Peixes sofrem com estresse? Erro na produção de tilápia estraga a carne e gera prejuízo
Erros comuns na criação, como superlotação e água mal monitorada, afetam a imunidade da tilápia e reduzem o rendimento de carcaça

Por muito tempo, o bem-estar animal foi um conceito associado quase que exclusivamente à criação de bois, porcos e frangos. No entanto, a ciência avançou e acendeu um alerta definitivo para a aquicultura: os peixes sentem dor, sofrem com o estresse e, quando manejados de forma inadequada, pesam diretamente no bolso do produtor.
No Brasil, país onde a tilápia é uma das espécies mais populares, mitos antigos ainda impedem que muitos piscicultores alcancem o potencial máximo de seus negócios. De acordo com especialistas da MSD Saúde Animal, o estresse e o sofrimento pré-abate afetam desde a imunidade do cardume até o rendimento da carcaça e a qualidade da carne que chega à mesa do consumidor.
5 grandes mitos da piscicultura desmistificados
Para orientar o setor, o médico veterinário Filipe Dalla Costa, coordenador técnico de Bem-Estar Animal na MSD Saúde Animal, elencou os principais erros de percepção que ainda ocorrem no campo:
1. Peixes não se estressam porque são 'rústicos'
Mito. Diante de ameaças ou manejos brutos, o organismo dos peixes libera cortisol e adrenalina em reações de "luta ou fuga" idênticas às de outros vertebrados. Superlotação, transporte mal feito e capturas frequentes para biometria disparam esses hormônios, resultando em perda de peso e alta mortalidade.
2. Se o peixe não reclama, ele está bem
Mito. A tilápia é uma espécie resistente, mas ela sofre em silêncio. "A falsa percepção de que os peixes são super-resistentes ocorre porque eles não têm expressões faciais e não emitem vocalização, já que não possuem cordas vocais", explicou Dalla Costa. O sofrimento silencioso não mata o peixe de imediato, mas destrói o desempenho zootécnico e eleva os custos da fazenda.
3. Água cristalina é sinônimo de água saudável
Mito. O perigo no tanque costuma ser invisível a olho nu. Uma água visualmente limpa pode conter níveis tóxicos de amônia, nitrito e nitrato. Essas substâncias queimam as brânquias dos animais e reduzem drasticamente a capacidade do sangue de transportar oxigênio.
4. Quanto mais peixe no tanque, maior o lucro
Mito. A superlotação gera o efeito inverso. Colocar mais indivíduos por metro cúbico gera competição feroz por oxigênio, aumenta a agressividade no cardume, provoca lesões na pele e piora a conversão alimentar, derrubando a rentabilidade final por indivíduo.
5. O modo como o peixe morre não muda o sabor da carne
Mito. O manejo pré-abate (despesca e insensibilização) é o momento mais crítico da produção. Um abate estressante faz o peixe queimar energia rapidamente, gerando um acúmulo de ácido lático que estraga a textura, a cor e o tempo de conservação da carne na gôndola.

Novo perfil do consumidor: ética que gera lucro
Além dos ganhos produtivos dentro da fazenda (menor ocorrência de doenças, menor mortalidade e melhor aproveitamento da ração), o respeito à vida do peixe tornou-se um ativo de mercado essencial em 2026.
O mercado atual não busca apenas o filé mais barato. Existe uma fatia expressiva — e disposta a pagar mais — de compradores institucionais e consumidores que exigem produtos certificados.
"Melhorar o bem-estar único no sistema de produção é conquistar um produto ético ao mercado consumidor contemporâneo. Existe um nicho crescente que exige produtos éticos. A adequação a esses padrões garante valor agregado e diferenciação frente aos concorrentes", destacou o coordenador.
Para Talita Morgenstern, coordenadora técnica de Aquicultura da MSD Saúde Animal, o bem-estar na tilapicultura deve ser encarado como uma jornada diária de decisões. Encontrar o equilíbrio exato entre produtividade, sanidade e respeito à vida animal é, hoje, o melhor modelo de negócios para garantir a sustentabilidade e a longevidade da piscicultura brasileira.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



