Corpus Christi, Marcha para Jesus

Um dos aspectos mais belos do cristianismo é a sua relação com a mesa. Jesus, ao que parece, se não era mineiro, era sujeito bom de garfo e de prosa. Chegou a ser chamado de "comilão e beberrão" (Lc 7,34). São inúmeras as passagens dos Evangelhos em que o encontramos tomando refeição: na casa de homens importantes (Lc 7,36), comendo com publicanos, pecadores e prostitutas (Lc 15,1-2), multiplicando pães para multidões famintas ou simplesmente sentado à mesa com os amigos. Tanto em seu primeiro sinal, nas Bodas de Caná (Jo 2), quanto em sua última noite com os discípulos (Jo 13), Jesus esteve à mesa. Isso faz dos cristãos algo mais do que apreciadores de boa comida - basta lembrar nossos quitutes juninos. Faz-nos herdeiros de uma verdadeira mística da mesa.
Em primeiro lugar, porque, não tendo nada maior a oferecer, Jesus deu a si mesmo como alimento. Na Última Ceia, entregou o próprio Corpo e o próprio Sangue. O que celebramos em Corpus Christi é precisamente esta convicção: Cristo continua presente entre nós quando nos reunimos em seu nome e fazemos memória do que Ele realizou. Mas há um segundo aspecto, talvez ainda mais exigente. No mistério do Corpo de Cristo existe também uma verdade profunda sobre a nossa própria existência: somos nós, igualmente, chamados a nos tornar alimento. Em sentido espiritual, cada um de nós é convocado a nutrir aqueles com quem convive. Alimentamos os outros com palavras, escuta, presença, cuidado e memória. O alimento servido à mesa da família ou dos amigos é importante, mas quase sempre é coadjuvante diante daquilo que toda relação realmente pede: alguém capaz de sustentar a fome invisível do outro.
Quando nos relacionamos, descobrimos rapidamente que ninguém é suficiente. Todos carregamos dentro de si fomes sem fim: de amor, de reconhecimento, de acolhida e de sentido. Todavia, é igualmente verdade que toda relação autêntica pede que alguém ofereça alimento. Que sustente. Que nutra. Que traga sabor. Talvez o grande sintoma de uma sociedade adoecida seja justamente a perda do valor da mesa. Os sofás tornam-se maiores. As telas ocupam mais espaço. O conforto passa a significar recolhimento individual, entretenimento permanente e isolamento confortável. Enquanto isso, as mesas e seus ritos tornam-se menores, mais rápidas, artificiais e raros. Penso que, num mundo assim, muitos casamentos não terminariam por grandes tragédias, mas pelo enfraquecimento silencioso da fome pelo outro. Desapareceria a curiosidade, perder-se-ia o tempero do afeto e, pouco a pouco, pratos e almas se tornariam igualmente insossos.
Hipoteticamente
Bom, sendo ou não exatamente este o nosso caso, Corpus Christi é muito mais do que um feriado. É uma convocação ao sagrado da presença. Reconhecer o Corpo de Cristo na Eucaristia, sim. Mas também nessa epifania cotidiana que é o rosto do outro. O rosto de quem compõe conosco, dia após dia, a melodia da vida. E também o rosto que o mundo prefere não ver: a carne barata - não alva como a hóstia, mas quase sempre negra - abandonada nas calçadas de nossas cidades. Afinal, aquele que disse sobre o pão: "Isto é o meu corpo" (Lc 22,19), foi o mesmo que afirmou: "Foi a mim que o fizestes" (Mt 25,40), referindo-se ao faminto, ao sedento, ao estrangeiro, ao enfermo e ao preso. Por isso, prolongando a força do Evangelho, São João Crisóstomo advertia: "Se não consegues encontrar Cristo no mendigo à porta da igreja, não O encontrarás no cálice."
Corpus Christi, junto com os tapetes coloridos que enfeitam nossas ruas, convida-nos a forrar algo ainda mais importante que o chão: a consciência. Preparar passagem para o Deus que continua passando. Passa na Eucaristia. Passe na mesa de casa. Passa no rosto de quem amamos. Passa naqueles de quem nos esquecemos. Nosso mundo digital está faminto de presenças reais. Falta-nos, muitas vezes, a consciência do Corpo de Cristo no rito, nas mesas e nas calçadas. As procissões, os tapetes, os cantos e as marchas são belos. São devidos a Deus. Mas a dívida talvez seja ainda mais profunda. Talvez custe algo da nossa própria consciência. Que a pausa e a poesia deste feriado nos desinstalem um pouco. Que nos façam voltar ao corpo, à presença, à mesa, ao sagrado e ao Deus que continua passando.
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.



