam assumir compromissos éticos e agir com responsabilidade na divulgação de projetos e descobertas minerais. Horta chama a atenção para empresas que anunciam grandes descobertas com o objetivo de valorizar suas ações na bolsa de valores, embora não tenham capacidade financeira, medida pelo investimento de capital (CAPEX), para tirar os empreendimentos do papel.
Considerar a realidade dos municípios e os impactos socioambientais: Os projetos minerários devem respeitar a vocação econômica e social dos municípios onde serão implantados, além de considerar as necessidades das comunidades afetadas. Para isso, é necessário prever os impactos socioambientais e dimensionar as expectativas criadas em torno dos empreendimentos.
Conquistar a licença social e estabelecer contrapartidas: Além de obter a licença ambiental exigida por lei, as empresas precisam conquistar a confiança e a aceitação das comunidades afetadas pelos projetos. Uma das alternativas apontadas por Horta é utilizar a gestão tributária para viabilizar contrapartidas sociais. Na negociação de reduções de impostos municipais, como o ISS durante a fase de construção, parte da economia obtida pela empresa poderia ser destinada a projetos sociais em benefício da população local.
Sociedade civil
Participar dos processos de regularização ambiental: A sociedade civil tem papel importante no acompanhamento e na participação ativa dos processos de regularização ambiental. Segundo Horta, esse mecanismo ainda é considerado precário no Brasil e precisa ser fortalecido.
Garantir a inclusão de povos e comunidades tradicionais: Também é necessário aprimorar os mecanismos de escuta e participação social para assegurar que comunidades indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais sejam efetivamente incluídos nas decisões regulatórias sobre os territórios onde vivem e que podem ser afetados pela atividade minerária.
Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), atualmente mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Já atuou na Band Minas e na TV Alterosa.



