Gratidão pode aumentar satisfação com a vida e reduzir a inveja, diz estudo internacional
Pesquisa com mais de 10 mil pessoas em 34 países testou diferentes formas de estimular a gratidão e encontrou efeitos positivos no humor, no otimismo e na satisfação com a vida

Praticar a gratidão pode ajudar as pessoas a enxergar a própria vida de maneira mais positiva e, ao mesmo tempo, diminuir sentimentos de inveja. Essa é uma das conclusões de um dos maiores estudos internacionais já realizados sobre o tema, publicado em 2026 na revista científica 'Proceedings of the National Academy of Sciences' (PNAS).
A pesquisa reuniu 10.696 participantes de 34 países e procurou entender se diferentes formas de praticar a gratidão realmente produzem mudanças no bem-estar. O estudo teve uma característica importante: em vez de analisar apenas se pessoas naturalmente mais gratas são mais felizes, os pesquisadores testaram intervenções específicas para provocar esse sentimento e compararam os resultados com grupos de controle.
Seis maneiras de estimular a gratidão
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente entre nove condições. Seis delas envolviam diferentes práticas de gratidão, enquanto outras três serviram como tarefas de controle.
Entre as atividades estavam escrever uma lista de coisas ou situações pelas quais a pessoa era grata, escrever uma carta para alguém a quem agradecia e enviar uma mensagem de agradecimento para essa pessoa.
Também foram testadas uma reflexão inspirada na meditação Naikan e uma atividade que levava os participantes a imaginar como suas vidas seriam diferentes caso não tivessem algo pelo qual são gratos.
A ideia foi justamente verificar se diferentes maneiras de expressar ou pensar sobre a gratidão produziam resultados semelhantes ou se algumas funcionavam melhor do que outras.
O que mudou entre os participantes
De modo geral, as práticas de gratidão produziram melhora imediata em vários indicadores avaliados pelos pesquisadores.
O efeito mais evidente apareceu nas emoções positivas. A pesquisa também identificou redução de emoções negativas, aumento do otimismo e melhora, ainda que pequena, na satisfação com a vida.
Outro resultado chamou atenção: os participantes apresentaram redução nos níveis de inveja. No estudo, o efeito observado para a inveja foi negativo, indicando que estimular a gratidão esteve associado a uma diminuição desse sentimento em comparação com as tarefas de controle.
Os pesquisadores também observaram aumento de sentimentos relacionados à reciprocidade e à percepção de que se deve algo a outras pessoas. Isso é relevante porque a gratidão não aparece apenas como uma experiência individual, mas também como uma emoção ligada aos relacionamentos sociais.
Por que a gratidão pode diminuir a inveja?
Uma possível explicação está na forma como a gratidão muda o foco da atenção. Em vez de concentrar a percepção naquilo que outra pessoa possui ou conquistou, a prática direciona o olhar para aquilo que o próprio indivíduo recebeu, possui ou valoriza.
Estudos anteriores já haviam encontrado uma relação entre gratidão e inveja. Uma pesquisa publicada na revista Frontiers in Psychiatry, por exemplo, acompanhou 426 estudantes universitários chineses e encontrou uma associação entre maior gratidão e menor inveja maliciosa. O trabalho também apontou que o apoio social ajudava a explicar parte dessa relação.
Outra pesquisa, publicada no Journal of Happiness Studies, analisou 991 estudantes universitários chineses e encontrou uma relação entre gratidão, atenção plena, diferentes formas de inveja e satisfação com a vida. Os resultados indicaram que esses fatores podem atuar conjuntamente na associação entre gratidão e avaliação positiva da própria vida.
Isso ajuda a explicar por que a gratidão pode ter efeitos que vão além de simplesmente provocar uma sensação agradável momentânea.
Resultado não foi igual em todos os países
Apesar dos resultados gerais positivos, o mega estudo mostrou que a gratidão não produz exatamente o mesmo efeito em todos os lugares.
Os pesquisadores encontraram diferenças importantes entre os 34 países analisados e também entre os diferentes tipos de intervenção. Segundo os dados, a variação entre países foi maior do que a variação observada entre algumas das práticas utilizadas.
Uma análise divulgada pela Agência Fapesp destacou justamente essa diferença cultural. Os resultados foram mais fortes em alguns países, enquanto em outros os efeitos foram pequenos. A reportagem também aponta que características culturais, como religiosidade, rigidez cultural e aceitação da hierarquia social, ajudaram a explicar parte dessas diferenças.
No Brasil, os efeitos ficaram em uma faixa intermediária, de acordo com a análise divulgada pela Fapesp.
Esse resultado é importante porque mostra que não existe necessariamente uma única técnica de gratidão que funcione da mesma maneira para todas as pessoas. A cultura e a forma como cada sociedade encara os relacionamentos e as emoções podem influenciar a resposta às práticas.
Lista de gratidão não foi necessariamente a melhor estratégia
Um dos pontos mais interessantes do estudo é que a prática mais conhecida, fazer uma lista de coisas pelas quais se é grato, não apresentou necessariamente os melhores resultados.
Entre as intervenções testadas, enviar uma mensagem de agradecimento a alguém se destacou como uma das estratégias mais eficazes. A diferença sugere que a dimensão social da gratidão pode ser especialmente importante.
Em outras palavras, agradecer mentalmente por algo e comunicar esse agradecimento a outra pessoa não são necessariamente experiências equivalentes. O ato de estabelecer ou fortalecer uma conexão social pode acrescentar um componente importante à prática.
A gratidão não resolve tudo
Os pesquisadores fazem uma ressalva importante: embora os resultados apontem benefícios, os efeitos encontrados foram, em geral, pequenos para alguns dos indicadores.
Uma revisão sistemática publicada anteriormente, que reuniu 44 estudos e 16.529 participantes, também encontrou uma associação consistente entre gratidão e satisfação com a vida. Porém, os autores ressaltaram que ainda existem dúvidas sobre quanto dessa relação é realmente causado pela gratidão e quais mecanismos explicam o efeito.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



