Aos 96 anos, catequista revela o método de leitura bíblica que transforma vidas
Descubra o método CEBI de três passos para ler a Bíblia a partir da realidade. Conecte as Escrituras com a vida concreta e transforme comunidades. Saiba como.

A voz chega firme pelos áudios do celular. Ayda Candida Mascarenhas Horta tem 96 anos e uma história que atravessa o Concílio Vaticano II, a ditadura militar brasileira e décadas de trabalho pastoral. Nascida em Itajaí, passou a vida acompanhando o marido topógrafo pelo Brasil. A cada nova cidade, o primeiro gesto era procurar a paróquia mais próxima.
Na década de 1980, em Rancharia, interior paulista, Ayda conheceu o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI) e descobriu um jeito diferente de ler a Bíblia. Um método de três passos concretos que coloca a realidade do leitor em diálogo direto com as Escrituras. Segundo ela, a Bíblia não é apenas uma biblioteca de livros antigos, mas um caminho a ser seguido, que exige compreensão profunda, não leitura literal.
O que o Concílio Vaticano II mudou na compreensão da fé
O Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, marcou profundamente a forma como Ayda compreendia sua fé. Moradora da Gávea, no Rio de Janeiro, ela atuava na Paróquia Nossa Senhora da Conceição e participou de cursos de formação no Palácio São Joaquim.
Segundo Ayda, o Concílio foi uma luz que acendeu. Ela passou a entender aspectos da fé que antes aceitava sem questionar. A formação transformou não apenas sua compreensão teológica, mas também sua atuação pastoral.
"Através do Vaticano II, dos cursos que eu fiz, eu cresci muito na fé e tive muito mais facilidade de trabalhar, porque entendia melhor aquilo que estava vendo, que estava lendo, que estava vivendo", afirma.
Esse processo de compreensão profunda se tornaria a base para o trabalho que desenvolveria décadas depois com a leitura popular da Bíblia.
Catequese sob vigilância durante a ditadura militar
Entre 1968 e 1969, Ayda mantinha trabalho de catequese de adultos e formação bíblica em São Paulo. Era vizinha do convento dos dominicanos, época de Frei Betto e Frei Chico. A proximidade permitiu acompanhar de perto o sofrimento e a luta de cada religioso.
A ditadura militar instalada no Brasil trouxe uma era muito difícil. Ayda e outras catequistas eram vigiadas constantemente. O medo fazia parte do cotidiano.
"Éramos muito perseguidas, muito vigiadas. Foi uma época de muito temor, de muita dificuldade. A gente tinha medo até de andar nas ruas, mas continuava o nosso trabalho", relata.
As atividades continuavam através de estratégias cuidadosas. Eram duas reuniões semanais: uma de formação bíblica e outra de preparação dos encontros. Para despistar a vigilância, as participantes saíam uma a uma e não levavam material nas mãos.
O encontro com o CEBI e um novo jeito de ler a Bíblia
Na década de 1980, em Rancharia, Ayda conheceu o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos. O encontro representou um novo degrau em sua caminhada de formação bíblica.
Durante quatro anos, ela participou de uma formação com teólogos de São Paulo que viajavam até a região. A experiência a aproximou da metodologia da leitura popular da Bíblia, que se tornaria o foco de seu trabalho nas décadas seguintes.
Para Ayda, não é possível dizer que chegou ao topo, porque ainda há muito a aprender. Essa postura de aprendizado contínuo caracteriza sua abordagem à formação bíblica.
Há 26 anos em Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba, ela retomou o trabalho de formação bíblica que já existia na cidade, mas de forma mais tímida. Aos 96 anos, continua estudando e compartilhando o que aprendeu.
A Bíblia como caminho, não como livro literal
Ayda enfatiza um princípio fundamental sobre a natureza das Escrituras. "A Bíblia não é apenas uma coleção de livros, uma biblioteca. A Bíblia é um caminho. Um caminho a ser seguido. E que a gente precisa entender. Não se pode fazer uma leitura ao pé da letra. Tem que penetrar fundo, tem que ir na raiz", afirma.
