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El Niño de volta em 2026: veja as culturas mais ameaçadas e como adaptar o plantio

Com 82% de chance de se consolidar até julho, fenômeno promete extremos climáticos; especialistas explicam como o planejamento da safra pode blindar a lavoura contra prejuízos

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El Niño de volta em 2026: veja as culturas mais ameaçadas e como adaptar o plantio
Trigo, soja e café são algumas das culturas ameaçadas • Canva

A agricultura brasileira se prepara para enfrentar um fenômeno conhecido que está prestes a retornar. Os principais institutos internacionais de meteorologia são unânimes: o El Niño estará de volta a partir do segundo semestre de 2026. Embora a intensidade do evento ainda divida os especialistas, a confirmação acende o sinal de alerta para o produtor rural.

O Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC/NOAA) elevou o status para "alerta de El Niño" e afirmou haver 82% de chance de o fenômeno surgir entre maio e julho de 2026. A probabilidade de que ele persista até o inverno do hemisfério norte (entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027) é ainda maior: 96%.

O El Niño se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas da superfície do Oceano Pacífico central e oriental. No Brasil, os impactos variam drasticamente dependendo da região, o que exige do produtor estratégias personalizadas para a sua realidade.

Historicamente, o El Niño provoca o aumento severo das chuvas no Sul do Brasil, enquanto as regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste enfrentam condições muito mais secas e quentes do que o normal.

 

Culturas ameaçadas: o desafio em cada região

De acordo com Elias Barbosa Rodrigues, assessor técnico da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa-MG), os riscos mudam de figura a depender da localização da propriedade.

No Sul do país, o perigo mora no excesso de água. "Os maiores riscos podem recair sobre o trigo e a aveia, devido ao possível excesso de chuvas, que favorece o encharcamento do solo, a incidência de doenças fúngicas e dificuldades nas operações de manejo e colheita", explicou Rodrigues. Culturas de peso como a soja e o milho também podem sofrer com a umidade exagerada na região.

Por outro lado, no Sudeste (incluindo Minas Gerais), Centro-Oeste, Norte e Nordeste, o cenário é oposto. A tendência é de redução de chuvas e aumento de veranicos (períodos longos de estiagem e calor durante a estação chuvosa), especialmente na primavera e início do verão.

Em Minas Gerais, por exemplo, o fenômeno deve atrasar a chegada das chuvas, reduzir a umidade do solo e elevar as temperaturas. Isso atinge diretamente as lavouras dependentes de chuva (sequeiro), como a soja, o milho e o feijão.

O café, um dos pilares da economia mineira, também está na linha de frente. "Períodos prolongados de calor e déficit hídrico podem comprometer fases importantes do desenvolvimento da planta, como a floração e o enchimento de grãos, impactando diretamente a produtividade e a qualidade final do café", alertou o assessor da Seapa.

O plano de ação para mitigar os prejuízos

Apesar do cenário desafiador, o produtor não está de mãos atadas. Existem técnicas de manejo capazes de blindar a lavoura contra os extremos climáticos.

Para quem está no Sul (Excesso de chuva):

  • Genética: Investimento em cultivares mais tolerantes a doenças fúngicas.
  • Sanidade: Reforço no manejo preventivo fitossanitário.
  • Operação: Ajustes finos na janela de plantio e garantia de sistemas de drenagem adequados para o solo.

Para quem está no Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste (Seca e calor):

  • Resistência: Adoção de cultivares mais tolerantes ao déficit hídrico.
  • Manejo do solo: Uso de práticas que conservem a umidade da terra, como o Sistema Plantio Direto (SPD) e a manutenção da cobertura vegetal (palhada).
  • Estratégia: Escalonamento do plantio para não concentrar toda a produção em um único período de risco, além de um planejamento rigoroso da irrigação, para quem dispõe da tecnologia.

Ainda dá tempo de se preparar?

A resposta é um "sim" categórico. Como a consolidação do fenômeno está prevista para o segundo semestre de 2026, o produtor que agir agora pode largar na frente.

"O momento atual é considerado estratégico para a revisão do planejamento da safra, definição de estratégias de manejo e adoção de medidas voltadas à redução de riscos climáticos e produtivos", orientou Elias Barbosa Rodrigues.

A recomendação final para o produtor é intensificar o monitoramento das previsões climáticas regionais e buscar acompanhamento técnico especializado para adequar o calendário agrícola de forma segura.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde