Vinho branco brasileiro ganha força nas gôndolas e impulsiona lançamentos no setor
Embalado por um crescimento de 18% no mercado nacional, o segmento de vinhos brancos atrai investimentos de grandes vinícolas

O paladar do consumidor brasileiro passa por uma transformação perceptível nas gôndolas e taças de todo o país. Tradicionalmente dominado pelos tintos e consolidado internacionalmente por seus espumantes, o Brasil vê agora a ascensão consistente de seus vinhos brancos. De acordo com dados da consultoria Ideal BI, a comercialização de vinhos brancos registrou um expressivo crescimento de 18%, superando com folga o desempenho de tintos (2%) e rosés (4%).
De olho nesse movimento de mercado que busca rótulos mais leves, frescos e versáteis, as grandes vinícolas nacionais começam a movimentar seus portfólios. É o caso da Casa Perini, tradicional produtora instalada no Vale Trentino, em Farroupilha (RS). A empresa anunciou o lançamento do Casa Perini Vitis Riesling, um rótulo elaborado com uma das variedades brancas mais nobres e prestigiadas do mundo vitivinícola.
O movimento da vinícola reflete a maturidade da produção nacional em entregar vinhos finos de alta gama aromática, capazes de rivalizar diretamente com os consolidados brancos chilenos e portugueses que hoje ocupam as prateleiras do país.

O trunfo do terroir e o desafio no campo
Para Franco Perini, presidente do Conselho Administrativo da vinícola, o avanço na qualidade dos brancos nacionais é nítido, especialmente pelas condições naturais encontradas na Serra Gaúcha. A região possui solos argilo-arenosos e uma amplitude térmica que favorecem a maturação equilibrada das uvas, preservando a acidez e o frescor natural exigidos pelo estilo.
"Hoje, temos condições de oferecer vinhos nacionais com excelente relação entre qualidade e preço", afirmou Franco Perini. "O consumidor brasileiro está mais aberto a experimentar novos estilos, buscando vinhos mais leves e adequados a diferentes momentos de consumo. Esse movimento cria um cenário muito positivo".
No entanto, a produção de grandes vinhos brancos exige precisão "cirúrgica" no campo. Diferente dos tintos, que muitas vezes buscam sobrematuração para extrair estrutura e cor, as variedades brancas exigem atenção minuciosa ao relógio. A colheita frequentemente precisa ser antecipada para que a fruta não perca a vivacidade. "No caso das variedades brancas, existe uma atenção especial ao momento ideal da colheita, porque buscamos preservar características fundamentais como acidez, frescor e expressão aromática. Uma antecipação ou um atraso no ponto de colheita pode gerar um vinho com outras características", explicou o executivo.
O desafio de colocar o vinho no cotidiano do brasileiro
Apesar do ótimo momento dos brancos e do reconhecimento internacional — o portfólio da Casa Perini acumula mais de 300 medalhas, incluindo o feito de ter seu Moscatel eleito o 5º melhor vinho do mundo em 2017 pela WAWWJ —, o setor ainda enfrenta o desafio histórico de elevar o consumo per capita no Brasil, que permanece baixo quando comparado aos vizinhos do Mercosul, como Argentina e Uruguai.
Uma das principais apostas institucionais da indústria para reverter esse cenário é o uso estratégico da oficialização do Dia Nacional do Vinho. No entanto, para as lideranças do setor, o feriado é apenas a vitrine de um trabalho de base que precisa ser contínuo.
De acordo com Franco Perini, a verdadeira virada de chave do setor depende de desmistificar a bebida e aproximá-la do dia a dia das pessoas. "O principal desafio é aproximar o vinho do cotidiano, mostrando que ele não precisa estar associado apenas a ocasiões especiais ou a um público específico. O vinho pode estar presente em momentos simples", defendeu Perini, apontando que o fortalecimento do enoturismo, a educação sobre a bebida e a própria versatilidade gastronômica dos novos vinhos brancos são os caminhos fundamentais para transformar o interesse do brasileiro em um hábito definitivo.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



