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Pra não dizer que não falei de flores

É importante que você saiba quem você é, qual a matéria dos seus sonhos e qual a sua essência

Mas o que você quer ser quando crescer? Essa é uma das primeiras perguntas que os adultos fazem as crianças. A cena é popular e clássica. Sorriso, sugestão, expectativa. Do alto da vida adulta, se desce à altura dos joelhos, à procura dos sonhos antes, à procura do olhar de uma criança. As respostas são várias. Seguras, como: “quero ser médica”; ou óbvias, como: “quero ser gente grande!”; deslocadas como: “quero ser turista”. A infância é encantadora, sucinta, entusiasmada, despretensiosa...

A maturidade é necessária. Mas é uma pena que a gente cresce. Isso, ao menos sem o compromisso de nunca esquecer que algumas palavras têm que sempre andar juntas. Ser, fazer, crescer. É importante que você saiba quem você é, qual a matéria dos seus sonhos, qual a sua essência. Serve-nos o conselho da peça Hamlet: - que parece até coisa de coaching -, “sê fiel a ti mesmo, segue-se a isso, como a noite ao dia, que jamais será falso com os outros”. Saber o que você faz, e o porquê você faz. É certo que a rotina tem seus desencontros. Mas se você e eu não soubermos o “porque fazemos”, não daremos conta de suportar “o como”. Sem entusiasmo, motivação, sentido, a vida fica insuportável. Quem sabe a ansiedade não é a alma pedindo, instante, respiro, paixão, amor-próprio? Saber crescer é importante. Não se assuste! A vida adulta é meio chantily, mesmo: a gente bate e cresce. Agindo com sabedoria, o desafio é uma oportunidade disfarçada.

Gosto de pensar no livro do Gênesis (Gn 1-2). Nele está escrito que Deus cria por processo. Dia-a-dia. Separa, distingue, aprecia. Brinca com o barro, sopra, descansa. Nesses textos o Senhor ensina com o exemplo. Faz de uma terra, sem forma e vazia, um Jardim. Depois de apreciar seu trabalho, descansa. Quero aqui, então, lhe dirigir uma palavra direta! O tempo de fazer, de reconstruir e de propor, é agora! Retire do caos, um sentido. A crise é um funil, um crivo, uma oportunidade. Faça com amor, ainda que custe. Aliás “é justo que custe o que muito vale”! Experimente fazer da rotina o encantamento. Sê útil, faz sua vida ter significado e produzir fruto. Visite Jardins, os externos e os secretos. Encante-se com “o agora”, louve, agradeça, “guarde, cultive” (Gn 2,15). Descansa. Aprende de Deus, que o fazer tem limites. Há momentos em que se tudo for meta, métrica, ação, o poder seduz, o fazer aprisiona, e ansiedade faz o corpo e alma reclamar por instante.

“Vem, vamos embora. Esperar não é saber...” A semana é mais curta. Tem feriado para homenagear trabalhador e trabalho. Honre sua criança interior, que se entusiasma em ser, fazer e crescer. Pode ficar tranquilo que a sensação é essa: saber mais do que deve, e ter a sensação de que isso é menos do que, realmente, é preciso. E sobretudo, ache tempo para Deus. Consagre seu suor, seu esforço seu trabalho àquele que trabalha desde o princípio (Jo 5,17). O trabalho sem Deus é inútil. Sem Ele todo esforço é vão, sem sentido (Sl 127). Com Ele, para quem crê n’Ele, tudo é possível (Mc 9,23). Somos feitos da matéria de nossas orações. “Somos feitos da matéria dos nossos sonhos” (Shakespeare).

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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