Saiba como reconhecer sinais de câncer de cabeça e pescoço a tempo de curar
Reconheça caroços, rouquidão e aftas que não cicatrizam; diagnóstico precoce pode elevar a taxa de cura em até 83%

Uma simples consulta de higiene oral mudou a vida do ator português Rui Santos. Um caroço que ele que sentia na língua, mas não causava incômodo, revelou-se um carcinoma, um câncer na língua, que faz parte do grupo de tumores da cabeça e pescoço. O diagnóstico, há três anos, chegou a tempo: detectado precocemente, o tratamento foi cirúrgico, sem necessidade de radioterapia ou quimioterapia.
A experiência de Rui Santos ilustra uma realidade que pode salvar vidas: até 83% dos casos de câncer da cabeça e pescoço são tratáveis com sucesso quando descobertos nos estadios iniciais. O problema é que a maioria dos pacientes só procura ajuda quando o tumor já está avançado. Este guia mostra quais sinais merecem atenção médica imediata, quem está em risco e como a detecção precoce faz toda a diferença na sobrevivência.
O que é o câncer de cabeça e pescoço?
O câncer da cabeça e pescoço refere-se a tumores que afetam o revestimento do nariz, boca e garganta, as glândulas salivares e estruturas próximas no pescoço. Não tem qualquer relação com tumores cerebrais, esclarece Cláudia Vieira, médica oncologista no Instituto Português de Oncologia do Porto e presidente do Grupo de Estudos de Câncer da Cabeça e Pescoço.
Este é o sétimo tipo de câncer mais comum na Europa. Em Portugal, são diagnosticados entre 2500 e 3000 novos casos todos os anos. No Brasil, são cerca de 41 mil novos casos por ano, sendo o terceiro tipo mais incidente entre os homens no país. Os dados brasileiros são da Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas (APCD).
A doença afeta estruturas fundamentais para funções como fala, respiração, deglutição e alimentação, o que torna o diagnóstico precoce ainda mais crítico.
Sinais de alerta que nunca devem ser ignorados
Muitos sintomas do cancro da cabeça e pescoço são confundidos com situações comuns ou desvalorizados. A regra de ouro é simples: qualquer sintoma que persista por mais de três semanas deve motivar uma consulta médica ou de medicina dentária.
Os sinais incluem caroços no pescoço, obstrução nasal persistente, sangramentos do nariz, dor de garganta que não passa, manchas vermelhas ou brancas na boca que não desaparecem com a higiene, aftas que não cicatrizam facilmente e rouquidão prolongada.
O ator Rui Santos aconselha desconfiar de qualquer afta ou caroço anormal na boca que não desapareça ao fim de três semanas. "Quaisquer situações dessas devem ser sempre avaliadas por um médico especialista", recomenda.
Diagnóstico precoce muda tudo
A diferença entre detectar o câncer nos estadios iniciais e nos avançados é dramática. O diagnóstico precoce, nos estágios I e II, pode levar a taxas de cura de quase 80% apenas com cirurgia, segundo Cláudia Vieira.
A sobrevivência em cinco anos pode atingir 83% no estágio I. No estágio IV, esse número despenca para 28%. O problema é que 60% dos pacientes são diagnosticados com tumores localmente avançados, nos estágios III e IV. Nesses casos, mesmo com tratamento curativo, metade reincide e os doentes acabam por morrer em poucos meses.
Como o ator Rui Santos alerta, "o câncer da cabeça e pescoço, se não for detectado de forma precoce, evolui muito rapidamente, o que faz com que tenha um elevado risco de mortalidade".
Quem está em maior risco?
Os principais factores de risco são o tabaco e o álcool. "O tabaco é um potente agente cancerígeno que afecta múltiplos órgãos, e a sua combinação com álcool potencia significativamente o risco especialmente de tumores da cabeça, pescoço e esófago", explica Cláudia Vieira.
O vírus HPV representa outro factor de risco importante. Mais conhecido pela ligação ao câncer do colo do útero, o HPV aumenta também o risco de cancer da orofaringe, especialmente em pessoas que praticam sexo oral com mais de dez parceiros ao longo da vida. Na Europa, estima-se que a incidência de tumores de orofaringe devido ao HPV esteja entre 15 e 30%.
Um grupo em crescimento são os octogenários com próteses dentárias, "dentaduras", mal aplicadas. Próteses mal feitas ou desajustadas provocam pequenas aftas crónicas, e o sistema imunitário torna-se menos eficaz com a idade na identificação de células anormais.
Prevenção que funciona
Deixar de fumar e moderar o consumo de álcool são as medidas preventivas mais eficazes. Rui Santos fumava desde os 15 anos e parou assim que soube do diagnóstico. Além disso, mudou outros hábitos: "Evito comida processada e o açúcar".
A vacinação contra o HPV, disponível para jovens de ambos os sexos, também é crucial para prevenção. A vacinação ajuda a criar imunidade cruzada e a reduzir a circulação de novas estirpes, mas não dispensa o uso do preservativo.
Consultas dentárias regulares, a cada seis meses, são fundamentais. A oncologista Cláudia Vieira recomenda também consultas anuais de otorrinolaringologia para grupos de risco, além do auto-exame regular da boca e pescoço.
Opções de tratamento conforme o estágio
A cirurgia, radioterapia e quimioterapia são os tratamentos mais utilizados, mas tudo depende do estágio e do subtipo de câncer encontrado. Nos estágios I e II, a taxa de cura com cirurgia ronda os 80%, podendo ser complementada com radioterapia. No estágio III, junta-se à cirurgia a radioterapia e quimioterapia, ou podem ser feitas apenas as duas últimas, dependendo do estado da lesão. No estágio IV, as hipóteses de cura são baixas. Recorre-se também à imunoterapia e drogas de investigação. A sobrevivência média com quimioterapia e imunoterapia é de 14 meses, mas há quem viva dois, três ou quatro anos. Também há um grupo muito grande que morre em menos de seis meses.
Sequelas e qualidade de vida após o tratamento
Rui Santos passou uma semana com sonda nasogástrica para alimentação durante a recuperação e teve alguns problemas de dicção. Com treino vocal, superou as dificuldades. "Acordava de manhã e sentia a língua presa, mas passei a fazer exercícios vocais, que ainda hoje faço", relata.
Muitos doentes ficam com sequelas como deformidade estética, dificuldades na fala, deglutição, mastigação e respiração. O impacto na qualidade de vida pode ser significativo, reforçando a importância do diagnóstico precoce para evitar tratamentos mais agressivos.



