Depressão materna pode afetar filhos? Estudo aponta impactos na atenção e memória; entenda
Pesquisa liderada pela USP acompanhou 1.949 crianças por 15 anos e encontrou associação entre sintomas depressivos persistentes nas mães, práticas parentais mais severas e prejuízos em funções cognitivas na adolescência

Os efeitos da depressão materna podem ultrapassar o período em que a doença se manifesta e alcançar uma etapa muito posterior da vida dos filhos. Um estudo liderado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) identificou uma associação entre sintomas depressivos persistentes nas mães, práticas parentais mais severas e alterações em funções executivas de adolescentes.
A pesquisa acompanhou 1.949 crianças nascidas em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 2004, desde os primeiros meses de vida até os 15 anos. Os resultados indicaram que adolescentes cujas mães apresentaram sintomas depressivos graves e contínuos tiveram os piores desempenhos em testes de atenção sustentada e memória episódica.
Os resultados foram divulgados pelo Jornal da USP, que destacou que o estudo reforça a importância de identificar e tratar precocemente a depressão materna e, ao mesmo tempo, oferecer suporte às práticas de criação dos filhos.
Depressão persistente e criação mais severa
Segundo o estudo, mães que convivem com sintomas depressivos persistentes têm maior probabilidade de adotar práticas parentais consideradas mais severas. Entre os comportamentos identificados estão controle excessivo, punições físicas ou verbais e menor abertura para o diálogo.
A pesquisa sugere que a relação entre a saúde mental da mãe e o desenvolvimento do adolescente não ocorre necessariamente de forma direta. Um dos caminhos identificados pelos pesquisadores passa justamente pelo ambiente familiar e pela maneira como a criança é criada.
Os pesquisadores avaliaram as mães em diferentes momentos, desde quando os filhos tinham apenas 3 meses de idade até os 11 anos. As práticas parentais foram analisadas quando as crianças tinham 11 anos. Aos 15, os adolescentes passaram por testes cognitivos digitais para avaliar diferentes funções executivas.
Atenção e memória são afetadas
Os adolescentes cujas mães apresentaram sintomas depressivos graves e persistentes ao longo dos anos tiveram os resultados mais baixos em testes de atenção sustentada, que corresponde à capacidade de manter o foco durante determinado período, e de memória episódica, relacionada à lembrança de acontecimentos e experiências.
A hipótese apresentada pelos pesquisadores é que a depressão pode reduzir a capacidade da mãe de lidar com situações de estresse e com as necessidades emocionais da criança. Em determinados casos, isso pode contribuir para uma relação mais hostil ou explosiva dentro de casa. Um ambiente marcado por estresse e práticas parentais severas, por sua vez, pode interferir no desenvolvimento de habilidades relacionadas ao foco e ao autocontrole.
O estudo também encontrou efeitos sobre a memória entre adolescentes cujas mães apresentaram depressão moderada ou sintomas que diminuíram ao longo do tempo. Para os pesquisadores, o resultado reforça que o cuidado com a saúde mental materna não deve se limitar aos períodos mais intensos da doença.
Importância dos primeiros anos
A pesquisa acompanhou as famílias durante um período extenso, o que permitiu observar a trajetória dos sintomas depressivos maternos e relacioná-la posteriormente aos resultados apresentados pelos filhos na adolescência. De acordo com o Jornal da USP, a análise mostrou que o maior uso de práticas parentais severas aos 11 anos mediou a associação entre as trajetórias dos sintomas depressivos das mães, observados desde o nascimento até essa idade, e as funções executivas avaliadas aos 15 anos.
A descoberta não significa que filhos de mães com depressão necessariamente terão problemas cognitivos. Os próprios pesquisadores ressaltam que a magnitude dos efeitos foi modesta e que os resultados, isoladamente, não permitem aplicação clínica individual. Ainda assim, os achados são considerados importantes para compreender como fatores relacionados à saúde mental dos pais e ao ambiente familiar podem participar do desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Impactos podem chegar à vida adulta
As funções cognitivas avaliadas na pesquisa têm relação direta com atividades importantes durante a adolescência e posteriormente na vida adulta. A atenção, por exemplo, é necessária para acompanhar aulas, estudar e realizar tarefas que exigem concentração. A memória também desempenha papel fundamental no aprendizado e na recuperação de informações.
Segundo Alicia Matijasevich, professora associada do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP e orientadora do estudo, dificuldades de atenção e memória durante a adolescência podem repercutir no desempenho escolar, na entrada no mercado de trabalho e nas trajetórias de vida. Em entrevista ao Jornal da USP, a pesquisadora defendeu a ampliação do reconhecimento da importância da saúde mental materna, principalmente em contextos de vulnerabilidade.
Tratamento da mãe não é única resposta
Para os pesquisadores, combater os possíveis impactos da depressão materna exige uma abordagem mais ampla do que apenas tratar os sintomas da doença. O estudo aponta para a importância de combinar o acompanhamento da saúde mental com orientação e apoio às práticas parentais. A ideia é oferecer às mães ferramentas para lidar com as necessidades dos filhos mesmo diante das dificuldades provocadas pela depressão.
No Sistema Único de Saúde (SUS), os resultados podem contribuir para o fortalecimento de estratégias de identificação precoce e acompanhamento de mulheres com sintomas depressivos. Segundo o estudo divulgado pelo Jornal da USP, esse acompanhamento não deveria ficar restrito ao período imediatamente posterior ao nascimento do bebê, mas continuar durante a infância dos filhos.
Entre as possibilidades citadas pelos pesquisadores estão o acompanhamento longitudinal na atenção primária, visitas domiciliares e programas voltados à parentalidade.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.



