Oficina transforma frutas de agroflorestas em oportunidade de renda no campo
Capacitação incentiva agricultoras familiares a produzir geleias artesanais com foco em valor agregado, biodiversidade e empreendedorismo

Frutas produzidas em sistemas agroflorestais podem se transformar em uma importante fonte de renda para agricultores familiares. Com esse objetivo, o Assentamento Sepé Tiaraju, em Serrana (SP), recebeu uma oficina que ensinou técnicas de processamento de alimentos para produção de doces e geleias artesanais. Além da receita, a oficina abordou processos de conservação, embalagem e comercialização, com foco na valorização da biodiversidade e no fortalecimento da autonomia econômica das mulheres rurais.
Coordenada por Myrian Ramos e Luiz Octavio Ramos Filho, em parceria com o Mutirão Florestal, a atividade combinou teoria e prática para mostrar que o aproveitamento de frutas, ervas, flores, sementes e especiarias cultivadas nas agroflorestas pode gerar produtos diferenciados, ampliar a renda das famílias e reduzir o desperdício de alimentos.
A proposta foi demonstrar como o equilíbrio entre frutas, açúcar, acidez e pectina natural permite criar produtos de qualidade utilizando ingredientes disponíveis em cada propriedade, respeitando as características de cada espécie.
"O objetivo é mostrar que qualquer comunidade pode desenvolver produtos próprios a partir da biodiversidade que possui. Quando as pessoas entendem como os ingredientes se comportam durante o preparo, elas deixam de depender de receitas prontas e passam a criar geleias com identidade local", explicou Myrian Ramos.
Biodiversidade que vira oportunidade
Durante as atividades práticas, os participantes conheceram diferentes combinações de sabores elaborados com ingredientes produzidos nos sistemas agroflorestais. Além das receitas demonstradas, os organizadores apresentaram sugestões de novas combinações utilizando frutas, ervas aromáticas e Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), estimulando os agricultores a desenvolver produtos exclusivos que expressem a identidade de seus territórios.
Segundo Luiz Octavio Ramos Filho, a diversidade presente nas agroflorestas oferece inúmeras possibilidades para agregar valor à produção agrícola. "Cada agrofloresta possui uma combinação própria de frutas, ervas e especiarias. Essa diversidade permite criar produtos únicos, que valorizam os saberes locais e ampliam as oportunidades de comercialização".
Os participantes acompanharam todas as etapas do processo de fabricação das geleias, desde a seleção das frutas até o envase final. Também receberam orientações sobre higiene, conservação dos alimentos, controle do ponto ideal de cozimento, embalagem, pesagem e rotulagem, aspectos fundamentais para oferecer produtos de qualidade ao consumidor.
Outro tema abordado foi o aproveitamento de frutas que, embora não atendam ao padrão de comercialização para consumo in natura, mantêm excelente qualidade para o processamento. Essa prática reduz perdas pós-colheita e aumenta o retorno econômico da produção.
A oficina também destacou a importância da experimentação. Em vez de seguir receitas fixas, os participantes foram incentivados a observar como cada ingrediente interfere na textura, na acidez, no aroma e no sabor das geleias, registrando os resultados para aperfeiçoar futuras produções.
Fortalecimento da agricultura familiar
A produção artesanal de doces e geleias representa uma alternativa para diversificar a renda da agricultura familiar, especialmente para grupos de mulheres que buscam novas oportunidades de empreendedorismo. Produtos processados possuem maior valor agregado, podem ser comercializados durante todo o ano e contribuem para ampliar o aproveitamento da produção das agroflorestas.
Além do aspecto econômico, a atividade reforça a importância da conservação da sociobiodiversidade, do consumo de alimentos regionais e da valorização dos conhecimentos tradicionais das comunidades rurais.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



