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Educação na vida adulta melhora memória e raciocínio mesmo após décadas de analfabetismo

Pesquisa das faculdades de Medicina e Educação revela progressos após seis meses de atividades na Educação de Jovens e Adultos (EJA)

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Educação tardia é ferramenta de inclusão social e de promoção da saúde cerebral e possível prevenção de demências • Prefeitura do Rio de Janeiro/Divulgação

Nunca é tarde para aprender e a ciência agora prova que o cérebro colhe os frutos dessa decisão em tempo recorde. Uma pesquisa desenvolvida pelas faculdades de Medicina e de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) demonstrou que adultos e idosos analfabetos apresentaram melhoras significativas na memória e no raciocínio após apenas seis meses frequentando as aulas da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

O estudo foi conduzido pelo psicólogo João Victor de Faria Rocha (mestre pela UFMG e doutorando em Neurociência Translacional pela UFRJ). A grande motivação do projeto é a busca por formas de prevenção, já que ainda não existem tratamentos capazes de curar ou frear o avanço de demências como o Alzheimer.

Na América Latina, a baixa escolaridade é um dos principais fatores de risco modificáveis para o desenvolvimento de demências.

Como a pesquisa foi realizada

O estudo acompanhou adultos e idosos entre 40 e 80 anos matriculados em turmas iniciais da EJA em escolas públicas de Belo Horizonte. Todos tinham habilidades mínimas ou nulas de leitura (média de apenas dois anos de estudo ao longo da vida).

Os alunos passaram por testes neuropsicológicos e exames de ressonância magnética funcional no início das aulas e após seis meses. Eles foram divididos em dois grupos:

  1. EJA Regular: frequência nas aulas tradicionais.

  2. Alfabetização Intensiva: carga horária normal da EJA + 3 horas semanais de reforço exclusivo em alfabetização.

Os resultados no cérebro

Após o semestre letivo, ambos os grupos mostraram evolução, mas quem teve o reforço intensivo alcançou os maiores ganhos:

  • Memória episódica: melhora global na capacidade de aprender e recordar novas informações.

  • Funções executivas: avanço notável no raciocínio, tomada de decisão e velocidade de processamento cerebral.

  • Biologia neural: os exames de imagem comprovaram que quem lia mais apresentou uma maior conectividade entre o córtex pré-frontal (área do raciocínio e julgamento) e o hipocampo (centro gerador de memórias).

O desafio do 'duplo risco'

Ao investigar o passado dos participantes para entender por que não estudaram na infância, os pesquisadores encontraram as respostas clássicas: necessidade de trabalhar cedo, ajuda aos pais e vida na zona rural. No entanto, uma quarta justificativa chamou a atenção: a extrema dificuldade para aprender.

Os dados mostraram que os alunos que relataram esse histórico de dificuldades na infância tiveram pior desempenho nos testes de leitura e menor progresso cognitivo na EJA.

A hipótese: O pesquisador sugere que parte dessas pessoas possa ter transtornos de neurodesenvolvimento não diagnosticados (como dislexia ou TDAH) que persistiram por toda a vida.

Isso coloca esse grupo em uma situação de "duplo risco": além de sofrerem os impactos do analfabetismo, eles se beneficiam menos do modelo tradicional de ensino tardio, tornando-se mais vulneráveis ao declínio cognitivo.

O futuro da EJA e da saúde pública

Os achados do estudo acendem um alerta para a necessidade de customizar o ensino de jovens e adultos. Para o autor da pesquisa, o acolhimento pedagógico precisa ir além de simplesmente ensinar a ler.

  • Estratégias personalizadas: estudantes com dificuldades persistentes precisam de suporte extra, pois o formato atual da EJA pode não ser suficiente para blindar o cérebro dessas pessoas contra o envelhecimento celular.

  • Potencialização: a adição de apenas 3 horas semanais de alfabetização focada já se mostrou capaz de maximizar os efeitos protetivos da educação no cérebro.

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