Justiça ouve familiares de vítimas na primeira audiência criminal do desastre de Brumadinho

Audiências de instrução e julgamento do caso começaram nesta segunda-feira (23) em Belo Horizonte e durarão até maio de 2027

Previsão é que ocorrerão 76 audiências de instrução e julgamento do caso, realizadas às segundas e sextas-feiras

A Justiça Federal de Minas Gerais ouviu na tarde desta segunda-feira (23) familiares de vítimas no primeiro dia das audiências criminais sobre o desastre de Brumadinho, que matou 272 pessoas em 25 de janeiro de 2019.

A sessão foi realizada na sede do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6), no bairro Santo Agostinho, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte.

Antes do início das oitivas, familiares das vítimas se reuniram na porta do tribunal para pedir justiça e orar. Durante a audiência, um carro de som foi estacionado na rua e amplificou protestos.

A sessão, presidida pela juíza Raquel Vasconcelos Alves de Lima, atrasou e foi iniciada por volta das 13h30. O depoimento da última testemunha se encerrou às 16h20.

‘Meu marido foi minerado’

Kenya Paiva Silva Lamounier foi a primeira testemunha ouvida. Ela é esposa de Adriano Lamounier, 54 anos, funcionário da Vale que trabalhava na Mina Córrego do Feijão e morreu após o rompimento.

Durante o depoimento, Kenya falou sobre os impactos na família após a morte de Adriano e lamentou não ter conseguido realizar um velório digno para ele. “Meu marido foi minerado”, afirmou.

“Não posso viajar e falar que somos de Brumadinho, porque chega alguém e pergunta se perdemos alguém no desastre”, disse.

‘Minha vida se quebrou ali’

A segunda testemunha ouvida foi Andressa Aparecida Rocha Rodrigues. Ela é mãe de Bruno Rocha Rodrigues, de 26 anos, funcionário da Vale que morreu no desastre.

Atual prefeita da cidade de Mário Campos, cidade da Grande BH, Andressa Aparecida falou da angústia até a localização dos restos mortais do filho em 5 de maio de 2021, mais de cem dias após o rompimento. “Fiquei muito tempo pensando que ele voltaria”, disse.

“Minha vida se quebrou ali. Hoje, eu sobrevivo juntamente com a minha família, mas a minha maior riqueza eu não tenho. Minha casa é vazia. Bruno era filho único. Não sentir o cheiro dele, não escutar ele chamando ‘mãe’, saber que não vou ser avó”, afirmou.

‘Cada família sabe o que pôs dentro do caixão’

Natália de Oliveira foi a última testemunha ouvida nesta segunda-feira. Ela é irmã de Lecilda de Oliveira, funcionária que trabalhou mais de 25 anos na Vale e morreu aos 49 anos.

No tribunal, Natália falou da angústia que viveu nos 1.071 dias até encontrar os restos mortais da irmã. O corpo foi identificado em 28 de dezembro de 2021 e sepultado dois dias depois.

Ela contou que Lecilda “gostava muito de trabalhar lá e se sentia em casa”. “Minha irmã era muito humana. Ela tinha um senso de compromisso de cuidar dos outros. Ela amava trabalhar lá com os colegas dela e tinha muitas amizades duradouras de anos ali dentro”, relatou.

Segundo Natália, a irmã morreu de uma forma que tirou da família “a dignidade de velar e sepultar”. “Cada família sabe o que pôs dentro do caixão”, disse.

Audiências criminais do desastre de Brumadinho

A Justiça Federal de Minas Gerais realiza a partir desta segunda-feira (23) as audiências criminas do desastre de Brumadinho. O processo envolve 17 réus, e as sessões ocorrerão até 17 de maio de 2027.

A previsão é que ocorrerão 76 audiências de instrução e julgamento do caso, realizadas às segundas e sextas-feiras na sede do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6), no bairro Santo Agostinho, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte.

Figuram como réus na ação penal as empresas Vale S.A e TÜV Süd, multinacional alemã, e 16 ex-executivos vinculados às companhias. Eles respondem por homicídio e crimes ambientais.

A empresa alemã TÜV Süd foi envolvida no processo como controladora da Tüv Süd Bureau de Projetos e Consultoria LTDA, subsidiária no Brasil que atestou que havia estabilidade na Barragem B1 antes do rompimento.

O objetivo da fase de instrução e julgamento é produzir provas e ouvir formalmente os réus, as testemunhas e as vítimas. A Justiça analisará se houve falhas nos sistemas de segurança ou condutas negligentes que possam ter contribuído para o desastre que matou 272 vítimas.

Primeiro, serão ouvidos familiares de vítimas, sobreviventes, peritos, bombeiros , engenheiros e testemunhas de defesa. Depois, serão realizadas as oitivas de estrangeiros ou residentes no exterior. O interrogatório dos réus está previsto para começar em 15 de março de 2027.

Relembre o desastre de Brumadinho

Em 25 de janeiro de 2019, o rompimento da barragem do córrego do Feijão, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, marcou o início de um dos maiores desastres ambientais da história de Minas Gerais, do Brasil e do mundo.

Às 12:28 daquele dia, a barragem B1 se rompeu, ocasionando o rompimento de outras duas barragens - BIV e BIVA. Morreram 272 pessoas no desastre, entre elas duas mulheres grávidas e seus bebês. No total, foram afetadas diretamente 26 cidades e 131 comunidades rurais.

Cerca de 12 milhões de m³ de rejeitos foram despejados após o rompimento, o que trouxe uma série de impactos e prejuízos ambientais e socioeconômicos, como a contaminação do Rio Paraopeba.

A barragem B-1 foi construída em 1976 com o método de alteamento a montante pela Ferteco Mineração. Em abril de 2001, a Vale S.A adquiriu a estrutura de 86 metros de altura e 720 metros de comprimento.

A finalidade da barragem era armazenar rejeitos do processo de beneficiamento a úmido de minério de ferro, que ocupavam uma área de aproximadamente 250 mil m². Na época do rompimento, a estrutura estava inativa e com projeto de descaracterização em andamento.

Nota da Vale

“A Vale reafirma seu respeito às vítimas, familiares e comunidades atingidas e reitera seu compromisso com a reparação integral dos danos. A empresa não comenta ações judiciais em andamento.”

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Repórter no portal da Itatiaia. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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