Dia da Cachaça: setor bate recorde no Brasil e avança no exterior, mas teme imposto
Com mercado externo aquecido e salto histórico de 21,5% na formalização de engenhos, setor teme que novas regras fiscais travem o avanço nacional

Neste domingo (13), celebra-se o Dia Nacional da Cachaça. A data encontra a cadeia produtiva do destilado brasileiro em um momento de expansão e consolidação internacional, mas também sob a sombra de incertezas fiscais. Em meio ao otimismo pelos recordes de produção formal e pelas novas agendas de exportação, o setor acende um sinal de alerta para os impactos da regulamentação do Imposto Seletivo no mercado interno.
A força da atividade foi ratificada pelos dados do Anuário da Cachaça 2026 (ano-base 2025), publicado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) em parceria com o Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC). O estudo revela um marco histórico: o país registrou o maior crescimento na quantidade de produtores formalizados dos últimos oito anos, atingindo o recorde de 1.538 estabelecimentos cadastrados.
O avanço de 21,5% em apenas 12 meses foi puxado pelo registro de 272 novos empreendimentos. Desde o início da série histórica, em 2018, o salto acumulado é de 61,7%. O mapa da cachaça já alcança 844 municípios brasileiros, uma alta de 14,8% no comparativo anual, tendo Minas Gerais como o principal motor desse crescimento absoluto ao incorporar 63 novos estabelecimentos em 2025.

Minas Gerais lidera produção e concentra polos econômicos
Minas Gerais reafirmou sua liderança absoluta na produção de cachaça no Brasil. Segundo o levantamento do MAPA, o estado encerrou 2025 com 564 estabelecimentos registrados, o que representa 36,7% de todas as indústrias e alambiques formais do país. O território mineiro também foi o motor do crescimento absoluto do setor, adicionando 63 novos estabelecimentos formalizados em 12 meses — o maior incremento entre todas as unidades da federação.
No ranking nacional de estabelecimentos, Minas Gerais é seguida por São Paulo, com 230 produtores (15,0%), e pelo Rio Grande do Sul, com 106 (6,9%). Regionalmente, o Sudeste consolida sua dominância ao abrigar 62,5% de todos os estabelecimentos brasileiros (961 unidades), embora a Região Sul tenha se destacado pela maior taxa de crescimento percentual em 2025 (+51,4%, saltando de 109 para 165 estabelecimentos).
No nível municipal, o tradicional município de Salinas, situado no Norte de Minas e famoso por seus alambiques artesanais, recuperou o posto de cidade com o maior número de estabelecimentos formalizados do Brasil, alcançando 27 empresas registradas e um portfólio de 319 produtos oficiais. O estado de Minas abriga 5 das 11 cidades brasileiras que possuem 10 ou mais estabelecimentos cadastrados no MAPA:
- Salinas: 27 estabelecimentos
- Alto Rio Doce: 11 estabelecimentos
- Rio Espera: 11 estabelecimentos
- Córrego Fundo: 10 estabelecimentos
- Lamim: 10 estabelecimentos
Essa concentração geográfica consolida verdadeiros ecossistemas de turismo sensorial e desenvolvimento regional no estado.
Nova fase de internacionalização
De olho no mercado global, o Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) lançaram a quarta edição do projeto 'Cachaça: Taste the New, Taste Brasil'. Com investimento de R$ 2,63 milhões, a iniciativa visa atender diretamente entre 70 e 80 empresas, englobando rodadas de negócios, capacitações pelo PEIEX Agro Cachaça e ações promocionais. A nova agenda internacional começa em novembro deste ano, no México, e segue em 2027 com eventos já confirmados na Alemanha.
O esforço vem respaldado pelos resultados do comércio exterior. Em 2025, o Brasil exportou 7,96 milhões de litros de cachaça para 76 países, o que representa um avanço de 19,4% em volume.
“Estamos iniciando uma nova etapa de internacionalização. Essas ações são fundamentais para aproximar nossos produtores de compradores internacionais e ampliar o reconhecimento do destilado brasileiro no exterior”, ressaltou Vicente Bastos, presidente do IBRAC.

Alerta para o risco tributário interno
Apesar do ciclo positivo de formalizações e vendas externas, o setor expressa profunda apreensão com a reforma tributária e a regulamentação do Imposto Seletivo no Brasil. Atualmente, considerando as alíquotas nominais do IPI, a cachaça suporta uma carga fiscal cerca de quatro vezes superior à aplicada a outras bebidas alcoólicas. Para a entidade, manter ou ampliar essa assimetria ameaça a sustentabilidade econômica de pequenos e médios produtores, além de estimular o mercado informal.
A bandeira defendida pelo IBRAC é a da isonomia tributária baseada no teor alcoólico do consumo final. "O setor defende que a tributação considere a quantidade de álcool efetivamente consumida, e não apenas a categoria da bebida. Uma lata de cerveja, uma taça de vinho e uma dose de cachaça contêm, em média, aproximadamente 14 gramas de álcool", pontua o executivo. Bastos alerta que a manutenção das distorções atuais pode comprometer empregos e paralisar o movimento de formalização que tanto avançou no país.
Memória histórica
Celebrado pelo setor desde 2009, o Dia Nacional da Cachaça remete ao 13 de setembro de 1661, data que marca a "Revolta da Cachaça": levante de produtores no Rio de Janeiro contra os embargos e impostos abusivos da Coroa portuguesa sobre a fabricação da bebida. A oficialização da data comemorativa tramita no Senado Federal por meio do Projeto de Lei nº 3.771/2023.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



