Belo Horizonte
Itatiaia

Produzir com previsibilidade será desafio estratégico do agro nas próximas décadas

Resiliência climática, bioeconomia e capacidade de manter resultados consistentes ganham peso na competitividade do agronegócio brasileiro

Por
Divulgação / Embrapa

Em um cenário marcado por mudanças climáticas, volatilidade econômica e crescente demanda por sustentabilidade, a capacidade de produzir de forma estável e previsível tende a se tornar um dos principais fatores de competitividade do setor.

A avaliação é do pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, Vinicius Bof Bufon. Segundo ele, a agricultura entra em uma nova fase de desenvolvimento, na qual a previsibilidade produtiva passa a ser tão importante quanto os ganhos de produtividade obtidos nas últimas décadas.

“Produzir bem continua sendo fundamental. Produzir de forma sustentável também. Mas o grande diferencial daqui para frente será a capacidade de produzir com previsibilidade, reduzindo riscos e aumentando a resiliência dos sistemas produtivos”, afirmou.

Nas últimas décadas, avanços em genética, mecanização, nutrição de plantas, agricultura digital e gestão permitiram que o Brasil se consolidasse como uma das maiores potências agrícolas do planeta. Agora, segundo o pesquisador, o setor enfrenta desafios mais complexos.

“O contexto em que a agricultura opera mudou. Os eventos climáticos extremos estão mais frequentes, os mercados estão mais competitivos e os investidores cada vez mais atentos à gestão de riscos. Isso exige uma nova forma de pensar os sistemas produtivos”, observou.

Demanda por biomassa deve crescer

Para Bufon, a discussão ganha relevância porque a demanda mundial por biomassa continuará aumentando nas próximas décadas. Além de alimentos, a agricultura será responsável pelo fornecimento de matérias-primas para biocombustíveis, bioenergia, biomateriais e diversos produtos associados à bioeconomia.

“O mundo precisará de mais alimentos, mais fibras, mais energia renovável e mais produtos de origem biológica. A agricultura deixa de ser apenas fornecedora de alimentos e passa a ocupar uma posição estratégica na construção da bioeconomia global”, destacou.

Clima e economia formam uma combinação crítica

Apesar dos avanços tecnológicos observados na agricultura, Bufon alertou que a adaptação dos sistemas produtivos depende também de condições econômicas favoráveis.

“Não basta desenvolver tecnologia. O produtor precisa encontrar condições para investir, assumir riscos e capturar valor. Sem isso, a transição para modelos mais resilientes se torna mais lenta e mais difícil”, afirmou.

Na avaliação do pesquisador, pequenos produtores costumam enfrentar limitações relacionadas ao acesso a crédito, assistência técnica e informação. Mas médios e grandes empreendimentos também encontram obstáculos quando precisam investir em irrigação, infraestrutura, recuperação de solos, rastreabilidade e adaptação climática.

Inovação colaborativa e bioeconomia

Bufon destacou que a construção de sistemas produtivos mais resilientes depende da articulação entre pesquisa, empresas, agroindústrias, instituições financeiras e formuladores de políticas públicas. “A velocidade da transformação está diretamente relacionada à capacidade de integrar diferentes competências em torno de objetivos comuns”, avaliou.

Para o pesquisador, o Brasil reúne condições únicas para assumir protagonismo na bioeconomia global. “Poucos países combinam simultaneamente escala agrícola, biodiversidade, energia renovável e conhecimento tropical acumulado. Isso cria oportunidades importantes para ampliar nossa participação nos mercados ligados à bioeconomia”.

Entre as possibilidades estão a produção de alimentos, biomassa, etanol, biometano, hidrogênio verde, bioeletricidade, bioplásticos e outros materiais de origem biológica.

No entanto, ele ressaltou que essa liderança dependerá da continuidade dos investimentos em ciência, inovação, infraestrutura e adaptação climática.

“A nova fronteira da agricultura não será definida apenas por quem produz mais. Será definida por quem consegue produzir mais valor com maior previsibilidade, maior resiliência climática, maior eficiência ambiental e maior competitividade econômica”.

Para Bufon, a agricultura brasileira deve ser encarada não apenas como parte da agenda climática, mas como uma das principais plataformas econômicas da bioeconomia do século XXI.

“A liderança do futuro dependerá da capacidade de transformar produtividade, eficiência e sustentabilidade em previsibilidade produtiva, econômica e ambiental”, concluiu.

Por

*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.