Uma das maiores companhias aéreas brasileiras, a Gol entrou com um pedido de recuperação judicial nos EUA, na quinta-feira (25), para pagar uma dívida de curto prazo de R$ 3 bilhões. Os impactos da pandemia de Covid-19 na aviação, quando a companhia teve as operações comprometidas por mais de um ano, provocaram a escalada do prejuízo.
Segundo o especialista em investimentos da GTF Capital, Artur Horta, outras companhias aéreas enfrentam os mesmo problemas ao longo da crise sanitária e tiveram que entrar com o pedido de recuperação judicial nos EUA. É o caso da Latam e Avianca, concorrentes da Gol.
“Nesse período, as empresas aéreas ficaram impossibilitadas de operar, o que causou um custo extremamente elevado e consumiu praticamente todo o dinheiro que as empresas tinham em caixa”, explicou Artur Horta, em entrevista à Itatiaia.
“O custo de manter uma aeronave no chão é extremamente elevado”, destacou.
Em comunicado aos acionistas na quinta (25), a Gol afirmou que o processo tem o objetivo de reestruturar obrigações financeiras de curto prazo para garantir a sustentabilidade da empresa a longo prazo.
“A companhia assegura que voos, programa de fidelidade, e operações continuam normalmente, com o compromisso de pagamento de salários e benefícios aos colaboradores”, disse a companhia em nota.
Até 2019, a Gol era a maior companhia aérea brasileira em número de passageiros, de acordo com o Anuário do Transporte Aéreo 2021, publicado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
No entanto, a partir de 2020, com a pandemia de coronavírus, a Gol perdeu participação de mercado para a Azul.
Em 2021, a Azul transportou 22,8 milhões de passageiros, 4 milhões a mais que a Gol, e se tornou a maior companhia aérea brasileira em número de viagens, de acordo com a Anac.
“Bola de neve”
Com a retomada gradual das atividades, o número de voos recuperou o nível anterior à pandemia e as principais companhias aéreas brasileiras começaram a implementar planos de reestruturação financeira.
A Latam saiu recentemente de um processo de recuperação judicial e a Azul concluiu uma reestruturação de sua dívida em outubro de 2023, após alcançar acordos com arrendadores e outros credores.
Mas, no caso da Gol, esse processo não foi o suficiente para “sanar a bola de neve de dívidas”, de acordo com Artur Horta.
“Então, hoje a Gol tem uma dívida de R$3 bilhões no curto prazo e cerca de R$900 milhões no caixa. Ou seja, ela não tem dinheiro para pagar a dívida. Isso levou a empresa a entrar com pedido de recuperação judicial”, explica o especialista.
Negociações não devem ser fáceis
A recuperação judicial permite às empresas, que estão na iminência de falir, suspenderem o pagamento das dívidas, facilitando as negociações com credores e a continuidade das operações.
A justificativa legal do processo é baseada na dimensão econômica da empresa, considerada vital para o setor aéreo brasileiro.
“Geralmente, essas negociações resultam em uma diminuição do valor da dívida (termo conhecido como haircut), além de um alongamento do prazo de pagamento”, explicou Artur Horta.
“Por exemplo, pode ser que esses R$3 bilhões se tornem R$1,5 bilhão e, ao invés de serem quitados em 2024, sejam quitados em duas parcelas em 2025 e 2026”, completa.
O plano de recuperação judicial deve ser aprovado pela maioria dos credores, que a Gol está devendo. Horta acredita que a negociação não deva ser fácil.
“A negociação nunca é simples, pois são vários credores diferentes. Agora, pensa: você emprestou dinheiro para alguém e a pessoa diz que não tem para te pagar de volta. É exatamente esse o caso (da Gol), então digamos que o credor vai sair perdendo”, explica.
“A negociação vai ser difícil, porque o credor vai querer perder o mínimo possível”, acrescenta.
Voos não serão afetados
Por outro lado, o especialista em investimentos acredita que a recuperação judicial não vá afetar a operação da Gol no Brasil.
A Gol opera uma frota de 139 aeronaves, que atendem a mais de 150 destinos no Brasil e no exterior.
De acordo com os dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a Gol realizou 789.300 voos domésticos de transporte de passageiros em 2023.
“A entrada na recuperação judicial da Gol não vai mudar em nada as operações por aqui. Os clientes podem dormir tranquilos. Quem tem que se preocupar são os acionistas minoritários e credores, como arrendadores, bancos e investidores”, alerta Artur Horta.
Ele afirma que a Gol vai pedir aos seus credores um empréstimo de US$950 milhões na modalidade “DIP” (“devedor em posse”, na sigla em português) e deve conseguir.
“A DIP é uma modalidade que garante crédito para empresas em recuperação judicial com melhores condições de pagamento, geralmente semelhantes às de antes do início do processo. A Gol deve consultar credores específicos para pegar esse empréstimo”, aponta.
Por que a Gol entrou em recuperação judicial nos EUA?
O motivo da Gol ter entrado em recuperação judicial nos Estados Unidos está relacionado a diversos fatores, mas principalmente pela velocidade na qual o processo caminha na Justiça norte-americana, explicou Artur Horta.
O valor da dívida bilionária da Gol em dólar também contribuiu para a escolha, segundo ele.
A recuperação judicial nos EUA é chamada de Chapter 11 (Capítulo 11, em português), da Lei de Falências, e tem algumas diferenças em relação à legislação brasileira, como a flexibilidade.
“A lei americana garante uma proteção maior em relação à retomada de aeronaves por parte dos arrendadores. Sem essa proteção, os arredores poderiam pegar as aeronaves que a Gol está usando de volta, já que a Gol não tem dinheiro para pagar”, explica Horta.
No contexto da aviação, os arrendadores são empresas ou instituições que emprestam aeronaves para outras companhias aéreas por meio de contratos de arrendamento.
Esse tipo de acordo é comum na indústria da aviação, pois permite que as empresas obtenham acesso aos aviões, sem a necessidade de gastar com o ativo, que é muito caro.
Devido a esse tipo de benefício, a Latam e a Avianca também entraram em recuperação judicial durante a pandemia de Covid-19 nos EUA. Ambos processos já foram concluídos.
Tendo por base o procedimento envolvendo a Latam e Avianca, Artur Horta acredita que a recuperação judicial da Gol possa durar até dois anos após a aprovação da justiça dos Estados Unidos.
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