Essa compreensão orienta toda a metodologia que ela utiliza nos grupos de formação. A leitura literal, segundo essa perspectiva, impede o acesso ao sentido profundo dos textos.
A proposta é ir além da superfície das palavras. Penetrar fundo significa buscar o contexto histórico, social e espiritual das passagens bíblicas.
Como funciona o método CEBI de leitura bíblica popular
O CEBI foi fundado em 20 de julho de 1979 como uma associação sem fins lucrativos de caráter ecumênico. Segundo o diretor nacional Erivaldo José da Silva, a organização reúne pessoas de diferentes idades e denominações cristãs em torno de uma proposta comum.
"É formado por mulheres, homens, jovens, idosos, crianças de diversas denominações cristãs, reunidos pelo propósito de fortalecer esse jeito de ler a Bíblia a partir dos pequeninos", explica Erivaldo.
A proposta tem raízes nos debates sobre leitura bíblica popular surgidos a partir das experiências das comunidades cristãs na América Latina. Um episódio dos anos 1960 ilustra essa perspectiva.
Em uma região pobre, um biblista explicava a proibição de comer carne de porco presente no Levítico. A justificativa era que, no deserto, a carne poderia estragar pelo calor. Um agricultor respondeu: "Hoje, com essa mesma lei, Deus nos manda comer carne de porco, porque é a única que temos para nossos filhinhos".
Segundo Erivaldo, ali surgia um novo jeito de ler a Bíblia. Uma leitura que nasce a partir da realidade do povo, da defesa da vida. Nesse método, a realidade cotidiana é ponto de partida para a leitura das Escrituras.
Os três passos práticos do método CEBI
O coordenador regional do CEBI no Vale do Paraíba, Rodrigo dos Santos, detalha como funciona a metodologia em termos práticos. São três etapas sequenciais.
Primeiro passo: observar a realidade, o chão da vida onde as pessoas estão. É a partir do contexto concreto que a leitura começa.
Segundo passo: olhar a Palavra no seu contexto histórico e social, fazendo a pergunta central: "É que nem hoje?". Esta questão, ensinada por Frei Carlos Mesters, um dos fundadores, conecta o texto antigo à vida presente.
Terceiro passo: decidir uma ação prática para transformar aquela realidade. A leitura não se encerra na compreensão, mas se completa na ação.
Tudo acontece em roda, sem professor em cátedra. Todos têm voz. O formato circular simboliza e viabiliza a participação igual de cada membro do grupo.
Por que o método reúne diferentes tradições cristãs
A proposta do CEBI estrutura-se a partir do diálogo entre diferentes tradições cristãs. É um movimento explicitamente ecumênico.
Segundo Rodrigo dos Santos, em roda, católicos, luteranos, presbiterianos, metodistas e batistas sentam lado a lado. Ninguém pergunta a placa da igreja. O que une é a partilha da mesma Palavra e a busca por justiça.
Embora tenha relação histórica próxima com setores da Igreja Católica, o CEBI não é um órgão oficial da instituição. Rodrigo explica que se trata de um movimento autônomo e ecumênico.
O vínculo é profundo, fraterno e histórico. Nasceu ligado ao Vaticano II e às Comunidades Eclesiais de Base, com apoio de padres, bispos e leigos. Atua até hoje em paróquias e pastorais sociais.
O que motiva pessoas como Ayda a dedicar décadas à formação bíblica
Para Rodrigo dos Santos, uma perspectiva específica ajuda a explicar a permanência de pessoas como Ayda na formação bíblica por décadas.
"A motivação é descobrir que a Bíblia não é um livro neutro, mas um manancial de libertação que dialoga com as dores do povo. A comunidade olha para o texto como um espelho e diz: 'É que nem hoje'", explica.
A experiência de ver a própria realidade refletida nas Escrituras cria um vínculo poderoso com o texto. Não é leitura acadêmica ou devocional abstrata.
É um encontro entre a vida concreta das pessoas e as narrativas bíblicas. Esse encontro gera transformação pessoal e comunitária, o que sustenta o compromisso de longo prazo com a formação.
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