Faesp alerta governo sobre salto nas importações de morango congelado do Egito
Entidade cobra do Mapa e do MDIC medidas de proteção comercial diante da disparada de compras externas a preços abaixo do custo de produção nacional

A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) enviou ofícios aos ministérios da Agricultura e Pecuária (Mapa) e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) alertando para o salto nas importações brasileiras de morango congelado. O avanço da fruta, vinda principalmente do Egito, tem pressionado o mercado interno e ameaça a rentabilidade dos produtores rurais.
Segundo dados do Comex Stat/MDIC citados pela entidade, o Brasil importou cerca de 42 mil toneladas do produto em 2025, sendo 83% de origem egípcia. Entre janeiro e julho de 2026, as compras externas já atingiram 34 mil toneladas, com 93,4% (32 mil toneladas) vindo do Egito, o que representa um crescimento de quase 35% frente ao mesmo período do ano anterior.
O volume total de 2025 correspondeu a aproximadamente 30% de todo o mercado brasileiro. No acumulado até julho de 2026, a fatia importada já alcança 25% da oferta. Com a expectativa de novas entradas até o fim do ano, o produto estrangeiro já ocupa o espaço que tradicionalmente pertence à produção nacional destinada ao processamento industrial.
Preços em queda livre e forte assimetria de custos
Enquanto o volume importado cresce, o valor de entrada no país despenca. O preço médio do quilo foi de US$ 0,83 entre janeiro e julho de 2026, atingindo o piso de US$ 0,75 em julho. Na conversão cambial do período, o produto ingressou no país por cerca de R$ 4,38/kg.
A cotação internacional contrasta com a realidade do campo brasileiro:
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Custo de produção no Brasil: R$ 8,34 a R$ 8,51 por quilo (estimativa Cepea/Esalq para pequenos produtores de MG na safra 2022/23).
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Preço do produto importado: R$ 4,38 por quilo (média em R$, via Comex Stat/MDIC).
Essa diferença faz com que o morango importado chegue ao mercado por valores quase 50% inferiores ao custo de produção nacional, deixando o agricultor em extrema desvantagem.
Efeito dominó no mercado fresco e perecibilidade
O cenário é especialmente preocupante por coincidir com o terceiro trimestre, período que concentra o pico da safra brasileira. Historicamente, a agroindústria absorve os frutos que não atendem ao padrão visual exigido para a venda in natura (fresca), o que ajuda a evitar perdas e sustentar as cotações no campo.
Em polos como Atibaia (SP), o envio para a indústria representa até 25% da colheita. Com as indústrias substituindo a matéria-prima nacional pelo congelado egípcio, esse volume excedente é empurrado para o mercado fresco. Como o morango é altamente perecível e possui baixíssima capacidade de armazenamento, os produtores ficam sem margem de negociação e acabam forçados a aceitar preços abaixo dos seus custos operacionais para não perder a colheita.
Apelo por salvaguarda comercial
As compras são favorecidas pelo Acordo de Livre Comércio Mercosul–Egito, que prevê desgravacão tarifária gradual. O próprio tratado, no entanto, estabelece cláusulas de salvaguarda bilateral que podem ser acionadas quando o aumento das importações causar ou ameaçar causar dano grave à produção doméstica.
Em junho, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) já havia protocolado a Nota Técnica nº 14/2026 alertando o governo federal sobre o problema. Agora, a Faesp reforça os pedidos para que o Governo Federal implemente um monitoramento contínuo sobre os fluxos de importação. A entidade solicita avaliação técnica sobre os prejuízos ao setor e a consolidação de dados para subsidiar, caso preenchidos os requisitos legais, a abertura de processos de defesa comercial na Secretaria de Comércio Exterior (Secex).
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



