A liberdade é uma das grandes aspirações da vida. Em sentido equívoco, ela é entendida, sobretudo, na rebeldia da infância, como um direito! Bom... Só mesmo quem acabou de chegar por aqui, alguém que ainda é desavisado sobre os dramas da existência pode ter a ilusão de que uma coisa tão importante como a liberdade vem a nós sem conquista!
Sim! Liberdade é conquista e assunção! Ou melhor, é conquistar e assumir - já que, como Deus, a vida é verbo. É preciso conquistar as próprias coisas. O que não for nosso, não se valoriza. Para ser livre, é preciso vigiar sobre tudo aquilo que escraviza! Pensemos: há gente, por exemplo, que pensa que liberdade é fazer o que dá na telha. Termina escravo e refém de afetos e desafetos. De igual modo, para ser livre é preciso assumir! É preciso assumir-se, nas potencialidades, limites; nos próprios equívocos... Não é possível ser livre sendo ausente do próprio corpo, temperamento, orientação, princípios... A liberdade é um preço caro! Num mundo onde as coisas - até as mais sagradas - passam a ser barateada, é preciso bancar-se...
Que belo paradoxo. Como esclarece Etiene de La Boétie, há entre nós uma tendência a servidões voluntárias. Basta observar casamentos por protocolo, basta prestar a atenção numa briga sobre política, basta ouvir discursos nas igrejas e veremos grandes exemplos de quem, por medo de - conquistar e assumir - escolhe ser escravo. Há gente refém pelo afeto, cativo de delírios populistas ou autoritários, rezando a ídolos.
A liberdade, assim como a felicidade, é uma grande promessa contemporânea. Ela é um conceito cujo sentido facilmente se esvazia, desidratado no feed, esse grande cemitério de momentos fúteis... Mas é claro! Como lembra Freud, o que se repete demais é sintoma. Se falamos tanto de liberdade de escolha, talvez seja bem possível que ela, mais do que nunca, seja o que mais nos falte...
Então... O que seria, ao fim, essa tal liberdade? Parece-nos que ela é dessas coisas da vida que a gente sabe dizer, até que nos perguntem. Liberdade é um conceito grávido, esguio, equívoco. A gente busca, ou tem, sem saber exatamente o que é.
Há risco de que, por ser algo tão transcendente e tão “nosso”, confundamos a liberdade com o seu oposto... Há risco de pensar que livres são os que fazem de tudo, os que podem tudo, os que vão aonde querem. Se assim fosse, ninguém poderia jamais ser livre. Bastaria se casar ou ter filhos - atos de profunda consciência e liberdade - e já não se seria mais livre! Todo mundo sabe que depois do casamento e dos filhos é um idiotice reclamar por boa parte dos “direitos humanos”. Não! A máxima liberdade não é se iludir com o “tudo”. A máxima liberdade é não precisar mais escolher.
É isso que esse mundo - volátil, incerto, complexo, ansioso - jamais poderá entender! É preciso ser livre pelo Espírito (Jo 14, 17). Quando nossa vida está orientanda para o bem, para além daquilo que é apenas “bom”, a escolha deixa de ser necessária. A liberdade é enamorada do propósito. Sem pretexto e sem contexto, triunfando do juízo de gosto, um ser livre age e se inclina ao bem.
Quem experimenta a liberdade está diante de algo necessário e incontornável, como o fluxo de um rio, que, sem amarras ou muros, nasce para caminhar ao mar... Oxalá sejamos livres! Parafraseando Nietzsche: nos tornemos o que somos. Nada mais, nada menos! Deus nos permita que não sejamos iludidos de que “tanta coisa” assim depende, realmente, dum grande cardápio de escolhas, de nossa intervenção, de nossos cálculos, de nossa ansiedade. Deus conceda que haja, em nossa vida, real e genuína liberdade!