Itatiaia

Santinhos de Brasília

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Padre Samuel Fidelis • Padre Samuel Fidelis/Arquivo pessoal

A parte boa de ser o país das novelas e do futebol é que a gente desenvolve uma certa aptidão para torcida e roteiro. Talvez uma contradição positiva do grande fluxo de informações e conteúdos nas plataformas digitais seja esta: se, por um lado, há mais idiotas alçados à categoria de produtores de conteúdo, por outro, os assuntos adquirem certo interesse na “boca do povo”.

É fato pacificado que, historicamente, os momentos de grande transformação do país tenham sido conduzidos com o povo “deitado eternamente em berço esplêndido”. Somos o país dos golpes da noite para o dia. Nossos direitos, nem de longe, são sentidos por nós como conquistas. São, via de regra, concessões do Estado. Talvez o efeito rebote das redes sociais seja que está todo mundo, minimamente, com alguma noção dos “barracos” em Brasília.

A intenção da coluna da semana é ver a coisa pelo lado positivo. É óbvio que estamos no fundo do poço! Os áudios vazados, o conflito de interesses, os indícios de corrupção passiva, as mensagens de carinho estão aí, lançadas! Só não vê quem não quer. Ou, diríamos, quem até queria ver, mas está “impedido”, dada a necessidade de defender os interesses da agremiação (ou facção?) a que pertence.

As acusações mútuas são angustiantes. Nos termos de Nietzsche, aquilo que não aniquila, ao ser atravessado, também pode transformar. O realismo diante do caos das acusações mútuas pode levar a dois caminhos: à indignação passiva ou à lucidez diante dos fatos. É ruim, mas é bom não ter dúvidas de que há algo de comum e ambidestro no cenário político: ambos os lados querem se limpar na sujeira alheia.

Observemos que coisa interessante: há uma tendência de um espectro que, “podre de tão democrático”, não necessariamente nega os fatos, mas intenta subverter as regras do jogo. Não! O argumento, por mais embargado que seja, não precede a natureza dos fatos. A democracia, como princípio continente de tudo o mais, seja reles ou Supremo, é conteúdo e pressupõe a busca pelo bem, pela justiça e pela verdade.

Por outro lado, há o espectro que, ao afirmar o fato, sempre tensiona assumir a narrativa. A retórica cria na cabeça incauta uma, diríamos, tela preta, bugando o sistema. É como se a afirmação do erro, sob outra perspectiva, fosse a reparação do delito. A ideia seria um pouco assim: só fica ruim se não fui eu quem fez; se fui eu quem fiz, há sempre uma narrativa capaz de explicar. O mesmo vale para aquilo que se diz: é absurdo quando o outro diz, mas perfeitamente explicável quando eu digo.

Estamos numa eterna novela, não mexicana, mas brasileiríssima. Nessa, tudo se resolve com um jeitinho. Estamos no fundo do poço das narrativas hipócritas. Esse talvez seja o melhor lugar (num ano eleitoral) para bater o pé no assoalho e emergir.

Jesus já havia alertado que é preciso tomar cuidado com os sepulcros caiados (Mt 23,27). Há sempre algo de estranho, meio delirante, perverso, quando alguém julga se identificar inteiramente com as ideias que defende! Esse, aliás, é o privilégio dos mártires. Só alguém que morre por aquilo em que acredita pode ser testemunho avalizado dos próprios princípios.

Fariseus (hipócritas) mandam, via de regra, silenciar e matar. Sua perversidade adora encontrar brechas na lei, sufocar o interdito, violentar com performance a realidade dos fatos.

Neste ano eleitoral, convém não acreditar em “nenhum santinho”. Nada corrompe mais devastadoramente o raciocínio lógico e o bom senso do que a perda do crivo do certo e do errado, independentemente do lado. Essa cognição de proteção da identidade, que coloca os interesses do grupo e da ideologia acima da verdade, está nos levando para o buraco! Batemos no fundo. Temos que emergir!

O mais importante não é proteger os interesses do grupo, ajustando a forma como julgamos o óbvio, mas garantir o bem, a legalidade, a transparência e a verdade. Quando a fidelidade ao grupo determina previamente aquilo que considero certo ou errado, justo ou injusto, verdadeiro ou falso, já não faço julgamento político. Faço torcida.

A noite fica cada vez mais escura. Oxalá possa raiar em nós um pouco de lucidez! Bora criar consenso, sem indignação seletiva? Os riscos são sérios. Estamos deixando que esse povo deboche do país, ria na nossa cara...

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

 

 

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