Um estudo realizado pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), investigou a teleconsulta para pacientes com diabetes tipo 2 atendidos pelo SUS. Os resultados foram publicados na revista científica The Lancet.
A pesquisa comparou o acompanhamento de pacientes feito por endocrinologistas via teleconsulta com o atendimento presencial. Os dados revelaram que ambos os formatos são igualmente eficazes.
“É essencial contar com um estudo que comprove a segurança da teleconsulta. Isso oferece respaldo para médicos e gestores de saúde que adotam essa modalidade”, explica Daniela Rodrigues, uma das autoras do estudo.
Rosa Lucchetta, gerente de pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, complementa que a teleconsulta não substitui a consulta presencial, mas representa uma alternativa segura e válida. “Nosso objetivo foi demonstrar que a teleconsulta é tão eficiente quanto o atendimento tradicional, sem comprometer a segurança do paciente”, reforça.
O impacto da teleconsulta no tratamento do diabetes
O estudo acompanhou 278 pacientes do SUS em Joinville (SC), com idades entre 54 e 68 anos, sendo 60% deles mulheres. A cidade foi escolhida por já contar com uma estrutura consolidada de telemedicina no serviço público.
A escolha do diabetes tipo 2 como foco da pesquisa se deve à alta prevalência da doença e às suas consequências para os pacientes e para o sistema de saúde. Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, mais de 13 milhões de brasileiros convivem com essa condição, o que representa 6,9% da população.
Daniela Rodrigues destaca que o diabetes exige acompanhamento contínuo, o que torna a teleconsulta uma ferramenta útil para facilitar esse monitoramento. Sem um tratamento adequado, a doença pode causar complicações graves, como problemas cardiovasculares, renais, oculares e neurológicos, além de aumentar os riscos de mortalidade.
Os participantes do estudo foram divididos em dois grupos: um recebeu atendimento presencial e o outro, remoto. Ambos tiveram a mesma quantidade de consultas e acesso apenas a medicamentos e exames oferecidos pelo SUS. Ao final da pesquisa, constatou-se que a teleconsulta com um especialista foi tão eficaz quanto o acompanhamento presencial.
Por se tratar de um ensaio clínico randomizado, no qual os pacientes foram distribuídos aleatoriamente entre os grupos, o estudo tem um alto grau de confiabilidade.
“A consulta presencial continua sendo o padrão ouro na medicina”, afirma Rodrigues. “Porém, a teleconsulta pode ampliar o acesso ao atendimento especializado, especialmente para populações que vivem em áreas remotas e enfrentam dificuldades de deslocamento.”
Além das comunidades isoladas, pessoas que residem em grandes centros urbanos também podem se beneficiar, evitando problemas como trânsito intenso e dificuldades de mobilidade.
Telessaúde no Brasil: um recurso estratégico
O SUS foi pioneiro na implementação da telessaúde no Brasil, com a criação do Programa Telessaúde Brasil Redes, em 2006. Essa iniciativa faz parte da estratégia do Programa SUS Digital.
Com o avanço das tecnologias, especialmente durante a pandemia, o uso da telemedicina se expandiu. Em 2022, o Conselho Federal de Medicina (CFM) regulamentou a prática, estabelecendo diretrizes para a prestação de serviços médicos mediados por tecnologia.
Para Emmanuel Fortes, 1º vice-presidente do CFM, a telemedicina representa um avanço importante, mas não deve substituir completamente os atendimentos presenciais. “Certos aspectos clínicos, como a coloração da pele ou odores que indicam um problema de saúde, não podem ser percebidos à distância. Além disso, emergências devem ser tratadas diretamente em hospitais e unidades de atendimento”, explica.
Ele também ressalta que a telemedicina não pode ser usada como justificativa para reduzir a presença de médicos em regiões remotas. “É fundamental priorizar a contratação de profissionais para atender a população dessas áreas”, defende.
A integração da teleconsulta no SUS
A teleconsulta não opera de forma isolada no SUS, mas faz parte de um sistema integrado que envolve secretarias estaduais e municipais de saúde, além de universidades que oferecem suporte técnico.
A professora titular da Fiocruz, Ilara Hämmerli, especialista em saúde coletiva, destaca que a teleconsulta deve estar inserida dentro de uma rede de atendimento bem estruturada.
“O atendimento médico, seja ele presencial ou remoto, precisa estar conectado a um sistema que permita a realização de exames, encaminhamentos e internações, quando necessário. O grande desafio é garantir essa integração e assegurar que o paciente tenha acesso a todos os níveis de cuidado”, afirma.
Outro fator crucial para a expansão da telessaúde no Brasil é garantir que a população tenha acesso a dispositivos e conectividade de qualidade. Dados do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) indicam que apenas 22% dos brasileiros com mais de 10 anos possuem uma conexão adequada.
Além disso, questões como a segurança dos dados médicos e a proteção da privacidade dos pacientes são pontos fundamentais. Hämmerli alerta para o risco de informações sensíveis serem armazenadas ou compartilhadas por grandes empresas de tecnologia.
“A telemedicina é um recurso valioso, mas seu sucesso depende de uma abordagem abrangente que considere desde infraestrutura até a segurança das informações. Não basta apenas disponibilizar um médico online, é preciso garantir um atendimento completo e seguro”, conclui.
O crescimento da telessaúde no Brasil
A Rede Brasileira de Telessaúde, gerida pelo Ministério da Saúde, possui 27 núcleos espalhados pelo país, cobrindo todos os estados. Entre 2023 e 2024, foram realizados cerca de 4,6 milhões de atendimentos remotos, incluindo teleconsultas, telediagnósticos, emissão de laudos à distância e teleconsultorias entre profissionais de saúde.
Desde a pandemia, os serviços de telessaúde cresceram exponencialmente. Na Atenção Especializada à Saúde, o número de consultas aumentou 99,8% entre 2022 e 2024, ultrapassando até mesmo os registros de 2021, ano crítico da crise sanitária.
Até 2026, o Ministério da Saúde pretende implantar dois novos Núcleos de Telessaúde por estado, ampliar os pontos de atendimento remoto e fortalecer a integração entre serviços presenciais e virtuais.
Em nota, o Ministério reforça que a telessaúde é uma estratégia essencial para democratizar o acesso à saúde no Brasil. “A teleconsulta complementa os atendimentos presenciais, permitindo que mais pessoas tenham acesso a serviços especializados, especialmente em áreas de difícil acesso.”
Para expandir a digitalização do SUS, o governo federal investiu R$ 464 milhões em 2024, garantindo a adesão de todos os estados e municípios ao Programa SUS Digital.
Com os avanços na telessaúde, o Brasil caminha para um sistema de atendimento médico mais acessível, eficiente e integrado, aproveitando as tecnologias para garantir um serviço de qualidade para toda a população.