Câncer transmissível? Entenda fenômeno raro identificado por cientistas nos EUA
Estudo publicado pela revista 'Nature' identificou que doença se espalhou entre peixes em um lago na fronteira entre Estados Unidos e Canadá

Uma descoberta considerada extremamente rara pela comunidade científica revelou uma nova forma de transmissão do câncer na natureza. Pesquisadores identificaram, pela primeira vez, um câncer transmissível em peixes de água doce, fenômeno que transforma as próprias células tumorais em agentes capazes de passar de um indivíduo para outro.
A pesquisa, publicada na revista científica Nature na última quarta-feira (22), foi feita com uma população de peixes-gato (Ameiurus nebulosus) que vive no lago Memphremagog, localizado na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá.
Segundo o estudo, a doença foi encontrada no lago após cientistas investigarem, por mais de uma década, misteriosas lesões escuras observadas por pescadores locais nos animais da região. Inicialmente, a suspeita era de que os tumores estivessem relacionados à poluição ou a algum vírus, mas análises genéticas revelaram um cenário muito mais incomum.
O sequenciamento do DNA mostrou que os tumores encontrados em diferentes indivíduos eram geneticamente mais parecidos entre si do que com o organismo que os abrigava. Isso significa que o câncer não surgiu de forma independente em cada animal: as próprias células cancerosas passaram a se comportar como um parasita, migrando de um hospedeiro para outro.
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Outros casos similares
De acordo com a publicação, este é apenas o quarto tipo de câncer naturalmente transmissível já documentado em animais. Antes disso, casos semelhantes haviam sido registrados apenas em cães, nos diabos-da-Tasmânia e em alguns moluscos, como mexilhões e mariscos. A descoberta também representa o primeiro registro desse fenômeno em peixes e em um ambiente de água doce.
Embora o mecanismo exato da transmissão ainda não tenha sido totalmente esclarecido, os pesquisadores acreditam que ela possa ocorrer durante períodos de reprodução, quando há contato físico intenso entre os animais, ou por meio de células tumorais liberadas na água e no sedimento. Em algumas áreas do lago, entre 23% e 37% dos indivíduos examinados apresentavam a doença, indicando uma disseminação significativa na população local.
Os cientistas afirmam que a descoberta pode ajudar a compreender melhor a evolução do câncer e as estratégias que determinadas células desenvolvem para escapar do sistema imunológico e sobreviver em novos hospedeiros. Essas informações poderão contribuir para futuras pesquisas sobre biologia do câncer e doenças transmissíveis em diferentes espécies.
Há risco para seres humanos?
Especialistas ressaltam que não há evidências de que esse câncer possa ser transmitido para pessoas. Diferentemente de vírus e bactérias, as células tumorais identificadas no estudo são adaptadas exclusivamente ao organismo da espécie em que evoluíram e seriam rapidamente eliminadas pelo sistema imunológico humano.
Ainda assim, pesquisadores recomendam que animais visivelmente doentes não sejam consumidos, tanto pelo estado de saúde comprometido quanto pela possibilidade de apresentarem outros contaminantes ou infecções associadas.
O peixe-gato é considerado uma espécie indicadora da qualidade da água. O Lago Memphremagog, onde os peixes doentes foram encontrados, fornece água potável para mais de 175 mil pessoas, o que torna o surto de câncer nos animais uma preocupação para o monitoramento de contaminantes ambientais.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.







