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O que significa o provérbio árabe: ‘aconselhe os ignorantes e eles o verão como inimigo’

A frase faz uma reflexão sobre orgulho, críticas e a dificuldade que algumas pessoas têm de ouvir aquilo que não querem admitir sobre si mesmas

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Duas pessoas conversando
Imagem ilustrativa • Magnific

A tradição oral árabe preserva centenas de provérbios que resumem, em uma única frase, observações sobre o comportamento humano que nenhuma teoria moderna conseguiu refutar completamente. Muitos deles falam de amizade, honra ou silêncio, mas poucos são tão diretos quanto este provérbio árabe sobre conselho e ignorância: “Aconselhe os ignorantes e eles o verão como inimigo”.

Sua linguagem é quase brutal em comparação com o que é típico desse tipo de sabedoria popular, que geralmente se inclina mais para a metáfora do que para advertências diretas. E talvez seja por isso que sobreviveu por tanto tempo, justamente porque descreve algo que quase todos já experimentaram em primeira mão, sem precisar de tradução.

O verdadeiro peso deste provérbio árabe

O provérbio "Aconselhe os ignorantes e eles o verão como inimigo" não se refere à ignorância como falta de instrução, mas sim como incapacidade de reconhecer os próprios erros. Ele alerta para algo muito específico, isto é, aqueles que não têm a humildade e a força interior para lidar com críticas tendem a interpretá-las como um ataque pessoal, independentemente de sua origem.

Esses tipos de máximas fazem parte da hikma (sabedoria) da tradição árabe, um conjunto de dizeres transmitidos através das gerações sem um único autor a quem a frase possa ser atribuída. Seu poder reside não em quem as disse primeiro, mas no fato de continuarem a ser repetidas porque permanecem verdadeiras.

Ao contrário de outros provérbios mais otimistas sobre a natureza humana, este não oferece uma saída fácil nem uma moral reconfortante. Ele simplesmente descreve um mecanismo quase mecânico, sendo este: conselho mais ignorância é igual rejeição. E deixa para o ouvinte decidir o que fazer com essa informação.

Por que até mesmo os conselhos mais sinceros às vezes são recebidos como um ataque?

A psicologia moderna explica com dados o que esse provérbio já havia intuído séculos atrás. Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger, da Universidade Cornell, publicaram um estudo no Journal of Personality and Social Psychology que descreveu o que hoje é conhecido como efeito Dunning-Kruger.

A principal conclusão foi que pessoas com menos competência em determinada área tendem a superestimar o próprio conhecimento, justamente por não conseguirem reconhecer suas próprias limitações. Não se trata apenas de desconhecimento; trata-se também de incapacidade de mensurar o quanto ainda precisam aprender.

Esse mecanismo explica muito bem a reação descrita pelo provérbio. Quem recebe um conselho sem ter o conhecimento necessário para entendê-lo não só o rejeita, como muitas vezes o sente ofendido, pois sua própria autoconfiança é posta em xeque sem que perceba.

Vale a pena dar conselhos a alguém que não quer ouvir?

Aí reside o verdadeiro dilema apresentado por essa sabedoria árabe. Cada um deve avaliar, por si mesmo, se essa verdade encontrará terreno fértil ou se retornará como ressentimento.

Dito isso, dar repetidamente conselhos que foram rejeitados raramente muda a opinião de alguém. Na maioria das vezes, isso apenas desgasta a relação entre quem dá e quem recebe o conselho.

Isso acontece no trabalho, quando alguém fica apontando o mesmo erro para um colega que se torna cada vez mais defensivo . Também acontece em família, onde repetir conselhos por anos só faz com que a outra pessoa pare de ouvir antes mesmo da frase terminar.

O provérbio não pede silêncio nem resignação. Pede algo mais difícil, que é saber ler se a outra pessoa está em condições de ouvir, antes de desperdiçar palavras que provavelmente não serão ouvidas.

O que essa sabedoria árabe nos ensina sobre a escolha das palavras certas e o momento certo?

A lição fundamental tem menos a ver com a ignorância alheia e mais com a própria paciência. Dar bons conselhos exige, antes de mais nada, observação. É preciso verificar se realmente há espaço para mudança antes de tentar impô-la com palavras gentis.

Algumas pessoas preferem evitar essa análise e dizer o que pensam sem considerar as consequências, usando a sinceridade como desculpa. O provérbio nos lembra que a sinceridade sem discernimento raramente constrói algo, e que o silêncio, em certos momentos, fala mais alto do que qualquer conselho bem-intencionado.

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Jornalista formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atuou na Rádio UFMG Educativa e em empresas de marketing, com experiência em produção de conteúdo, SEO e redação Atualmente, escreve, em colaboração com a Itatiaia, nas editorias de entretenimento e variedades.

 

 

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