Mulheres do Agro: o legado que une café, queijo e a força feminina em Minas
No Dia Internacional da Mulher, conheça as histórias de Amanda Lacerda e Raquel Faria, produtoras que transformam tradições familiares em negócios de excelência e superação

O cenário do agronegócio brasileiro, historicamente dominado por figuras masculinas, atravessa uma transformação profunda pelas mãos de mulheres que decidiram não apenas herdar o trabalho da terra, mas profissionalizá-lo. Atualmente, as mulheres já comandam cerca de 31% das propriedades rurais do país, administrando uma área que supera os 30 milhões de hectares, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Sebrae.
Em celebração ao 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o Itatiaia Agro conversou com duas produtoras mineiras que são exemplos de como a sensibilidade e a técnica feminina estão elevando o patamar do café e do queijo artesanal — em um estado onde a presença feminina no campo é motor de inovação e economia.
Café: herança, propósito e o futuro da família Onofre
Aos 25 anos, Amanda Evaristo Lacerda carrega no sobrenome e no cotidiano a responsabilidade da terceira geração da família Lacerda, em Espera Feliz, nas Matas de Minas. Neta de Seu Onofre — cafeicultor premiado e lendário na região —, ela não se contentou em apenas observar. Formou-se em Tecnologia em Cafeicultura pelo IFES para aliar o conhecimento técnico ao amor que nasceu na lavoura.

"Eu literalmente cresci no meio do café. Comecei a me envolver na produção ainda adolescente, ajudando no que era possível e aprendendo na prática. Foi um processo natural, porque o café sempre fez parte da minha vida", contou Amanda. Hoje, ela divide com o irmão a gestão da Onofre Cafés Especiais e comanda a cafeteria da marca.
Para ela, ser mulher no campo exige resiliência. "Ainda precisamos provar nossa capacidade com mais frequência, mas isso nos fortalece. Existe muita competência feminina no campo". A percepção de Amanda reflete a realidade do mercado de trabalho no setor: dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontam que as mulheres no agro ainda enfrentam uma disparidade salarial média de 20% a menos em relação aos homens para funções equivalentes, o que torna a busca por posições de liderança e autonomia um ato diário de afirmação.
A continuidade da linhagem já tem data e nome: Amanda está grávida do primeiro filho, que se chamará Onofre, uma homenagem ao avô. "Quero que ele cresça conhecendo essa trajetória e entendendo o valor do trabalho e da terra. Se ele quiser seguir na produção, vou apoiar com muito orgulho", afirmou.

Acumulando prêmios
Com a família multipremiada, Amanda conquistou em novembro a maior pontuação da história do Concurso Rituais 85+ Florada Premiada da Três Corações. Foram 94,33 pontos.
“A gente trabalha muito procurando um café muito especial, mas eu não esperava ficar em primeiro e muito menos com a maior pontuação. Uma felicidade que não cabe no peito” contou a campeã no dia da premiação em novembro.

Queijo: a quebra de barreiras na Serra da Canastra
Em São Roque de Minas, Raquel Costa Faria, de 49 anos, representa a 6ª geração de queijeiros da Fazenda Santiago. Se no passado ela e a irmã ajudavam o avô a espremer a massa do queijo de forma quase lúdica, hoje Raquel é a mente estratégica por trás de um produto premiado mundialmente.

Dona de medalhas de ouro e prata no Mundial do Queijo do Brasil, Raquel reconhece que sua ascensão à liderança foi uma conquista política dentro da própria família.
"Eu venho de uma família que só foi liderada por homem. Não se vê a mulher na liderança de uma queijeira, na venda dos queijos. Tive muita batalha com meu pai para ter mudanças, mas de um jeitinho ou de outro eu consegui", revelou Raquel.

Para ela, a ausência de um irmão homem permitiu que ela assumisse o protagonismo. "Antigamente as famílias davam preferência aos homens. Hoje, as mulheres estão à frente de grandes negócios. Isso é uma grande vitória". Atualmente, mais de 816 mil mulheres atuam como codiretoras de propriedades rurais no Brasil, dividindo as decisões de igual para igual e quebrando o antigo monopólio masculino da sucessão familiar.
O poder da informação
Raquel ressaltou que a tecnologia e a conectividade foram essenciais para que o queijo da Fazenda Santiago saísse do anonimato. "Hoje a gente não precisa sair da fazenda para ter informação. Pela internet, palestras e divulgação, a gente conhece novas pessoas e vai para o mundo de fora".
Essa veia inovadora é uma marca registrada das gestoras: pesquisas do setor indicam que a liderança feminina é um dos principais motores para a digitalização do campo, com forte atuação na implementação de práticas sustentáveis (ESG), modernização comercial e abertura de canais de vendas online. Além disso, cerca de 33% das empresas do agronegócio brasileiro já contam com mulheres em seus quadros societários como sócias ou proprietárias.
Além disso, a produtora destacou que a fazenda integra a Rota do Queijo de Minas, projeto da Culturar, produtora cultural de Jordane Macedo.

O recado para quem quer começar
A trajetória dessas duas produtoras mostra que o agro moderno não aceita mais a exclusão de gênero. Para as mulheres que desejam ingressar ou se aprimorar no setor, Amanda Lacerda deixa um conselho direto:
"Não espere se sentir totalmente pronta. Comece, busque conhecimento e confie em você. O agro também é lugar de mulher".
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



