Itatiaia

Semana da sofrência

Por
Padre Samuel Fidelis
'É certo que dar voz a todos gera muita confusão' • Arquivo pessoal

Aproxima-se um tempo de pausa. Com dimensões menos “comerciais” e “festivas” que o fim de ano e o Carnaval, temos um pequeno interlúdio: a Semana Santa. É certo que, para boa parte do país, ou das pessoas, numa sociedade mais secularizada, estes dias não façam muita diferença. Em Minas, porém, as notas são mais intensas; nossa tradição barroca nos faz beber um pouco mais desse cálice…

Não é possível, seja por conta do recesso e do feriado, em decorrência das práticas religiosas, ou até do temor de comer carne, ser indiferente à Semana Santa. A nossa alma, à maneira brasileira, queira-se ou não, é forjada pelo imaginário católico e cristão.

Nestes tempos de tecnologia, de um futuro que se antecipa na IA, faz bem pensar em legados… Nesta agitação contemporânea, no compromisso com o agora, na servidão algorítmica, na oscilação entre a “ânsia de ter e o tédio de possuir” (Schopenhauer), seria bom e oportuno reconectar-se consigo mesmo, nas pausas que restauram, na ancestralidade que sustenta, no transcendente que chama.

Didaticamente, com bastante estética barroca, mas antes de tudo como um convite cativante à nobre simplicidade, a Semana Santa traz encantos e mistérios…

Um Deus que sofre e morre. Sim, na perspectiva cristã, Deus morreu (Ap 1,18). Quis ser gente, assumindo tudo o que significa ser homem, inclusive a morte. Há algo de tocante, redentor, belo, na sofrência, no pranto da Semana Santa. Isso, até para quem não crê. A assunção do que é humano, em suas luzes e sombras, traz sempre lucidez.

A Paixão de Cristo traz consigo, de modo sempre seminal, vários alertas. É possível ver, na Paixão de Cristo, a nossa, na consciência de que cedo ou tarde todos somos visitados por dores; todos compareceremos a algum Calvário. É possível ver, na Paixão de Cristo, a nossa, na firme convicção de que instituições políticas e religiosas podem dar as mãos, sacrificando inocentes no altar da indiferença, da ganância e da hipocrisia. Na Paixão de Cristo vemos também a nossa, no discernimento de que quanto mais a nossa vida tem sentido e propósito, mais corremos o risco de pagar caro por isso…

Dramático? Barroco, como uma obra de Aleijadinho? Talvez sim. Talvez não. Mas razoável. Nesta sociedade toxicamente otimista, um pouco de drama funciona como boldo; cura as vísceras porque amarga.

Isso traz um efeito meio reverso. É preciso estar diante da morte, do abandono, do nada, para celebrar o valor do que está vivo, perceber boas companhias, não prometer muita coisa e ter tudo! É sobre ressignificar cruzes, viver em estado de doação, sobre o fato de que depois que Cristo ressuscitou, ficar em túmulos é questão de escolha.

Por

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

 

 

Belo Horizonte