Prevenção e controle de doenças em caprinos é tema de novo guia da Embrapa
Publicação reúne orientações sanitárias para melhorar manejo e evitar prejuízos no rebanho

Criadores de caprinos leiteiros acabam de ganhar uma nova ferramenta com orientações para prevenir doenças infecciosas em seus rebanhos. O Guia para elaboração de plano de biosseguridade no controle e prevenção de doenças infecciosas de caprinos leiteiros no Nordeste explica como adotar um conjunto de procedimentos e práticas para facilitar o manejo e controlar enfermidades que podem colocar em risco a saúde dos animais e seres humanos, a produtividade de rebanhos e a qualidade dos produtos.
A elaboração do Guia é um resultado de uma trajetória de anos de pesquisa em doenças infecciosas na Embrapa e também uma demanda de criadores de caprinos leiteiros. Segundo Selmo Alves, pesquisador da área de Sanidade Animal da Embrapa Caprinos e Ovinos (CE), a interação com os produtores mostrou alguns aspectos que podem ser melhorados com orientações específicas de manejo e implementados por meio de planos.
“Nós verificamos a necessidade de uma orientação para biosseguridade, envolvendo questões como quarentena e outros cuidados na entrada e trocas de animais nos rebanhos, para que tudo seja feito com melhor critério sanitário”, explicou Alves, um dos autores do Guia. “Vimos uma ânsia de informações muito grande, por parte de técnicos e de produtores, sobre como ter um rebanho mais saudável, aumentando produção e qualidade”, acrescentou Rizaldo Pinheiro, também pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos e outro autor da publicação.
No Guia estão recomendações de protocolos para quarentena e monitoramento de animais, vacinação, higienização de instalações, fornecimento de alimentação e o manejo adequado de animais enfermos e de resíduos da produção. A publicação traz também um anexo com um checklist que permite aos usuários verificar o cumprimento de orientações de manejo sanitário nas propriedades.
A ideia da publicação com informações acessíveis ao público entusiasmou produtores rurais como Geneci Lemos, de Coxixola, na região do Cariri Paraibano. “É excelente, algo essencial para fazermos um controle e acompanhar o rebanho”, ressaltou. O criador, parceiro da Embrapa, destacou que a troca de informações sobre biosseguridade para seu rebanho já trouxe autonomia e melhorias na rotina da atividade.
“Com o aprendizado dos cursos, dos dias de campo, hoje eu sei coletar fezes de uma cabra para fazer OPG [exame de contagem de ovos de larvas em fezes de animais, que mensura o grau de infecção por verminose], dou remédios se for preciso, entre outras atividades mais básicas. Com essas informações, já consigo evitar vários prejuízos”, frisou Geneci.
Além do potencial de promover bem-estar aos rebanhos, a elaboração do Guia também tem o objetivo de evitar que caprinocultores tenham prejuízos por impactos de doenças na qualidade do leite e consequentes perdas de mercados consumidores. Alves ressaltou que a contaminação por doenças infecciosas pode tornar o leite inadequado para o processamento e para a comercialização em mercados do Brasil e do exterior.
“Quando um mercado se abre para o leite caprino brasileiro, a primeira providência que outro país adota é analisar, em consulta ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), que tipos de doenças podem contaminar os rebanhos locais. Essa questão de mercado é muito delicada”, frisou o pesquisador.
Saúde Única e prevenção de zoonoses
A preocupação em disseminar boas práticas de manejo para controle e prevenção de doenças na caprinocultura leiteira também contempla uma questão mais abrangente, relacionada à estratégia de Saúde Única. Algumas enfermidades que acometem os animais são zoonoses, ou seja, são capazes de infectar pessoas e trazer riscos à saúde humana.
“Uma zoonose não deve ser estudada de forma isolada ou restrita a uma única espécie, pois sua compreensão exige uma abordagem integrada entre animais, seres humanos e ambiente, especialmente diante de relatos no Nordeste de manifestações clínicas diversas“, alertou Pinheiro.
Para Pinheiro, essa estratégia de foco em saúde única também é uma vantagem do caráter participativo das orientações para a construção dos planos de biosseguridade. Ao reunir produtores, técnicos e profissionais de forma multidisciplinar em sua elaboração, essas ações podem identificar problemas e soluções de forma mais abrangente e completa.
Publicação e rotinas de manejo
Ao disponibilizar orientações a respeito do manejo sanitário, a ideia do Guia é trazer a agricultores, extensionistas e gestores públicos informações que sirvam como referência para a saúde animal e a saúde pública. Uma das ferramentas presentes na publicação é um formulário de diagnóstico para que as propriedades rurais possam monitorar o cumprimento de normas sanitárias.
Segundo Alves, o formulário atende a um contexto da caprinocultura leiteira, atividade predominantemente composta por agricultores familiares, que necessita de cuidados com aspectos como movimentação de animais, a qual pode exigir medidas de isolamento e quarentena.
“Na propriedade, a aquisição e a troca de animais, bem como a participação em feiras e exposições, exigem medidas preventivas para reduzir o risco de disseminação de doenças. Além disso, técnicos e produtores devem observar alterações comportamentais no rebanho, como isolamento ou ausência do animal nas instalações, pois esses sinais podem indicar possíveis problemas sanitários”, exemplificou Alves.
O formulário permite que o produtor observe questões relacionadas às instalações e equipamentos; condições de alimentos e água; protocolos para entrada de pessoas e de veículos na propriedade; e descarte de resíduos da produção.
“Acredito que esse Guia auxiliará muitos técnicos e produtores na obtenção de produtos melhores, além de maior produção e satisfação, impactando diretamente o bem-estar do animal e das famílias”, observou Pinheiro.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



