Em meio a desafios, Cleitinho monta governo
Déficit fiscal para 2027 e necessidade de reabrir a renegociação da dívida de Minas com a União levam Cleitinho a manter canal institucional aberto com o presidente Lula. Para além do discurso da pacificação, sinaliza para um governo de diálogo, de viés municipalista e composição que mescla quadros técnicos e amplo leque partidário

Equacionar o déficit fiscal de R$ 10,5 bilhões estimado para o orçamento de 2027 e construir as condições políticas para renegociar a dívida de Minas com a União são problemas centrais do futuro governo Cleitinho (Republicanos). Diferentemente do governo Romeu Zema (Novo), que priorizou a batalha ideológica com o governo Lula, Cleitinho quer manter um canal institucional aberto. Até aqui manteve com ele interações cordiais, com ambos se cumprimentando pelas eleições. E trabalha para uma agenda com o presidente reeleito ainda este mês de novembro.
Apesar da patrulha de bolsonaristas radicais, Cleitinho tem clareza de que, como governador de um estado endividado e em situação fiscal precária, só tem a ganhar em estabelecer um relacionamento institucional respeitoso com as lideranças, sobretudo o presidente Lula. É um dos poucos governadores de oposição do Sudeste, Sul e Centro-Oeste que abraçou o discurso da conciliação e pacificação nacional após as eleições. Obcecado pelo embate ideológico com Lula, Romeu Zema não fez isso: deixou para a Assembleia Legislativa construir uma saída ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF) para a dívida de Minas, que alcança R$ 208,10 bilhões, dos quais R$ 187,5 bilhões com a União. Essa opção era muito mais prejudicial para o Estado do que o atual Programa de Recuperação da Dívida dos Estados (Propag), construído como alternativa, com o apoio de técnicos e políticos mineiros como Rodrigo Pacheco e Tadeu Leite (MDB).
Cleitinho tem feito visitas institucionais, sinalizando para um governo de diálogo. Esteve com o presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, desembargador Vicente de Oliveira Silva. Reuniu-se no Tribunal Regional Federal da 6ª Região com o desembargador federal Ricardo Rabelo e a desembargadora Mônica Sifuentes para tratar do Rodoanel. Visitou no Tribunal de Contas do Estado (TCE) o ex-governador e ministro Antonio Anastasia. Recebeu visita de cortesia do ex-governador Romeu Zema.
Os nomes já anunciados para a futura gestão do Estado apontam para uma lógica que combina uma equipe técnica com um time suprapartidário de políticos com experiência em gestão e inclinação municipalista. Para a equipe econômica do governo, foi anunciado o economista Thiago Toscano, ex-presidente da Codemig e da Codemge, que deixa a presidência da mineradora Itaminas para assumir uma supersecretaria, projetada para reunir a área econômica, a gestão, novos negócios e a atração de investimentos.
O vice-governador Luís Eduardo Falcão (Republicanos), que comanda a transição, vai assumir uma pasta ainda não definida. Vittorio Mediolli, do PL, ex-prefeito de Betim e deputado estadual eleito, foi convidado para assumir a Secretaria de Estado de Planejamento. Do MDB, Gabriel Azevedo, ex-presidente da Câmara Municipal e candidato ao governo de Minas, irá integrar o primeiro escalão, possivelmente a Secretaria de Educação. Do PSD, o presidente em Minas e deputado estadual Cássio Soares irá assumir uma pasta política, possivelmente a Secretaria de Governo ou a Secretaria da Civil. O engenheiro Otto Levy, que foi secretário de Planejamento e Gestão nos três primeiros anos do governo Romeu Zema, irá presidir a Cemig.
São também nomes sondados o médico Bernardo Guimarães; o diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Fabrício Galvão; Flávio Roscoe, presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, que também concorreu à sucessão mineira.
Jornalista, doutora em Ciência Política e pesquisadora


