Karine Teles ficou conhecida do grande público por papéis marcantes no cinema e na televisão. Ela ganhou destaque com a personagem Bárbara no filme ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015) e também chamou atenção em produções como ‘Benzinho’ (2018) e ‘Bacurau’ (2019). Mais recentemente, participou do filme ‘Salve Rosa’ (2025), mantendo uma trajetória ligada a histórias do cotidiano e a temas atuais.
Em uma noite marcada por emoção e reconhecimento, a atriz, diretora e roteirista recebeu da mão dos dois filhos o Troféu Barroco no palco do Cine Tenda, na 29ª Mostra de cinema de Tiradentes.
Em coletiva de imprensa no último sábado (24), a atriz falou sobre os desafios e as conquistas de uma carreira com mais de 20 anos de dedicação ao cinema brasileiro.
Ela contou que Minas Gerais atravessa sua trajetória. Karine lembrou o encontro com a produtora mineira Filmes de Plástico, parceria que marcou sua caminhada e reforçou sua identificação com um cinema atento às pessoas e ao cotidiano.
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“O que eles fazem me emociona muito. Quando a gente trabalhou junto, foi só a confirmação de que aquilo era autêntico. É um cinema interessado em olhar para o mundo, para as pessoas, para a vizinhança, para a mãe, para o pai, para a rua. Isso me emociona e é algo com que eu me identifico muito”, afirmou.
Ela integrou o elenco de ‘Marte Um’ (2022), de Gabriel Martins, e também participou de ‘No Coração do Mundo’ (2019), dirigido por Gabriel Martins e Maurílio Martins, produções reconhecidas pelo olhar sensível sobre o cotidiano e as relações humanas.
Também ao lado da produtora mineira, ela deu os primeiros passos como diretora de um longa-metragem com Princesa que aborda o machismo como um “vírus”, a partir de um olhar feminino e voltado às questões das mulheres.
“O ‘Princesa’ é um filme que brinca com a ideia da comédia romântica, que a minha geração cresceu assistindo, e os contos de fada, que a gente cresceu lendo e aprendendo que o auge da felicidade de uma mulher seria ela se tornar uma princesa”, explica a artista, que explicou que a obra está no momento de viabilização da produção.
Divisor de águas
Karine destacou o filme ‘Riscado’ (2011) como a virada decisiva em sua vida profissional. Segundo ela, o projeto nasceu de uma angústia real: a dificuldade de se sustentar financeiramente apenas com a atuação.
“‘Riscado’ definitivamente é um marco. Ele nasce de uma angústia profunda minha, de já estar trabalhando como atriz há muito tempo e não conseguir pagar as minhas contas com o meu trabalho. E pensar: ‘Será que eu estou insistindo numa coisa que não vai rolar? Será que isso não é para mim?’”, contou.
“O filme aconteceu, foi super bem recebido, ganhou um monte de prêmio, foi vendido para vários países e a gente viajou. Foi a primeira vez que eu saí do Brasil, e foi por causa do ‘Riscado’.”, contou.
Além do sucesso profissional, o filme tem um significado pessoal ainda maior para a atriz. Karine lembrou que estava grávida dos filhos Francisco e Arthur quando o longa estreou no Festival do Rio.
“Eu engravidei no processo de montagem e finalização do filme. O filme estreou no Festival do Rio e eu estava grávida deles. Então, para mim, eu acho que ele vai ser para sempre o mais importante.”
Ao falar sobre a carreira, Karine foi direta ao explicar que viver da arte exige equilíbrio entre o ideal e sobrevivência. Ela afirmou que, apesar de aceitar trabalhos para pagar as contas, evita repetir personagens ou participar de projetos com os quais não concorda.
“Às vezes eu aceito o trabalho que se apresenta porque eu sou profissional, eu vivo disso e preciso pagar minhas contas. Mas já teve situações em que me ofereceram coisas que, para mim, era impossível aceitar. E até hoje fico sem trabalhar porque não quis fazer um projeto em que eu não acreditava ou que eu achava que o assunto não seria tratado da melhor maneira”, explicou.
Após ‘Que Horas Ela Volta?’, ela conta que passou a receber muitos convites para interpretar personagens semelhantes. Segundo a atriz, essas propostas ainda aparecem com frequência, mas, em geral, ela recusa. “Eu fui convidada para fazer umas três, quatro ‘donas Bárbaras’ depois disso. Até hoje, de vez em quando, ainda chegam convites e eu falo: ‘Poxa, obrigada, mas eu acho que eu já fiz isso, né?’”, conta.
Como roteirista
Karine também falou do trabalho como roteirista. De forma bem-humorada, disse que às vezes escreve cenas e só depois lembra que será ela mesma quem vai interpretá-las, como aconteceu na série ‘Os Últimos Dias de Gilda’ (2020).
“Essa série em que eu sou corroteirista, que a gente fez para o Canal Brasil, quando eu estava escrevendo eu esquecia que era eu quem ia fazer. Eu não pensava nisso, estava focada nas ideias e no que a gente estava discutindo, na melhor forma de contar aquilo. Aí, quando começaram os ensaios, eu pegava algumas cenas e pensava: ‘Meu Deus, por que eu escrevi isso para mim mesma fazer? Levar um tapa na cara, tomar um chuchu de tomate’. Eu não penso nisso na hora de escrever. Depois, como atriz, eu dou um jeito de resolver a cena que está no roteiro.”, conta aos risos.
Momento do cinema nacional
A atriz relembrou, também, quando trabalhou em ‘Bacurau’ com Kleber Mendonça Filho, diretor que está indicado ao Oscar de 2026 com ‘O Agente Secreto’ (2025).
“Eu lembro exatamente do dia que ele me falou, pelo Facebook, que talvez tivesse uma personagem pra mim. Falei: ‘Eu passo correndo lá atrás, faço o que você quiser’”, brinca.
“Acho um cinema corajoso, ousado e questionador. Ele usa as referências sempre de maneira interessante e provocativa. Acho lindo que esse filme, com essa narrativa cheia de espaço e de buracos, seja o filme que está concorrendo a tantas categorias do Oscar, que é a grande vitrine do cinema comercial”, declara Karine.
Na TV
A atriz, que fez sucesso como Aldeíde no remake de Vale Tudo (2025), contou que a novela foi apenas a segunda realizada do começo ao fim na carreira. Antes disso, fez muitas participações e integrou a última fase de Malhação, que acabou sendo interrompida pela pandemia.
“Acho que encontrei uma forma de fazer televisão. A parte do fazer é o que me interessa, o que me emociona, o que me instiga. Então, eu acho que achei um jeito de fazer televisão de que eu gosto muito. Eu curto essa coisa de estar ali todo dia, com muitas cenas, fazer um pedaço de uma cena hoje e outro pedaço na semana que vem. Tem algo nisso que me interessa muito.”, define a homenageada.