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Canabidiol apresenta potencial para controlar biofilme dental, aponta estudo da USP

A pesquisa mostrou que enxaguantes bucais formulados com canabidiol tiveram desempenho semelhante ao da clorexidina

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Unsplash - imagem ilustrativa

O canabidiol (CBD), substância extraída da Cannabis sativa, pode se tornar uma alternativa para o controle do biofilme dental e a prevenção de problemas bucais, como as cáries. É o que indica um estudo desenvolvido por Anna Luísa Araújo Pimenta, pesquisadora de pós-graduação da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP) da Universidade de São Paulo (USP).

A pesquisa mostrou que enxaguantes bucais formulados com canabidiol tiveram desempenho semelhante ao da clorexidina, considerada o padrão-ouro da ação antimicrobiana na odontologia. O CBD, porém, apresentou menor alteração na coloração do esmalte, um dos efeitos adversos associados ao uso prolongado da clorexidina.

Os resultados foram publicados na revista científica Clinical Oral Investigations. O trabalho foi realizado sob orientação da professora Fernanda de Carvalho Panzeri, do Departamento de Materiais Dentários e Prótese da FORP.

Pesquisa busca alternativa à clorexidina

De acordo com Anna Luísa, a pesquisa partiu da necessidade de encontrar opções mais seguras para situações que exigem o uso prolongado de enxaguantes bucais.

“A clorexidina, apesar de ser o padrão ouro, é um produto químico que traz diversos efeitos adversos, como o manchamento dos dentes e a alteração do paladar, e por isso não pode ser administrada por muito tempo”, explica a pesquisadora.

O grupo também buscava avaliar uma substância de origem natural. Como a equipe já desenvolve pesquisas com produtos naturais e o canabidiol apresenta propriedades contra microrganismos, os pesquisadores decidiram investigar se a substância poderia ser incorporada a um produto de higiene bucal e apresentar ação semelhante à da clorexidina.

Testes foram feitos com esmalte bovino

Para realizar o experimento, os pesquisadores utilizaram um modelo que permite expor as amostras às condições do ambiente bucal dos voluntários. O enxaguante com canabidiol, no entanto, não foi aplicado diretamente na boca nem nos dentes dos participantes.

Foram utilizados fragmentos de esmalte de dentes bovinos, material empregado em pesquisas odontológicas por apresentar características estruturais semelhantes às do esmalte humano. Os dentes foram cortados em pequenos fragmentos e polidos para padronizar a superfície das amostras.

Os fragmentos foram colocados em um dispositivo removível, semelhante a uma placa, confeccionado individualmente para cada participante e instalado no céu da boca. Cada dispositivo recebeu seis fragmentos de esmalte, três de cada lado.

Dessa maneira, as amostras ficaram em contato com a saliva, a temperatura e as bactérias naturalmente presentes na boca. O método permitiu avaliar os efeitos dos enxaguantes em condições mais próximas às do ambiente bucal cotidiano.

Ao todo, 13 participantes passaram por cinco fases de testes. Em cada etapa, com duração de sete dias, foi utilizado um dos seguintes produtos: placebo, clorexidina a 0,12% ou enxaguantes com canabidiol nas concentrações de 0,01%, 0,05% e 0,1%.

Os pesquisadores avaliaram alterações na superfície e na resistência do esmalte, mudanças de cor e formação de biofilme, camada fina e aderente composta principalmente por bactérias. Também foram analisadas a presença de leveduras e as características das amostras por meio de microscopia eletrônica.

Para simular uma exposição frequente ao açúcar, um dos lados do dispositivo recebeu uma solução de sacarose a 20% oito vezes ao dia. O outro lado não recebeu a solução e foi utilizado como parâmetro de comparação.

CBD a 0,05% apresentou melhor equilíbrio

Entre as concentrações testadas, o canabidiol a 0,05% apresentou o resultado mais equilibrado. A formulação foi capaz de controlar a formação do biofilme de maneira semelhante à clorexidina, sem provocar alterações importantes na superfície do esmalte e com menor alteração de cor.

As concentrações de 0,05% e 0,1% apresentaram potencial para substituir a clorexidina em determinadas situações clínicas, segundo a pesquisadora.

“A principal vantagem é justamente evitar os efeitos adversos que a clorexidina apresenta com o uso prolongado, mantendo uma eficácia parecida no controle do biofilme”, afirma Anna Luísa.

Já o CBD a 0,01% apresentou ação mais limitada contra o biofilme. Na concentração de 0,1%, a substância conseguiu controlar a formação do biofilme, mas provocou um pequeno aumento na rugosidade do esmalte em uma das situações analisadas, quando comparada à clorexidina.

Clorexidina provocou maior alteração na cor

As análises também identificaram diferenças na coloração das amostras. A clorexidina foi o produto que mais alterou a cor do esmalte, deixando os fragmentos mais escuros e amarelados.

Nos grupos que receberam canabidiol, as alterações de cor foram menores. O resultado é relevante porque o escurecimento dos dentes é um dos efeitos indesejados associados ao uso prolongado da clorexidina.

Na avaliação do biofilme, as concentrações de 0,05% e 0,1% de CBD apresentaram resultados semelhantes aos observados com a clorexidina. As imagens obtidas por microscopia eletrônica também indicaram que o biofilme formado nos grupos tratados com clorexidina e CBD a 0,05% era menos espesso e mais organizado do que o observado no grupo placebo e no grupo tratado com CBD a 0,01%.

Novos estudos ainda são necessários

Apesar dos resultados promissores, o canabidiol ainda não pode ser considerado um substituto da clorexidina para uso clínico. As pesquisadoras destacam que são necessários novos estudos para confirmar a eficácia e a segurança da formulação.

Entre as próximas etapas estão a realização de pesquisas com um número maior de participantes, o acompanhamento dos efeitos por períodos mais longos e estudos específicos sobre a segurança e a eficácia do enxaguante.

Também será necessário investigar por quanto tempo o efeito do canabidiol permanece na boca após a aplicação.

Caso os resultados sejam confirmados nas próximas etapas, ainda serão necessários estudos de segurança de longo prazo e outros procedimentos antes do desenvolvimento de um produto comercial. O processo também dependerá das etapas regulatórias e de eventual registro junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

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