O debate morreu?

Há algo de diferente, mas certamente previsível, neste ano eleitoral. Uma constatação tão previsível quanto preocupante: existe cada vez menos espaço para o debate. E é curioso que, exatamente nos tempos em que a retórica política, como nunca antes, estabelece tensões argumentativas nas plataformas digitais, haja cada vez menos interesse em realmente debater.
A resistência dos candidatos em comparecer diante da arena pública é corolário da entrada em cheio do marketing na política. Seria até cínico de nossa parte simplesmente julgar suas ausências. O cálculo é matemático, óbvio e cartesiano. Se cada personagem pode falar, sem a mediação da mídia tradicional, diretamente para a própria bolha, qual o sentido de se expor ao contraditório em rede nacional?
A política sempre foi também performance e slogan. Não é de agora que políticos se vendem como “pai dos pobres” ou prometem varrer a corrupção com uma vassoura. Patente militar, no Brasil, vira até nome de doce - “brigadeiro” - para ganhar o voto pela barriga. O marketing não inventou a encenação política. Apenas lhe deu ferramentas muito mais sofisticadas.
É absolutamente previsível que quem lacra nas redes sociais não queira se expor. Lá, o corte, a iluminação, o filtro e até a espontaneidade podem ser ensaiados. O candidato escolhe o assunto, o enquadramento, o adversário e, muitas vezes, até a própria plateia. Por mais estridentes e inovadoras que possam parecer as ideias, elas raramente são expostas ao contraponto que amadurece. São entregues ao viés de confirmação dos algoritmos - e das mentes que eles dissolvem.
Talvez seja nesse sentido que se possa dizer: o debate morreu. Não necessariamente o programa de televisão com púlpitos, cronômetros e mediadores. Esse formato pode sobreviver por muito tempo. O que parece morrer é algo anterior e muito mais importante: a disposição de colocar as próprias ideias em xeque diante do contraditório.
Debater é aceitar uma possibilidade incômoda: a de que o outro tenha uma razão que me falta. É permitir que uma convicção seja interrogada, contestada e, quem sabe, modificada. O debate verdadeiro exige uma coisa que a lógica das bolhas procura evitar: exposição.
Por isso, a questão é muito mais profunda do que ir ou não a um debate eleitoral. Essa, aliás, é uma questão imposta mais às mídias do que aos candidatos. Comunicação não é mirar “onde o pato está, mas onde ele vai estar”. Está nítido que o modelo tradicional de debate está cansado; que há uma tendência prévia a construir narrativas sem correspondência com os fatos; que pouca gente tem paciência para ficar diante da TV escutando candidatos enumerarem “propostas”.
Mas o problema não é simplesmente que o debate televisivo envelheceu. É que a política descobriu que pode prescindir do contraditório.
As mídias alternativas e as plataformas digitais retroalimentam, assim, a onda mundial do populismo. Esse é a tentação antiga e, ao mesmo tempo, tão nova da democracia, cujo principal sintoma é a pretensão de que “sujeitos iluminados” sejam capazes de interpretar diretamente os anseios e as expectativas do povo, prescindindo de mediações institucionais.
O Estado, os partidos, as emissoras são grandes mediadores institucionais. A principal contestação mobilizada pelos candidatos - e que cria identificação com parte do povo - é justamente a desconfiança do papel tradicional dessas instituições. O problema, então, não é a ausência nos debates, mas o que ela representa: ênfase no carisma em detrimento da consistência e do lastro; suspeita sobre a importância das instituições; e a percepção de que pouco importam diálogo e ideias se o adversário tiver um marqueteiro melhor.
Há de haver um compromisso ético com a dialogia. Isso no âmbito político, mas também como provocação para nossa biografia. Se os candidatos se ausentam, não haja em nós desculpa para não estarmos presentes.
Política é sobre vida. Política e vida se discutem! A estridência de ideias, à distância, em condições de temperatura e pressão controladas, não produz relação. Se somos relacionais, é porque a reivindicação do “outro” nos amadurece, nos solicita e, às vezes, nos contraria. Qualquer um de nós sabe que um casamento não sobrevive sem “debate”, sem aquilatar as razões na procura de um mínimo acordo. Quanto mais um país!
O que preocupa, portanto, não é que os políticos sumam. Eles são espécies sazonais, como andorinhas: é certo que vêm e que somem. Só estão fazendo isso mais cedo.
A inquietação deve ir para dentro de nós. Talvez a fuga dos candidatos seja apenas o sintoma político de uma doença mais espalhada. Nossas ansiedades sociais nos colocam numa crescente resistência a nos explicar, a escutar, a sustentar uma conversa na qual não controlamos previamente o resultado.
Há pouca paciência para o entendimento mútuo. Queremos falar, mas nem sempre queremos responder. Queremos nos expressar, mas não necessariamente nos expor. Queremos interlocutores, desde que concordem conosco.
Talvez seja por isso que o debate esteja morrendo. E, se olhar direitinho, não tem só a ver com política...
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.



