Guerra de preços dos carros novos derruba valor de seminovos em até 21%
Descontos nos carros novos aceleram a desvalorização dos seminovos e mudam as escolhas dos consumidores

A queda nos preços de carros novos, acirrada nos últimos meses com a chegada de novas marcas chinesas, já provoca efeitos significativos no mercado de seminovos. Com descontos agressivos e reposicionamentos de preços, veículos com poucos anos de uso estão perdendo valor em ritmo mais acelerado.
Um levantamento da Auto Avaliar mostra que os preços efetivamente negociados de veículos com até três anos de uso caíram 9,3% entre janeiro e junho de 2026. No mesmo período, a tabela Fipe registrou uma retração de 2,4%, evidenciando que os valores praticados nas negociações estão se ajustando mais rapidamente.

Entre os modelos que mais perderam valor no primeiro semestre estão alguns dos veículos mais procurados do mercado. O Toyota Corolla 2025 teve queda de 21,2%, enquanto Volkswagen T-Cross 2025 e Honda HR-V 2025 recuaram 20,9% e 20%, respectivamente. Volkswagen Nivus e os Toyota Corolla Cross, Yaris e SW4 também aparecem entre os modelos com desvalorização significativa.
Descontos nos carros novos pressionam os usados
Um dos principais fatores por trás desse movimento é a redução dos preços dos veículos novos. Entre maio e agosto, algumas montadoras ampliaram descontos, bônus e outras condições comerciais para atrair consumidores.
Segundo a Auto Avaliar, as reduções chegaram a R$ 55 mil no Mitsubishi Outlander PHEV, R$ 50 mil no Suzuki e-Vitara, R$ 38,5 mil no Fiat Fastback Hybrid e R$ 28,5 mil no BYD Song Pro. Marcas tradicionais também passaram a oferecer condições mais agressivas em modelos como Hyundai Creta, Jeep Compass, Volkswagen T-Cross e Nivus.

Com isso, a diferença de preço entre um seminovo e um zero-quilômetro diminui. Em alguns casos, o consumidor pode encontrar um carro novo por valor próximo ou até inferior ao de um usado recente, especialmente quando são considerados descontos, bônus de fábrica e condições de financiamento.
Um exemplo apresentado pela Auto Avaliar envolve o Jeep Compass Sport zero quilômetro. Com preço público de R$ 174 mil, o SUV pode ser negociado por R$ 147 mil após um desconto de R$ 27 mil. Já um Volkswagen Taos Comfortline 2025 seminovo, anunciado por uma média de R$ 164 mil, é negociado por cerca de R$ 159 mil.

Na simulação, o comprador que optasse pelo Compass precisaria financiar R$ 59 mil após entregar um usado avaliado em R$ 88 mil. No caso do Taos, o financiamento seria de R$ 71 mil. Considerando juros de 1,6% ao mês, o custo total estimado do seminovo chegaria a R$ 177.954, cerca de R$ 31 mil acima do zero quilômetro do exemplo.
Preço dos usados pode mudar rapidamente
Outro ponto destacado pelo estudo é a velocidade com que os preços estão se ajustando. Entre 2025 e junho de 2026, o preço médio efetivamente pago por carros novos caiu 3,5%, enquanto os preços públicos recuaram 1,5%.
Essa diferença faz com que os valores negociados nas concessionárias antecipem movimentos que ainda não aparecem nas principais referências de mercado. Para lojistas e concessionárias, o cenário aumenta o risco de manter veículos em estoque por períodos mais longos.
A Auto Avaliar estima que o giro médio dos veículos usados é de 36 dias. Nesse intervalo, uma nova rodada de descontos nos carros zero-quilômetro pode reduzir o valor de um seminovo antes mesmo que ele seja vendido. A margem bruta média do setor é estimada em 10,1%, com ticket médio de R$ 89.781.
Marcas chinesas aumentam pressão
A expansão das fabricantes chinesas também contribui para intensificar a disputa por preços. Em julho, essas marcas responderam por 22,8% do mercado, com 60,5 mil veículos vendidos, além de representarem 52,4% dos veículos importados no período.
A rede de concessionárias chinesas também avançou e já soma 1.360 pontos de venda, segundo os dados citados no levantamento.

Apesar da pressão sobre os preços, o mercado de usados continua movimentando um volume expressivo de veículos. Entre janeiro e julho de 2026, foram negociados 7,9 milhões de automóveis e comerciais leves usados, o equivalente a 4,88 veículos usados para cada carro novo vendido no período.
O cenário, portanto, não significa necessariamente que os consumidores deixaram de buscar seminovos. Porém, com os preços dos zero-quilômetro mais competitivos, a escolha pelo usado passa a exigir uma análise ainda maior de preço, desvalorização e liquidez.
Guilherme Silva gosta do meio automotivo desde que se conhece por gente, mas começou a trabalhar no setor por acaso. São mais de 15 anos de experiência na área, com passagens por iCarros, Carsale, Webmotors, KBB e Mobiauto, além de ter colaborado com as tradicionais revistas Autoesporte, Motor Show e Quatro Rodas, produzindo matérias de diferentes temas e cobrindo eventos e salões no Brasil e no exterior.



