Belo Horizonte
Itatiaia

Tilápia invasora? Votação nesta quarta (27) pode derrubar exportações em 90%

Setor aquícola alerta que enquadrar a espécie como 'exótica invasora' pode derrubar vendas e gerar efeito cascata

Por
Minas importa tilápia do Vietnã mesmo com vírus letal e recorde de produção
Entenda impasse entre setores • Canva/ Banco de imagem

A Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio) inicia nesta quarta-feira (27), e pode se estender até quinta (28), a votação da proposta que pode incluir a tilápia na Lista Nacional de Espécies Exóticas Invasoras Presentes no Brasil. O debate, que opõe ambientalistas e o setor produtivo, coloca em jogo o futuro de uma das cadeias mais dinâmicas do agronegócio brasileiro.

O impasse não é de hoje. O processo foi proposto em outubro do ano passado pela Conabio, mas acabou suspenso em dezembro devido à forte pressão e repercussão negativa junto à indústria. Agora, a trégua terminou e o veredito final está próximo.

Para os produtores e a indústria de pescado, a aprovação da medida funcionaria como uma barreira comercial automática. A avaliação da Associação Brasileira da Piscicultura (PEIXE BR) é que a decisão seria interpretada internacionalmente como um reconhecimento oficial de risco ambiental pelo próprio governo brasileiro, abrindo precedentes para severas restrições sanitárias, ambientais e comerciais nos mercados mais estratégicos do planeta.

 

O tamanho do prejuízo: o 'fantasma' da carpa asiática

De acordo com um estudo técnico elaborado pela PEIXE BR, uma eventual classificação da tilápia como espécie invasora poderia resultar em uma queda de até 90% nas exportações da espécie em apenas seis meses. O impacto financeiro direto estimado ultrapassa US$ 38 milhões (cerca de R$ 190 milhões).

O principal foco de preocupação são os Estados Unidos, destino de aproximadamente 85% das exportações nacionais de tilápia, movimentando US$ 35 milhões anuais. O setor teme a repetição de um precedente histórico crítico ocorrido na Ásia.

"Em 2010, os Estados Unidos classificaram a carpa asiática como espécie invasora. Como consequência, as exportações chinesas daquela espécie registraram queda de aproximadamente 97% em apenas um ano, sem qualquer recuperação posterior do mercado", disse Francisco Medeiros, presidente da PEIXE BR.

Além disso, o documento alerta para um efeito cascata que pode gerar perdas anuais de US$ 64 milhões para todo o setor pesqueiro exportador. Espécies nativas legítimas, como o tambaqui e o pintado, também seriam arrastadas pela crise devido ao provável endurecimento de auditorias internacionais, exigências sanitárias rigorosas e desgaste da imagem reputacional do Brasil lá fora. Selos de sustentabilidade globais, como BAP, ASC e Global G.A.P., também ficariam sob risco de suspensão.

Ministério do Meio Ambiente nega proibição

Do outro lado, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) tenta acalmar os ânimos do setor produtivo e reitera o caráter puramente técnico e preventivo da iniciativa. A pasta assegura que a inclusão na lista foca na "prevenção, detecção precoce e resposta rápida em caso de novas invasões biológicas" e que não há qualquer plano de banimento.

"O Ibama, autarquia responsável pela autorização de cultivo de espécies exóticas na aquicultura, permite a criação da tilápia, de grande relevância econômica e cultivo amplamente consolidado no Brasil. Não há, portanto, qualquer proposta ou planejamento para interromper essa atividade", garantiu o MMA, em nota oficial.

Apesar das garantias de que os tanques de cultivo continuarão liberados dentro do território nacional, os produtores insistem que o estrago comercial externo será inevitável se o carimbo de "invasora" for aprovado.

Tilápia: gigante que move os estados

O debate ganha contornos ainda mais dramáticos pelo tamanho atual da atividade no país. A tilápia é o motor da piscicultura nacional, registrando crescimentos expressivos em várias regiões.

  • 1º Paraná: Líder isolado com 273,1 mil toneladas e crescimento de 9,10% em relação ao ano anterior.
  • 2º São Paulo: Vice-líder com 93,7 mil toneladas, registrando uma impressionante arrancada de 54,00%.
  • 3º Minas Gerais: Terceiro colocado com 77,5 mil toneladas e alta de 6,46%.
  • 4º Santa Catarina: Quarta posição com 63,4 mil toneladas e expansão de 7,28%.
  • 5º Maranhão: Fecha o top 5 nacional com 59,6 mil toneladas e avanço de 9,36%.

O Paraná lidera o ranking de forma isolada, impulsionado pela força de cooperativas, agroindústrias e forte aporte tecnológico. São Paulo consolidou o segundo lugar com uma impressionante arrancada de 54% em sua produção no ano de 2025. Apesar de Minas ocupar o 3° lugar, a cidade de Morada Nova de Minas, na Região Central do estado, é a atual maior produtora individual de tilápias do Brasil.

Na região Nordeste, o grande destaque fica por conta do Maranhão, que fechou o top 5 nacional como o estado de maior índice de crescimento proporcional entre os grandes produtores. Outro destaque mapeado pela PEIXE BR foi o Ceará, que avançou 29,3% e assumiu a 18ª posição nacional.

A votação na Conabio será acompanhada de perto por cooperativas e indústrias de todo o país, que aguardam o resultado para definir os próximos passos jurídicos e institucionais da cadeia do pescado nacional.

Por

Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde