PANC ganham espaço como alternativa sustentável para a agricultura familiar

Dia de campo da Embrapa destaca potencial nutricional, produtivo e de geração de renda das plantas alimentícias não convencionais

Encontro reuniu agricultores familiares, gestores e técnicos de prefeituras e de instituições de extensão rural e mais

As Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) estão ganhando espaço como alternativa estratégica para a agricultura familiar e para sistemas produtivos sustentáveis. Essas espécies são pouco conhecidas do grande público, mas possuem alto valor nutricional, rusticidade e forte ligação com a biodiversidade local. As PANC foram tema do Dia de Campo “Conhecendo as Plantas Alimentícias Não Convencionais: cultivo, usos e geração de renda”, realizado no Sítio Agroecológico, na Embrapa Meio Ambiente.

O encontro reuniu agricultores familiares, gestores e técnicos de prefeituras e de instituições de extensão rural, estudantes e pessoas interessadas em conhecer, na prática, o cultivo e o uso dessas espécies.

As PANC são plantas com potencial alimentício ainda pouco explorado pela agricultura convencional. Em sua maioria nativas ou naturalizadas, seu cultivo exige menos insumos e apresenta elevada capacidade de produção mesmo em ambientes adversos. Além disso, contribuem para a conservação da biodiversidade e para a diversificação dos sistemas agrícolas.

A atividade foi coordenada por pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente e da Embrapa Mandioca e Fruticultura, em parceria com a Cooperativa de Agricultores Familiares de Americana e Região (Cooperacra), a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo “José Gomes da Silva” (ITESP) e as prefeituras de Jaguariúna e Mogi-Mirim.

Segundo Joel Queiroga, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e um dos coordenadores do evento, a valorização dessas plantas está diretamente ligada aos princípios da agroecologia. “As PANC ampliam o repertório alimentar, reduzem a dependência de agricultores às poucas culturas dominantes e fortalecem a segurança e a soberania alimentar. São espécies que dialogam com o território, com a cultura local e com a realidade da agricultura familiar”, afirmou.

Visita ao campo

Durante o dia de campo, os participantes conheceram as Unidades de Observação (UO) já existentes no Sítio Agroecológico e a mais nova delas, dedicada exclusivamente às Plantas Alimentícias Não Convencionais. Nessas áreas, são desenvolvidas e avaliadas de forma participativa com agricultores e técnicos, práticas de manejo, cultivo e propagação das espécies, permitindo o intercâmbio de conhecimentos e que estes agricultores e técnicos observem o efeito das práticas e o comportamento das plantas em condições reais de produção.

Para Guilherme Reis Ranieri, autor do livro “Matos de Comer”, responsável pela apresentação dos fundamentos teóricos das PANC, o desconhecimento ainda é um dos principais entraves para a ampliação do uso dessas plantas. “Muitas PANC são vistas como mato ou plantas sem valor, quando, na verdade, têm grande potencial nutricional e culinário. O trabalho de divulgação e de formação é essencial para mudar essa percepção”, destacou.

A programação incluiu visitas práticas e técnicas às áreas de cultivo, onde os participantes puderam conhecer diferentes espécies e variedades, seus usos alimentares e as principais formas de propagação. Também foram discutidos arranjos produtivos integrados, como o cultivo consorciado de mandioca em faixas rotativas, apresentado por Marcelo Ribeiro Romano, da Embrapa Mandioca e Fruticultura.

De acordo com Romano, a diversificação é uma estratégia fundamental para sistemas agroecológicos. “O consórcio de culturas e a inclusão de espécies como as PANC aumentam a eficiência do uso da área, melhoram a saúde do solo e ampliam as possibilidades de renda para o agricultor”, explicou.

Sistemas agroflorestais

Outro destaque do evento foram os sistemas agroflorestais (SAFs), apresentados em diferentes abordagens. O SAF Frutas, conduzido por Luiz Octávio Ramos Filho, da Embrapa Meio Ambiente, demonstrou como espécies frutíferas podem ser integradas a sistemas mais biodiversos e resilientes. Já o SAF Medicinal, apresentado por Joel Queiroga, evidenciou o potencial das plantas medicinais associadas às PANC em sistemas produtivos diversificados e como estes sistemas conciliam produção e conservação da socioagrobiodiversidade.

Também foram apresentadas cultivares de mangueiras adaptadas a sistemas de produção agroecológicos e orgânicos, reforçando a importância da escolha de variedades adequadas para esse modelo de manejo.

Ao longo da programação, os participantes puderam degustar os sabores de diferentes cultivares de mangas e diversas PANC evidenciando as possibilidades gastronômicas dessas espécies.

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*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.

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