Psicologia explica por que as crianças das décadas de 60 e 70 se tornaram fortes emocionalmente
Segundo especialistas, esse tipo de infância desapareceu e foi substituída por um mundo onde pais rastreiam os filhos

Crescer nas décadas de 1960 e 1970 significava viver uma infância muito diferente da atual. Sem smartphones, redes sociais ou monitoramento constante, crianças e adolescentes tinham mais autonomia e uma relação direta com o mundo ao redor. Segundo especialistas em psicologia, essa experiência contribuiu para o desenvolvimento de habilidades como resiliência, criatividade e capacidade de adaptação na vida adulta.
Naquele período, era comum que crianças fossem sozinhas à escola, resolvessem conflitos sem a intervenção de adultos e passassem boa parte do dia longe da supervisão dos pais. A principal recomendação era simples: voltar para casa antes do jantar. Hoje, esse modelo de infância foi substituído por uma realidade marcada pela vigilância constante, em que pais conseguem acompanhar os filhos em tempo real por aplicativos de localização.
Uma ampla meta-análise publicada na revista *Development and Psychopathology* reforçou preocupações sobre os efeitos desse controle excessivo. O estudo concluiu que a superproteção parental está associada a níveis mais elevados de ansiedade, depressão e outros sintomas emocionais em adolescentes e jovens adultos.
A pesquisa foi conduzida por Qi Zhang, da Universidade de Wisconsin-Madison, e Wongeun Ji, da Universidade Global de Handong. Os pesquisadores analisaram 52 estudos independentes, envolvendo dezenas de milhares de participantes, com idade média de cerca de 20 anos. Os resultados mostraram uma relação consistente, ainda que moderada, entre o excesso de controle dos pais e prejuízos à saúde mental.
Os dados se repetiram em diferentes contextos culturais e econômicos. Estudos realizados nos Estados Unidos, Europa, Ásia e América do Sul apontaram para a mesma direção: filhos de pais excessivamente controladores apresentaram maior propensão a sintomas de ansiedade e depressão. Em um campo frequentemente marcado por resultados divergentes, a uniformidade observada em mais de 50 pesquisas foi considerada significativa.
Superproteção parental
Segundo os especialistas, a superproteção não significa apenas cuidado ou atenção. O comportamento envolve intervenções constantes na vida dos filhos, como resolver conflitos sociais, interferir em questões escolares ou tentar evitar qualquer experiência de frustração. Com isso, a criança recebe repetidamente a mensagem de que não é capaz de lidar sozinha com dificuldades cotidianas.
Nas décadas passadas, situações como voltar sozinho para casa, preparar uma refeição simples ou enfrentar derrotas em jogos faziam parte do cotidiano infantil. Não havia recompensas pela simples participação nem tentativas permanentes de evitar erros ou frustrações. Psicólogos apontam que essas experiências ajudavam no desenvolvimento da tolerância ao fracasso e da autonomia emocional.
Outra revisão sistemática, publicada em 2022 na revista *Frontiers in Psychology*, chegou a conclusões semelhantes. Liderado por Stine L. Vigdal, da Universidade de Ciências Aplicadas da Noruega Ocidental, o estudo analisou 38 pesquisas sobre superproteção parental. A maioria encontrou relação entre controle excessivo e sintomas de ansiedade ou depressão.
Os autores, porém, destacaram uma limitação importante: grande parte dos estudos analisava apenas um momento específico da vida dos participantes. Isso significa que a relação pode funcionar em duas direções. Crianças mais ansiosas podem levar os pais a adotarem comportamentos mais protetores, enquanto o excesso de controle também pode intensificar a ansiedade, criando um ciclo contínuo.
Entre os estudos considerados mais robustos está uma pesquisa conduzida por Rogers e colaboradores em 2020. O trabalho acompanhou 500 adolescentes dos 12 aos 19 anos e identificou que aqueles submetidos a níveis elevados e constantes de controle parental apresentaram índices significativamente maiores de ansiedade e depressão ao longo do tempo.
Especialistas afirmam que o principal mecanismo afetado pela superproteção é a autorregulação emocional, a capacidade de administrar emoções e comportamentos sem depender da intervenção de terceiros. Essa habilidade é desenvolvida justamente por meio da vivência de frustrações, conflitos e situações desconfortáveis.
Marc Brackett, diretor do Centro de Inteligência Emocional da Universidade Yale, define a regulação emocional como um conjunto de competências aprendidas para lidar de forma saudável com as emoções. Segundo ele, quando os adultos intervêm antes que a criança enfrente completamente uma dificuldade, parte importante do aprendizado emocional deixa de acontecer.
A teoria da autodeterminação, frequentemente citada nas pesquisas sobre o tema, aponta três necessidades psicológicas fundamentais: autonomia, competência e vínculo social. Para os pesquisadores, a superproteção pode comprometer especialmente as duas primeiras, ao transmitir à criança a ideia de que ela não consegue tomar decisões ou resolver problemas por conta própria.
Apesar disso, os especialistas ressaltam que a influência da superproteção parental não atua de forma isolada. A meta-análise concluiu que o controle excessivo é um fator de risco modificável, ou seja, pode ser ajustado por pais e profissionais de saúde. Embora os efeitos identificados sejam considerados modestos, a redução de comportamentos supercontroladores pode contribuir para melhorar o bem-estar emocional dos filhos quando combinada a outros fatores positivos.
Pesquisadores da área de saúde pública reconhecem que ainda existem divergências científicas sobre os impactos da autonomia infantil e da mobilidade independente. Mesmo assim, afirmam que as evidências acumuladas apontam para uma conclusão importante: a resiliência é construída gradualmente, em pequenas experiências cotidianas que permitem à criança enfrentar desconfortos, erros e frustrações até perceber que é capaz de lidar com eles sozinha.
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