Porto Seguro paga pescadores para capturar peixe-leão e proteger a biodiversidade
Peixe-leão (Pterois volitans) não possui predadores naturais nas águas brasileiras

No litoral de Porto Seguro, uma espécie vistosa com listras e espinhos venenosos avança sem predadores naturais. O peixe-leão, nativo do Indo-Pacífico, já chegou aos recifes e bancos de rodolitos do Extremo Sul da Bahia, região de altíssima diversidade marinha.
Para conter a invasão biológica, o município criou um sistema de incentivo financeiro direto: R$ 10 por cada exemplar capturado e entregue à colônia de pescadores. Mais de 400 animais foram recolhidos apenas em agosto, primeiro mês do programa. A medida integra um plano municipal amplo que articula monitoramento, pesquisa, capacitação e preparação de uma futura cadeia produtiva para consumo seguro do invasor.
O que torna o peixe-leão uma ameaça ao ecossistema marinho
O peixe-leão (Pterois volitans) não possui predadores naturais nas águas brasileiras. Essa ausência de controle biológico permite que a espécie se reproduza e se alimente sem resistência, exercendo pressão direta sobre peixes nativos.
Segundo a oceanóloga Martina Rossato, gestora do Parque Natural Municipal Marinho do Recife de Fora, o animal tem capacidade excepcional de predação, reprodução e ocupação de habitats marinhos. A combinação dessas características amplifica o impacto sobre espécies locais.
Além do risco ecológico, o peixe representa perigo para seres humanos. Seus espinhos inoculam toxina que provoca dor, vermelhidão e febre. Casos mais graves podem desencadear convulsões.
Por que a região de Porto Seguro é especialmente vulnerável
O Extremo Sul baiano possui diversidade de ambientes marinhos que torna a invasão particularmente preocupante. A área abrange plataforma continental extensa, bancos Royal Charlotte e proximidade com Abrolhos.
Esses ambientes incluem recifes, bancos de rodolitos e grande variedade de peixes e invertebrados. A riqueza de habitats oferece ao invasor múltiplas oportunidades de estabelecimento e dispersão.
Quanto mais cedo os indivíduos são detectados e retirados, maior a possibilidade de reduzir impactos da invasão. O tempo é fator determinante para o sucesso das estratégias de contenção.
Como funciona o programa de captura bonificada
O município estabeleceu pagamento de R$ 10 por exemplar capturado e entregue na colônia de pescadores Z-22. O valor foi definido em reunião com participação social e pode ser revisto.
O incentivo mobiliza pescadores que conhecem profundamente a região e atuam em diferentes pontos do litoral. Essa capilaridade permite monitoramento mais amplo do que seria possível apenas com equipes técnicas.
Os animais entregues são encaminhados à Universidade Federal do Sul da Bahia. Ali passam por triagem, biometria e outros estudos sobre alimentação, habitat e padrões de estabelecimento da espécie.
O programa de bonificação é considerado medida emergencial e temporária. A prefeitura pretende reduzir gradualmente o incentivo financeiro conforme a estruturação de uma cadeia produtiva para beneficiamento e comercialização do pescado.
O Plano Municipal de Ação contra a invasão biológica
Publicado em agosto, o documento organiza ações integradas de monitoramento, captura, pesquisa, capacitação, comunicação e articulação institucional. A estrutura envolve diferentes secretarias municipais.
As áreas de Meio Ambiente, Pesca, Turismo e Saúde atuam de forma coordenada. A universidade, a Colônia Z-22, operadores de mergulho e órgãos ambientais também integram a rede de colaboração.
A prefeitura iniciou orientação de pescadores e mergulhadores antes dos primeiros registros em Porto Seguro, em 2025. O treinamento abordou identificação da espécie, comunicação de avistamentos e cuidados na manipulação dos animais peçonhentos.
O município também articula com outras cidades do Extremo Sul da Bahia para reunir informações sobre distribuição e efeitos da espécie invasora nos ambientes marinhos da região.
Monitoramento ampliado em unidade de conservação
O Parque Natural Municipal Marinho do Recife de Fora registrou o primeiro peixe-leão em 12 de junho. Um segundo indivíduo foi confirmado em ponto de mergulho no dia 10 de setembro.
A unidade de conservação de proteção integral intensificou o monitoramento após os registros. A captura no parque é restrita a pessoas capacitadas e autorizadas, seguindo protocolos específicos.
Na última semana antes da publicação dos dados, profissionais que atuam diariamente na unidade receberam treinamento especializado. Guias, fotógrafos, cinegrafistas e guardas foram capacitados para utilizar equipamentos de captura e acondicionamento seguro dos animais.
Da emergência à cadeia produtiva sustentável
A estratégia de longo prazo prevê transformação do problema ecológico em oportunidade econômica. O objetivo é estruturar beneficiamento, comercialização e consumo do peixe-leão seguindo protocolos de segurança alimentar.
Segundo Rossato, a ideia não é manter pagamento permanente por indivíduo. O valor econômico do pescado deve, no futuro, sustentar a captura sem necessidade de incentivo público.
A avaliação do município reconhece que eliminar completamente a espécie em escala regional não é viável. A meta é manter pressão constante de retirada, especialmente em áreas prioritárias para conservação.
Em agosto, primeiro mês de funcionamento do incentivo, foram entregues 442 peixes-leão ao projeto. Esse número, porém, não representa a totalidade de animais retirados do litoral, pois pescadores atuam em múltiplas áreas e nem todos exemplares capturados são necessariamente entregues ao programa.
A Rádio de Minas. Tudo sobre o futebol mineiro, política, economia e informações de todo o Estado. A Itatiaia dá notícia de tudo.



