Psicólogo alerta para danos das redes sociais na saúde mental de crianças e adolescentes

Autor de ‘A Geração Ansiosa’, Jonathan Haidt aponta evidências de depressão, ansiedade e riscos digitais e defende regras mais duras para proteger menores

A preocupação com o impacto das redes sociais sobre crianças e adolescentes ganhou força após o lançamento do livro “A Geração Ansiosa’’, do psicólogo social norte-americano Jonathan Haidt. A obra propõe um debate urgente sobre os efeitos do ambiente digital na saúde mental dos jovens.

Segundo Haidt, o problema vai além de uma simples associação estatística. Em entrevistas recentes, ele afirma que há evidências sólidas de que o uso intenso de redes sociais causa danos reais e mensuráveis. Para o pesquisador, não se trata apenas de correlação entre tempo de tela e sofrimento emocional, mas de uma relação direta de causa e efeito.

O autor cita pesquisas próprias, relatos de pais, professores e alunos, além de estudos internos de grandes empresas de tecnologia. Entre os dados mais alarmantes estão informações divulgadas por ex-funcionários do setor, que mostram altos índices de assédio sexual contra menores nas plataformas digitais. De acordo com essas análises, cerca de 15 por cento das crianças sofrem algum tipo de assédio desse tipo a cada semana.

Outro risco destacado é a chamada “sextorsão”, quando jovens são chantageados com imagens íntimas. Haidt explica que esse tipo de crime só acontece porque os adolescentes estão nas redes. As consequências, segundo ele, incluem vergonha profunda e danos psicológicos graves.

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Além da depressão e da ansiedade, o psicólogo alerta para a exposição precoce a conteúdos violentos, pornografia extrema, jogos de azar, incentivo ao uso de substâncias e até investimentos financeiros apresentados de forma lúdica. Para ele, o problema não está em um único fator, mas em todo o ecossistema digital, desenhado para capturar a atenção dos mais novos.

Haidt reconhece que é difícil provar o impacto histórico das redes sociais em toda uma geração, mas afirma estar praticamente certo de que milhões de crianças estão sendo prejudicadas. Ele menciona pelo menos sete linhas independentes de evidência que apontam na mesma direção, incluindo experimentos que mostram melhora nos níveis de depressão após uma semana longe das redes.

Na análise do pesquisador, a responsabilidade principal não é das famílias nem das escolas, mas das empresas de tecnologia. Ele descreve a situação como uma armadilha coletiva, em que todos se sentem obrigados a permitir o uso das plataformas porque os outros também permitem. Nesse cenário, diz ele, o problema está no sistema, não nos indivíduos.

Como soluções, Haidt defende medidas claras e objetivas. Entre elas estão adiar o uso de smartphones até o início do ensino médio, proibir redes sociais para menores de 16 anos, manter escolas livres de celulares e estimular uma infância com mais autonomia e brincadeiras no mundo real.

Essas ideias já começam a ganhar espaço em diferentes países. O psicólogo relata que líderes políticos, como o presidente da França, demonstraram apoio às propostas após conhecerem os dados. Na Austrália, uma lei que proíbe redes sociais para menores de 16 anos levou à suspensão de mais de 550 mil contas de adolescentes, transformando o país em um teste global dessas políticas.

Para Haidt, se a redução do uso infantil das redes se mantiver, os benefícios aparecerão a longo prazo, com melhora gradual nos indicadores de saúde mental. Ele ressalta, porém, que os resultados mais amplos só serão visíveis após alguns anos.

O autor faz questão de diferenciar a internet em geral das redes sociais. Enquanto a web pode ampliar horizontes e oferecer apoio a jovens em situações de isolamento, as plataformas baseadas em algoritmos, segundo ele, priorizam conteúdos extremos e prejudiciais.

Haidt também alerta para novos desafios, como a popularização de companheiros virtuais baseados em inteligência artificial. Para ele, enfrentar agora os problemas das redes sociais é um teste decisivo da capacidade da sociedade de proteger crianças e adolescentes no mundo digital.

Na visão do psicólogo, os governos começam a despertar para essa responsabilidade. E, para ele, esse movimento é essencial para garantir um futuro mais saudável para as próximas gerações.

Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.

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