'Macbeth’ de Pedro Penim evoca a história do D. Maria e põe a rainha em cena
Descubra como Pedro Penim traduziu Macbeth mantendo o decassílabo e a acessibilidade ao público contemporâneo; saiba mais sobre o processo.

Era 2 de dezembro de 1964 quando um incêndio destruiu quase completamente o Teatro Nacional D. Maria II. Na época, Macbeth estava em cena. A peça de William Shakespeare ficou marcada como tabu e nunca mais foi produzida pela casa — apenas acolhida em versões de terceiros.
Sessenta anos depois, o encenador Pedro Penim escolheu justamente essa tragédia para celebrar a reabertura do edifício, agora modernizado. Mais que uma provocação ao destino, a decisão revela como o processo criativo contemporâneo ressignifica clássicos: traduzindo mantendo estruturas formais complexas, incluindo personagens historicamente cortadas e fazendo o próprio teatro virar personagem da encenação.
Por que reabrir com a peça que fechou o teatro
Pedro Penim considera a escolha de Macbeth uma provocação consciente. O encenador ressalta que a peça nunca voltou a ser produzida pelo Teatro Nacional D. Maria II desde o incêndio, tornando-se uma espécie de tabu institucional.
A decisão de romper esse bloqueio liga-se às celebrações dos 180 anos do edifício e à ideia de enfrentar a própria história. Penim articula simbolicamente o passado trágico do espaço com a tragédia shakespeariana.
O fogo — elemento que destruiu o teatro em 1964 — irrompe controladamente no palco em vários momentos desta montagem, fechando o círculo entre memória e ficção.
Como traduzir Shakespeare mantendo o verso acessível
Diante da impossibilidade de adquirir os direitos da tradução do poeta brasileiro Manuel Bandeira, Pedro Penim assumiu a tarefa de traduzir o texto integral. Seu objetivo era claro: preservar o decassílabo usado por Shakespeare, mas aproximar o português do espectador contemporâneo.
O encenador buscou palavras que não fossem inacessíveis ao público médio de 2026, sem sacrificar a complexidade poética. Ele reconhece que em Shakespeare nada é corrente e que a sofisticação deve ser respeitada.
A tradução exigiu trabalho minucioso, especialmente nos versos da personagem Hécate, que possuem linguagem altamente elaborada. Para o encenador, a beleza e o esforço investido justificaram a inclusão integral de falas frequentemente cortadas em outras montagens.
A rainha das bruxas como rainha do teatro
Pedro Penim incluiu na encenação a personagem de Hécate, a rainha das bruxas. Essa figura não está na versão original escrita por Shakespeare e teria sido acrescentada posteriormente por Thomas Middleton, dramaturgo contemporâneo do autor.
Muitas produções cortam as cenas de Hécate. Penim não apenas as manteve como propôs uma reinterpretação dramatúrgica ousada: a personificação de Hécate como a própria D. Maria II, que dá nome ao teatro.
Segundo o encenador, essa escolha cria uma relação entre a bruxaria cênica — o fazer teatral em si — e a figura histórica da rainha. A ideia era que essa conexão tivesse graça e sentido dentro da celebração do espaço.
Cenografia que espelha a fachada e convoca o fogo
A cenografia de Joana Sousa reproduz a própria fachada do Teatro Nacional D. Maria II. Colunas e o frontão triangular característico do edifício compõem o cenário onde grande parte da ação se desenrola.
O fogo — controlado, como o encenador faz questão de sublinhar — surge no palco em diversos momentos. Esse elemento visual conecta diretamente a montagem ao incêndio de 1964 que destruiu o teatro.
A estratégia transforma o espaço físico em personagem ativo da narrativa. O público assiste a Macbeth e, simultaneamente, à história do próprio lugar onde está sentado.
Tecnologia renovada e o palco como Rolls-Royce
Pedro Penim decidiu demonstrar todas as possibilidades técnicas do Teatro Nacional D. Maria II após os melhoramentos financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência. O encenador queria que o público percebesse o som altamente melhorado e a maquinaria de cena agora disponível.
Durante muito tempo, recursos como o palco rotativo não estavam acessíveis. Desde os anos 1990, não era possível usar o palco nessa dimensão de complexidade.
Para Penim, o teatro dispõe agora de um Rolls-Royce em mãos, com tecnologia absolutamente brilhante que permite realizar ambições cênicas antes inviáveis.
Como os atores trabalham o verso shakespeariano
José Raposo, que interpreta Macbeth, considera tudo na peça desafiante. Ele destaca que fala que se desunha, mas reconhece que a estrutura construída pelo encenador organiza bem o trabalho.
Bárbara Branco, que interpreta Lady Macbeth, ressalta que o texto shakespeariano é poesia com rococós maravilhosos. Cabe aos atores tornar claro através das inflexões aquilo que está sendo dito, uma vez que a linguagem é complexa.
Penim exigiu que os atores respeitassem as respirações do verso. Branco revela que a cada ensaio descobrem formas diferentes de olhar para o mesmo verso ou palavra, em processo que nunca se esgota.
A diferença de idade como escolha dramatúrgica
José Raposo e Bárbara Branco formam uma dupla com distância geracional visível. O encenador Pedro Penim afirmou desde o início que essa diferença fazia sentido para ele.
Branco, sendo mais jovem, traz uma qualidade mais fogosa e uma atitude que corresponde à inconsequência de juventude que serve à personagem de Lady Macbeth. Essa escolha não é acidental, mas parte da construção dramatúrgica.
A configuração contrasta com interpretações tradicionais e adiciona camada de leitura à dinâmica do casal protagonista.
O mal que se exibe sem pudor na sociedade contemporânea
Pedro Penim identifica duas dimensões relevantes no drama shakespeariano para o público atual. A primeira é a ideia de como o mal se exibe e se pavoneia na sociedade contemporânea.
Segundo o encenador, ao ligar a televisão, ao olhar para o telemóvel ou nas conversas cotidianas, o mal deixou de ter pudor em se mostrar. Ele está presente de forma explícita na vida das pessoas.
Os Macbeth — considerados dois dos vilões mais icónicos da dramaturgia mundial — traduzem bem essa relação shakespeariana com a ideia de que o mal também pode seduzir o público.
José Raposo como vilão-mor e a sedução do espectador
O encenador admite que a participação de José Raposo pode encantar parte do público. Raposo é provavelmente um dos atores mais amados de Portugal.
Colocá-lo para interpretar o vilão-mor da dramaturgia mundial tem intuito específico: perceber como o público pode se deixar seduzir pela personagem. Essa sedução muitas vezes acontece sem que as pessoas percebam o que está ocorrendo.
A estratégia explora a relação entre carisma do ator e monstruosidade da personagem, testando os limites da identificação do espectador com o mal.
Suspensão ficcional e interpretação aberta ao público
Pedro Penim optou por não vincar em demasia uma interpretação fechada da peça. Ele quis deixar Macbeth respirar e permitir que a suspensão ficcional funcione como cada espectador entender.
A encenação, a tradução e a cenografia lembram constantemente que o público está diante de um objeto teatral. Esse distanciamento metadramático é proposital.
O encenador confia que as camadas de significado estão presentes e que cabe ao público ativar as conexões que fizerem sentido para sua experiência individual.
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