Feicorte 2026 debate fim da 'produtividade sem lucro' e dita rumos do setor
Evento internacional em SP serve como bússola para o produtor avaliar o primeiro semestre e traçar estratégias de engorda e comercialização para a segunda metade do ano

A necessidade de transformar quilos de carne em margem financeira real dominou os debates do segundo dia da Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne (Feicorte 2026), nesta quarta-feira (24), em Presidente Prudente (SP). Com o tema “O Boi Brasileiro: Um Mundo de Oportunidades”, a feira firmou-se como o ponto de partida para o pecuarista decifrar o mercado atual e blindar seus investimentos contra as incertezas do segundo semestre.
Para o curador do eixo Pecuária da feira, Diede Loureiro, o atual cenário de instabilidade global — desenhado por conflitos geopolíticos, mudanças drásticas nos sistemas produtivos e oscilações climáticas — exige que o produtor deixe o pânico de lado e se apoie em dados.
"Não adianta produzir mais se não houver eficiência econômica e alimentar. O mercado está pedindo produtividade com resultado. Se o produtor fizer o que o mercado quer, o mercado compra dele", cravou Loureiro.
Gestão de risco e as exigências do mercado moderno
A programação técnica do Fórum Feicorte atacou a volatilidade de preços logo na abertura. Gustavo Machado, gestor de Hedge da StoneX, detalhou o funcionamento de ferramentas para travar margens de lucro. Segundo o consultor, definir antecipadamente o preço de venda dos animais no mercado futuro é o caminho mais seguro para mitigar as oscilações do mercado físico e proteger o caixa da fazenda.
A evolução nas exigências de quem compra a carne também ganhou destaque. O pecuarista Luiz Roberto Saalfeld, sócio-proprietário do Frigorífico Coqueiro, alertou que os indicadores tradicionais de porteira para dentro, embora vitais, já não garantem espaço sozinhos no varejo moderno. O consumidor mudou, e a indústria exige rastreabilidade e qualidade extrema.
No campo da sustentabilidade, o especialista em Nutrição Animal, Carlos Alberto Tolentino, levantou o debate sobre o financiamento das práticas ecológicas com a palestra "Quem vai pagar pela sustentabilidade?". Tolentino desmistificou a ideia de que a agenda ESG (ambiental, social e governança) é apenas um gerador de despesas. Para ele, a transição rumo a uma pecuária de baixo carbono deve ser encarada como ferramenta de eficiência, capaz de engordar o lucro da propriedade.
Confinamento industrial e a 'Pecuária de 2030'
O nível de profissionalização exigido para os próximos anos dominou as discussões sobre o manejo intensivo:
- Confinamento como indústria: o engenheiro agrônomo Fernando Nemi Costa (Cost@ Consultoria) defendeu que a engorda intensiva precisa ser gerida como uma linha de montagem industrial, onde cada etapa impacta diretamente o custo da arroba produzida.
- Visão de futuro: Mauro Nonino, diretor da Nonino Implementos, apontou que a "pecuária de 2030" já começou a ser desenhada pelas fazendas que integram conectividade, dados e inovação logística.
- Bezerro de qualidade: o especialista em reprodução Luciano Penteado reforçou que a valorização do animal no mercado começa na escolha da estratégia reprodutiva e na pecuária de precisão.
O reflexo global e o termômetro das pistas
O panorama internacional foi trazido pelo médico-veterinário canadense Luis Burciaga, representante da Telus Agriculture & Consumer Goods. Burciaga traçou um paralelo entre os mercados dos Estados Unidos, México e Canadá, apontando como as flutuações na América do Norte e o avanço de países como China e Mongólia abrem janelas de exportação para a carne brasileira.
Provando que o mercado busca qualidade, a rodada de negócios foi aberta com recorde na noite de terça-feira (23). O 3º Leilão Confraria da Carcaça Nelore espalhou genética de ponta para criadores de 14 estados brasileiros.
Impulsionado pela busca por carcaças com maior rendimento de carne, o remate registrou médias expressivas de R$ 56 mil para as fêmeas e R$ 72 mil para os machos. "Foi o melhor leilão que já realizamos. O mercado entendeu o diferencial do nível dos animais apresentados", celebrou Fabio Almeida Filho, diretor comercial da Confraria.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



